19 de abr. de 2019

O PIFE DO ESQUENTA MUIÉ

A música e a poesia da Fulô da Chica Boa

Por Lucas Maia e Géssica Nery

As bandas de pífano - ou bandinhas de pife, para os mais íntimos - estão presentes na cultura e no imaginário do povo nordestino pelo menos desde o início do século XX.

Tradicionalmente surgidas em áreas rurais, as bandas são compostas por músicos que se armam de dois pífanos e alguns instrumentos de percussão, e vestindo trajes que fazem pastiche daqueles utilizados pelas autoridades do interior, promovem a alegria do povo, tocando melodias típicas de cada região.

Em Maceió, uma referência importante é a Bandinha Fulô da Chica Boa, que diferentemente de outros grupos, não surgiu em uma zona rural, e sim no centro da capital alagoana. Mais especificamente dentro dos muros da Universidade Federal de Alagoas.

Banda Fulô da Chica Boa (Foto: Divulgação)

Para conhecer melhor essa história, nós conversamos com o fundador do grupo, o professor Washington D'Anunciação.

Fomos recebidos pelo mestre Washington no pátio do Espaço Cultural da Praça Sinimbu, onde ele nos mostrou, com muita poesia e emoção, o local exato onde há mais de 30 anos surgia a Bandinha Esquenta Muié, semente que deu origem à banda de pífanos Fulô da Chica Boa.

Veja o vídeo:


A formação atual da banda conta com pessoas de talentos múltiplos. Os irmãos D'Anunciação: Washington (pífano), Williams(caixa) e Wellington(zabumba). Abel dos Anjos com um segundo pífano e Pedro Ralado com os pratos.

A banda já passou por diversas formações desde o início dos anos 80, mas foi a cerca de sete anos que os irmãos D'Anunciação resolveram tocar o projeto com a seriedade e organização que a cultura popular exige pra poder existir em Alagoas. E é de modo organizado que eles documentam eventos, participam de editais e, inclusive, gravaram um disco em 2017. Enquanto Washington acaba sendo algo como um porta voz da banda, Wellington organiza o cronograma de eventos e Williams se responsabiliza pela inscrição nos editais de cultura.

Já o músico Abel dos Anjos, além de pifeiro da bandinha, é - assim como o professor Washington - servidor da UFAL e atua como primeiro flautista da orquestra sinfônica universitária. E Pedro Ralado, mais que tocador de pratos, é um conhecido skatista alagoano e grande defensor do esporte e da cultura.

Guiado pelo livro de cordéis de João Gomes de Sá, espécie de biografia da banda, Washington nos explica as origens do projeto e nos fala da inspiração para seu nome, a avó Cícera de Oliveira.

Veja o vídeo:


Tudo começou mais de 30 anos atrás pelo incentivo de um professor, Aloísio Galvão. E logo a banda passou a integrar o grupo de folguedos que existia na UFAL à época. Por essa razão, e pelo fato de Washington e Abel serem do quadro da universidade, o grupo continua tendo uma forte ligação com o espaço universitário, muitas vezes tocando de graça mesmo acreditando que a cultura popular merece ser remunerada.

“O objetivo é sempre manter a brincadeira. Fiz faço e farei várias tocadas de graça. A gente não deixa de tocar se não tiver um cachê. Mas hoje a gente tem um cachê a cobrar. Por exemplo aqui na UFAL, que foi onde tudo começou, quando me chamam eu digo: agora! Mas depois eu me lembro: não vai ter uma bolsa, um cachê? Porquê só eu e Abel somos daqui, os outros não”, diz Washington entre risos.

Ouça uma das músicas do CD Essa Brincadeira Não Pode Parar, gravado em 2017: