10 de abr de 2019

Sementes do pinheiro: Lutando pela cultura em meio ao medo

Por Jardel Omena, Jorge Sutareli, Saulo Araújo e Thieny Lima

Desde fevereiro de 2018, alguns bairros da cidade de Maceió vêm sofrendo com constantes rachaduras, buracos e até mesmo tremores de terra. O primeiro desses bairros a ter uma real preocupação foi o Pinheiro; um local onde se encontram mais variados comércios, casas, apartamentos, hospitais; tudo isso cheio de variedades culturais e com uma presença ativa da população local. 

Há mais de um ano os problemas vêm crescendo, junto do Pinheiro, outros bairros começam a se perceber em uma situação parecida, como o caso do Mutange e Bebedouro. Porém, o caso do Pinheiro parece mais preocupante. Diante de buracos, rachaduras, simulação de evacuação, abandono das casas e decreto de calamidade pública, os moradores se amedrontam cada vez mais, junto do crescimento do medo cresce uma pergunta: O que ocorrerá com a cultura local diante dessa situação? 

Lígia, 49 anos, é moradora do bairro do Pinheiro; professora e coordenadora de uma escola estadual no próprio bairro, ela comenta sobre a maneira que os acontecimentos têm a afetado. 

“Tenho uma relação muito especial com esse bairro. Ele faz parte de minha vida familiar, o nascimento e minha moradia; minha vida estudantil, realizei todo meu ensino básico; e minha vida profissional, é aqui onde eu trabalho". 

 Viver em um local de risco sem dúvidas tira o sono de qualquer pessoa, mas ao lembrar do passado, um sentimento de conforto acaba sendo trazido pelas lembranças, se torna importante manter vivo as memórias do passado. Ao ser perguntada sobre momentos importantes de sua vida no bairro, Lígia respondeu que 

“São inúmeros os momentos vividos nesse bairro. Vai desde festas infantis promovidos pela comunidade, igreja e familiares até eventos políticos em épocas de eleições. As. brincadeiras de rua não podem ficar de fora, principalmente na minha infância, que era regra básica quando chegássemos da escola"

Lígia conta que brincava de pião, bola, esconde-esconde, brincadeiras de roda entre várias outras brincadeiras. Isso se torna importante, pois lembrar da humanidade do bairro ajuda a esquecer do descaso vivido hoje.  

Porém seu entusiasmo não para apenas nas lembranças da infância, desde a adolescência participa ativamente no bairro nas atividades da Igreja Menino Jesus de Praga, após um seminário de vida no Espírito Santo realizado pela Renovação carismática.

A Igreja Menino Jesus de Praga sofre com as rachaduras.

Costuma, junto da comunidade, promover eventos Religiosos (procissão, catequese, grupos jovens, familiares e outros) culturais (show cristão, orquestras, teatros...) sociais (ações comunitárias em atendimento aos pobres do pão de Santo Antônio) e políticos( orientação a população na luta por suas causas e direitos). 

Se mostrando sempre uma moradora ativa dentro da comunidade, Lígia entende a necessidade de manter viva a identidade do Pinheiro, para que mesmo diante de um desmanche físico, a memória cultural do bairro não venha se perder.

A moradora afirma que com esses últimos acontecimentos no bairro, os moradores têm acompanhado um grande esvaziamento, pessoas deprimidas, comércio em declínio, desemprego, mas, acima de tudo, esperança e determinação de luta em busca de soluções. Tudo isso de certa forma tem prejudicado o trabalho realizado, porém continuam o realizando com menor frequência.

Ao ser perguntada sobre quais saídas ela consegue enxergar para manter viva a cultura existente e a continuidade da produção cultural dos bairros atingidos, Lígia respondeu que em primeiro lugar é preciso entender que esse problema não é só dos moradores do bairro, mas de toda sociedade, “é necessário mudar a cultura de que o ‘problema não é meu’. ” Também comentou sobre a necessidade de registros, entrevistas, vídeos, apoio às famílias e a importância de lutar no sentido que tudo possa ser evitado e os bairros possam seguir sua história.

A história de Lígia, uma coordenadora de escola pública que se mantém ativamente na comunidade mesmo diante dos problemas enfrentados, mostra para a população maceioense e alagoana, que a pesar do medo e das incertezas existentes, a força da comunidade é importante para a manutenção da identidade cultural dos bairros afetados.