2 de set. de 2019

ALÉM DA PARTITURA - Banda Fulô da Chica Boa mantém a tradição do pífano em Alagoas

Por: Luiz Cláudio Barros, Hermes Winícius, Jeydson Silva e Leonardo Ferreira.

   

Banda Fulô da Chica Boa Foto: Reprodução/Instagram


O som do pífano é inconfundível em qualquer que seja o ambiente. Por ser mais alto e estridente, se diferencia com facilidade de outros tipos de flauta. A origem do instrumento remonta ao início do cristianismo, pois era usado para saudar a Virgem Maria nas festas natalinas. Em uma região de predominância católica, a tradição de como tocar e como fazê-lo se espalha oralmente pelas famílias.  

O pífano pode ser feito de matérias-primas naturais como o bambu ou ossos, mas a versão mais vista atualmente é feita de cano PVC. Cada qual tem suas medidas em palmos e detalhes que somente os produtores podem contar na hora de furar um dos sete buracos que compõem o instrumento. 

Pela ausência de um estudo musical mais aprimorado pra fazer um modelo padrão, há quem fale que dois pífanos só podem fazer parte da mesma banda se tiverem a afinação perfeita, que só é conseguida se forem feitos pela mesma pessoa no mesmo dia. Diferentemente das flautas e de instrumentos mais eruditos, o "pife" tradicional brasileiro não é tocado com partituras. O instrumentista, assim como o produtor do instrumento, aprende através da cultura oral.

Foi assim que Washington da Anunciação, professor de Teatro da Ufal, descobriu seu gosto pela cultura popular e ficou fascinado com o pífano. No final dos anos 1970, ainda como estudante universitário, teve seu talento reconhecido por Aloísio Galvão. Nasce assim a Bandinha de Pífanos Fulô da Chica Boa.

"Eu não sei música e não domino partitura. O pífano que eu toco é um que eu não faço questão nenhuma de evoluir tecnicamente, porque é aquele que aprendi com os pifeiros quando ainda era uma criança, então eu toco de ouvido, como eles dizem. Eu me junto com um cara como o Abel dos Anjos, músico da Orquestra Sinfônica da Ufal, e nós fazemos uma primeira e uma segunda que só você ouvindo pra ver (risos). Nem me importo com os erros, o importante é nos espelhar na cultura e manter a brincadeira sempre", comentou Washington.

SURGIMENTO DA BANDA

Apresentação da Bandinha em Abril de 1983. Foto: Arquivo Pessoal

A Bandinha de Pífano Fulô da Chica Boa surgiu no final da década de 70 com o apoio da Universidade Federal de Alagoas, do projeto de Extensão Cultural e a motivação incondicional de Théo Brandão, que considerava a banda como um fenômeno folclórico. O nome é uma homenagem à Francisca de Oliveira, avó de Washington que era popularmente conhecida como Chica Boa.

“A minha avó era uma rezadeira muito popular na nossa região e adorava banda de pífano. Toda vez que as bandinhas passavam na porta, ela saía para dançar. Isso acabou por influenciar meu gosto pelo instrumento e é por isso que o nome dela batiza a banda. É uma figura protetora”, relembrou Washington.

A família Da Anunciação tem suas origens na Praça Santa Tereza. Foi lá que Washington teve seu primeiro contato com as bandas de pífano que faziam cortejo pela região e, acompanhando-os, descobriu que tinha uma excelente capacidade para o sopro. Um talento que até lhe gerou problemas no Grupo Escolar Sete de Setembro.

“A professora dizia que eu parecia um sabiá. Aí chamou minha mãe, dona Hélia, pra reclamar do tanto que eu assobiava. ‘Cuide desse menino que às vezes ele atrapalha’ (risos). Eu sempre gostei do sopro, imito juiz de futebol, imito alguns pássaros e nunca ficava tonto enquanto soprava. Esse talento depois viria a ser reconhecido na universidade e influenciaria no surgimento da banda”, refletiu Washington.

A Fulô da Chica Boa atualmente conta com cinco membros: Washington da Anunciação e Abel dos Anjos tocam pífano, Wellington da Anunciação é o zabumbeiro, Williams da Anunciação toca caixa e Pedro Ralado toca pratos.

UMA QUESTÃO FAMILIAR


Williams entrou na banda “por acaso”, substituindo membros tocando prato ou caixa. Assim como Washington, desde novo demonstrou interesse pelos folguedos alagoanos. Ele entende que o pífano promove muito além de musicalidade.

A formação da banda. Da esquerda para a direita: Abel, Washington, Wellington, Williams e Pedro. Foto: Reprodução/Instagram
“Tem um lado emocional em tocar. São três irmãos e um sobrinho e por vezes é tão raro estarmos juntos, então sempre que aparece a oportunidade a gente toca. E se a oportunidade não aparecer, a gente manda mensagem no grupo do WhatsApp e combina pra tocar domingo à tarde na área fechada na Pajuçara”, revelou Williams.

