20 de ago. de 2019

Museu Manoel da Marinheira expõe o legado da tradicional família de escultores

Por: Luiz Barros, Adelle Joyce e Iara Melo

A fauna encantada toma conta da Mata Atlântica. (Foto: Luiz Barros)


O Balneário Águas de São Bento é um dos cartões-postais da cidade de Boca da Mata. Localizado na Fazenda Bento Moreira, o ponto turístico encanta pelos elementos naturais que o compõem. Uma área especial privilegiada composta em quase um terço por reserva da Mata Atlântica.
O visitante percorre, de trem, toda a extensão da fazenda, observando as plantações de açaí, os pássaros nativos da mata e, claro, as águas que dão nome ao espaço, mas a última parada é a visita ao Museu Manoel da Marinheira.  Um espaço fundado em 2003 após a desativação de um grupo escolar que atendia aos moradores da fazenda.
O tímido espaço de 10 salas parece pequeno para todo o talento esbanjado em mais de 1500 esculturas. É o verdadeiro xodó do industrial Jorge Tenório Maia, dono da fazenda, curador do Museu e um dos grandes colecionadores de arte popular do Brasil.
A relação entre “Seu” Jorge e o mestre Manoel da Marinheira tem seus pilares fundamentados na década de 60, quando o usineiro veio morar em Boca da Mata e se encantou pelas esculturas de animais feitas pelo artesão. Amigo pessoal e maior fã, Seu Jorge começou então a montar seu acervo, que não para de crescer com o passar dos anos, mesmo após o falecimento de Manoel em 2012.

Jorge Tenório no funeral de Manoel da Marinheira em 2012. (Foto: André Rocha)
A visita da equipe foi simpaticamente acompanhada por Róbson. Por não se tratar de um dia normal de visitação, a palestra do biólogo não fez parte do protocolo, mas Róbson, um dos responsáveis pelo buffet que atende os visitantes, assumiu a responsabilidade e colocou sua experiência no local em prática, explicando os pormenores de cada obra e de cada visita.
“Muita gente que vem de fora acredita até que há um parentesco entre o Seu Jorge e o Manoel, porque não acreditam ser possível alguém possuir um acervo tão grande, incluindo a primeira obra dele, e não ter qualquer parentesco, mas de fato eles não têm qualquer laço familiar”, disse Róbson.

OBRAS DE FAMA INTERNACIONAL


Décadas de história e talento passadas de geração para geração. O pai de Manoel era um grande especialista na produção de imagens de santos de madeira, mas também fazia animais na fauna brasileira, algo que influenciou Manoel ainda na juventude a entrar no ramo e tornar a atividade o meio de sustento de sua família.
O escultor casou-se duas vezes e foi pai de 20 filhos, 10 de cada matrimônio. Cinco deles herdaram o dom do pai e dão continuidade ao legado da família: Antônio, Severino e Cícera, do primeiro casamento, André e Manoel Filho do segundo.
O museu conta com imagens de Manoel ensinando sua arte para os filhos. (Foto: Luiz Barros)
Nosso guia especial é testemunha do “fenômeno Família Marinheira” em nível internacional. Peças do mestre podem ser encontradas nos Estados Unidos e em diversos países da Europa.
“Eu trabalhei como lixador com os filhos dele há alguns anos. Era rotina comum eles receberem ligações com pedidos da Europa, principalmente peças de arte sacra feitas pela Maria [filha de Manoel]”, destacou Róbson.
A versão de Róbson é endossada por Ana, uma das companheiras de visita da equipe de reportagem. Aluna da Ufal, ela conta que bastou se apresentar como bocamatense para que um professor associasse a cidade ao mestre.
“Ele disse que tomou conhecimento da família Marinheira quando viajou para a França para o pós-doutorado e me perguntou se eles ainda moravam em Boca da Mata. Então pediu para eu falar com eles para que fizessem uma escultura de São Miguel Arcanjo, em cumprimento a uma promessa da tia dele. Procurei a Cícera e os irmãos e, três meses depois, ele recebeu a escultura com lágrimas nos olhos”, recordou Ana.

A ARTE COMO EXPRESSÃO


Maria Cícera foi a única filha que seguiu a profissão do pai, só que jamais pode ouvir os conselhos de Manoel. Surda e muda desde o nascimento, assim como Tonho e Severino, ela encontra nos troncos de jaqueira uma maneira de expressar a fé, por isso seguiu a trilha do avô e é especialista em artes sacras. 
Coleção de arte sacra presente no museu. (Foto: Luiz Barros)
Uma imagem em miniatura de um santo pode custar até 600 reais, a depender da riqueza de detalhes e do tempo necessário para a conclusão da obra, mas obras grandes chegam a ser avaliadas em 30 mil reais. 
As obras sacras ficam dispostas no salão principal do museu e variam entre imagens de Cristo crucificado com mais de dois metros de altura e uma estátua de Hotei, senhor da magnanimidade e um dos sete deuses de boa sorte da espiritualidade asiática. O sorriso de satisfação dele é um demonstrativo médio das reações dos visitantes do Museu Manoel da Marinheira.
Hotei, confundido rotineiramente com Buda, também está no acervo do museu. (Foto: Luiz Barros)
Os traços de cada irmão ficam evidentes em cada obra. Severino tem um estilo mais reflexivo, enquanto Tonho se apresenta de maneira mais rústica e similar ao pai. Superando as dificuldades, eles são capazes de contar histórias através da arte.

NÃO É SÓ MARINHEIRA E NEM SÓ MADEIRA


Em 2017, a Revista Graciliano organizou durante as comemorações dos 200 anos de Emancipação Política de Alagoas a mostra “A Flora Encantada”, que contou com 60 peças do acervo do Museu Manoel da Marinheira, sumariamente a obra dos quatro homens e do discípulo Fábio, que possui extremo talento para obras de grande porte.
André e Manoel Junior são os principais representantes da família em exposições a nível nacional. Por serem os dois irmãos com capacidade de se comunicar, acabam assumindo o protagonismo. André tem um estilo versátil e inovador, recebendo há algum tempo a alcunha de “mestre” que o pai carregava. Já o irreverente Manoel Junior trabalha mais com o aspecto imaginativo da arte e entrega composições de alta peculiaridade.
Acervo impressiona pela riqueza de detalhes. (Foto: Luiz Barros)
Mas o que chama a atenção no museu é que, apesar do nome e do claro enfoque na família Marinheira, há outras peças com características diferentes que podem ser encontradas por lá. Entre as grandes esculturas em jaqueira, podem ser encontradas miniaturas de tratores e caminhões, simbolizando os equipamentos da fazenda Bento Moreira e até mesmo da Usina Triunfo, algo que também encantou Seu Jorge.
“Essas produções com sucata são do Julião. Ele não é da família, mas o Seu Jorge é um grande fã do que ele faz. O Julião passa pelas oficinas procurando coroa, pinhão, todo tipo de engrenagem, para construir as obras dele”, disse Róbson enquanto apontava para um trator que tem por base principal uma máquina de costura.



Julião produz obras com sucata e é mais um dos artistas apoiados pelo museu. (Foto: Luiz Barros)




“É A ARTE”


O Museu Manoel da Marinheira é um expoente da ressignificação que a arte pode construir. Em meio às reservas de Mata Atlântica, jaqueiras inativas, que param de dar frutos e são espécies exóticas de alta resistência, dão forma a esculturas através das ferramentas dos talentosos irmãos e seus aprendizes. 1535 peças expostas por um colecionador apaixonado pela sua cidade e pela arte popular.
No fim da visitação da equipe, agradecemos toda a receptividade de Róbson, novos visitantes aparecem e questionam como é possível alguém gastar tanto dinheiro com um acervo. O guia do dia, de bate-pronto, respondeu de maneira contundente:
“Isso é a arte. Para quem gosta, a arte não tem preço”.
Uma amizade cultural. (Foto: Luiz Barros)
(Fotos: Luiz Barros)