As festas da família Da Anunciação sempre têm ao menos uma atração confirmada: A Banda Fulô da Chica Boa anima os convidados com seu repertório baseado nos principais sucessos da Banda de Pífanos de Caruaru, composta pelos irmãos Biano, alagoanos de origem que se estabeleceram como referências musicais.

Banda Fulô da Chica Boa durante apresentação realizada em aniversário. Foto: Reprodução/Instagram

As apresentações duram por volta de 30 minutos e contam com clássicos sucessos como “A Briga do Cachorro com a Onça”, composição de Sebastião Biano. Algumas críticas ao repertório e à sonoridade surgem até dos próprios familiares, mas Williams enxerga a arte do pífano com positividade e como algo forte, mesmo no atual cenário.

“Nós recentemente descobrimos um grupo no Facebook chamado ‘Pegue o Pife’. O que tem de pifeiro espalhado pelo mundo é de admirar. Isso motiva muito o nosso trabalho. Nós sempre trabalhamos com muita alegria, independentemente de qualquer coisa. A empolgação é maior do que banda”, brincou Williams.


O CARREGADOR DE PIANO DAS ARTES

Washington da Anunciação com seu inseparável pífano. Foto: Reprodução/Instagram

Washington da Anunciação pode ser considerado como um baluarte da cultura alagoana. Além de ser instrumentista e professor de teatro, o pifeiro já se envolveu com fotografia, cinema e é quiromante.

Durante as conversas a recordações sobre importantes acadêmicos com quem conviveu, tratou até de uma histórica noite de caipirinha e palestras com Paulo Freire. Washington foi casado com Margarida Freire, sobrinha do pedagogo.

O professor de teatro chegou a trabalhar com a produção de musical de Tim Maia e Herbert Viana, além de ter tocado com Esther Alves, uma das maiores flautistas do país, a quem presentou com um pífano que ele mesmo fez. E, como não podia faltar, teve a oportunidade de tocar seu instrumento favorito ao lado do mestre da Banda de Pífano de Caruaru. Para Washington, faltam poucos pifeiros para conhecer no Nordeste.

“Hoje tenho grandes parceiros como o Mestre Gama e o Zil de Riacho Doce que me dão sustentação produzindo pifes afinadíssimos. Eu mesmo faço alguns com PVC e uma tesourinha, assim como os mestres de zabumba de Caruaru”, revelou Washington.


APOIO


Apesar de todo o currículo, Washington e a Banda Fulô da Chica Boa não fazem distinção na hora de tocar. Pode ser com o amigo pessoal Chau do Pife ou mesmo com as bandas do interior que passam pela rua.

“Quando as bandinhas do Pilar ou de outros lugares aparecem, eu faço questão de descer com as minhas parelhas e me juntar com as parelhas deles para tocar pífano e fazer um forró na hora. E aí a gente esquece tempo e espaço. Claro, tudo isso depois da gente tomar um cafezinho e conversar um pouco”, contou Washington.

Em meio às conversas com os pifeiros mais humildes, Washington já descobriu muito sobre a realidade das bandas de pífano no estado de Alagoas.

“É um cenário de muita dificuldade. Quando eu vou na casa de um deles, as pessoas têm uma situação muito sofrida. Eu vou tentando ajudar e acho que é muito importante que nós façamos essa aproximação. Eu sinto que a gente não tem apoio nenhum. Graças à própria evolução da história, a gente paga pra tocar”, desabafou Washington.

A partir de 2013, a Banda Fulô da Chica Boa começou a se arriscar nos editais oferecidos pela Secretaria de Cultura de Maceió, conseguindo realizar shows no Shopping e até participando de alguns shows de forró espalhados pela cidade.

Banda de Pífanos Fulô da Chica Boa durante apresentação no São João do Parque Shopping Foto: Reprodução/Página do Facebook
Apesar disso, o grande foco de Washington e seus irmãos é não recorrer ao poder público. Tradicionalmente eles tocam nas feiras livres do Tabuleiro e do Jacintinho, ganhando dinheiro na “rodada do chapéu” e sendo a sensação para todos os públicos. Recentemente, inclusive, estiveram participando de um evento em solidariedade ao bairro do Pinheiro.

“A gente tem que despertar. Se ficar com a ideia de que a banda de pífano está acabando, ela realmente vai acabar. Se a gente começa a tocar em uma praça, faz eventos, vai aparecer alguém que já tocou flauta ou que tem interesse em aprender a fazer um pífano e vai expandir isso para as próximas gerações. Essa ideia minha é válida para todos os folguedos. Está no sangue. Ao ver, você vai despertar, se emocionar e querer fazer parte do grupo. Nós precisamos estar visíveis”, destacou Williams.

O pífano é um instrumento de som inconfundível. Ser ouvido não é o problema, o maior trabalho é realizado por bandas como a Fulô da Chica Boa, que se esforçam todos os dias para serem vistas.