10 de abr. de 2019

Adefal: quebrando barreiras através do esporte

Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas sendo referência a nível nacional, conta com 3 modalidades no esporte inclusivo e com o decorrer dos anos vem trazendo cada vez mais diversos medalhistas paraolímpicos, recordistas mundiais e campeões mundiais.


Por Iara Alencar, Natália Brasileiro e Yasmin Araujo



A fachada da Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas (Foto: Reprodução)
Com o desejo de proporcionar a quebra de barreiras físicas e lutar pelos direitos da pessoa com deficiência, o grupo Fraternidade Cristã dos Deficientes (FCD) da Igreja Nossa Senhora do Carmo decidiu criar a ADEFAL (Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas). Com o passar dos anos o movimento foi ganhando forças e o interesse de combater o preconceito contra os deficientes físicos aumentou gradualmente. Assim, os trabalhos passaram a ser voltados não somente para a área cristã, como também social.
A caminhada nem sempre foi fácil e apesar de a instituição ter 37 anos, somente em 1996 conseguiu credenciamento com o Sistema Único de Saúde (SUS) e em 2001 passou a ser referência no atendimento de alta complexidade em Medicina Física e Reabilitação. Atualmente cerca de 1500 pessoas são atendidas diariamente na comunidade, prestando serviço em todos os 102 municípios do estado de Alagoas. Destaca-se ainda que em 2004, a Presidência da República reconheceu o trabalho humanitário da associação e a concedeu o prêmio Nacional de Direitos Humanos.
De acordo com o coordenador de esportes da Adefal e também professor de natação, Diego Calado Silva, atualmente a instituição conta com três modalidades: natação, atletismo e basquete em cadeiras de rodas que possuem equipes de base e de rendimento. Ele relata que ao todo são quatro profissionais de educação física reversando nos treinos e ajudando os atletas a se adaptarem.

O nadador e atleta paralímpico André Luiz Bento com o seu técnico e instrutor Diego Calado (Foto: Arquivo Pessoal)
As dificuldades físicas são visíveis, mas Diego faz uma ressalva de que nem tudo se restringe às limitações motoras. Para o Coordenador, o incentivo é primordial, mas as condições financeiras e de mobilidade urbana colaboram para o afastamento das pessoas com deficiência do esporte.
“A Adefal em si não consegue solucionar os problemas de nossos atletas. Precisamos estar levando atletas para competir no Brasil inteiro e às vezes até internacionalmente. Isso acaba fazendo com que o nosso orçamento fique bem curto. Existem muitas barreiras juntas, além do fato de que os nossos atletas além de treinar precisam trabalhar” relata Diego.
Quando questionado sobre o suporte dado à Adefal por colaboradores, o professor enaltece a ajuda custeada pelo governo, mas alerta que a parceria não é o suficiente para suprir as necessidades. Calado explica que o governo ajuda com o custo de algumas passagens para os atletas competirem a nível nacional, mas que na maioria das vezes o número de passagens é inferior aos dos atletas aptos a competirem. Ele explica que a Adefal busca sempre arrumar soluções para que nenhum atleta seja desfavorecido.
“O governo oferece algumas passagens aéreas durante o ano para que os atletas e treinadores viagem para competir que na maioria das vezes não são suficientes. Por esse motivo, muitas vezes a própria Adefal tenta arcar com esses custos. Por exemplo; alugamos a piscina da Adefal para eventos e o dinheiro é revertido para os atletas” completa o professor.
Ultimamente a associação vem tendo outra preocupação; a localização de sua sede. O Pinheiro, região em que o processo de erosão vem tomando conta das ruas e propriedades, é onde também a Adefal se localiza. De acordo com Diego, ainda não houve uma conversa acerca dos possíveis planos de emergência, mas alega que as atividades não podem parar independente de uma possível evacuação do local.
“Não sei se o governo ou a prefeitura será responsável por arcar com o despejo, caso haja, mas seria o mínimo que deveriam fazer. Existem pessoas que começaram a viver após a lesão, depois de conhecer o esporte. Elas voltaram a se sentir gente, homens, mulheres. A gente hoje não consegue ver essas pessoas sem o esporte” completa Diego.
O amor à profissão supera as adversidades. Diego diz que o maior empecilho profissional é a falta de remuneração e reconhecimento, mas que apesar do disso, jamais deixou de exercer sua função em prol dos alunos que precisam de auxílio no esporte.  “A gente precisa se doar, sair da zona de conforto, sair do que a gente acredita que é ser profissional e partir para o lado humano. Só depois de muita conversa com a Adefal hoje nós temos dias de folga. Se a gente folga o atleta não treina, se ele não treina não traz resultado. Se a gente não tiver essa doação, esse amor pelo esporte para a pessoa com deficiência, a gente não trabalha” finaliza Diego.

A Adefal fez medalhistas paraolímpicos, recordistas mundiais e campeões mundiais. Sendo referência a nível nacional e conhecida por seus funcionários como sendo exportadora de talentos. Talentos esses que muitas vezes, por falta de incentivo dentro do estado, principalmente financeiro, acabam indo para outros.
Um dos atletas premiados que fazem parte da equipe de natação da Adefal, o ex-agente penitenciário, Neusvaldo Vanderlei, que aos 26 anos sofreu um acidente de trabalho e teve a perna direita amputada, relata que a adaptação a nova vida com limitações não foi fácil, mas que a Adefal o ajudou a superar os obstáculos que vieram adiante. Apesar das dificuldades após a perda de seu membro, o nadador conseguiu retornar suas atividades na penitenciária.
“O esporte me ajudou muito na aceitação com a mudança no meu corpo e melhorou minha autoestima. Posso até afirmar que não tive um grande comprometimento psicológico, mas minha família, amigos, trabalho e esporte foram essenciais na minha recuperação” relata o Neusvaldo.

O também nadador e ex agente penitenciário Neusvaldo Vanderlei. (Foto: Arquivo Pessoal)
Hoje, Neusvaldo acumula mais de 300 medalhas, além dos vastos troféus adquiridos em competições nacionais e regionais. Sendo o quinto lugar no ranking nacional de melhores nadadores com limitações, ele descobriu no esporte a força para superar um trauma. O agente penitenciário frisa que todos possuem limitações, mas ficar a mercê delas é um direcionamento ao fracasso.
“Não me vejo sem o esporte. Hoje, aos 37 anos e ainda competindo em alto nível, creio que ainda tenho lenha pra queimar. Sou muito competitivo, prova disso é que de 2014 pra cá, eu ganhei 80% das provas que disputei. Antes do acidente jogava futebol e por isso posso afirmar que o esporte sempre fez, faz e sempre fará parte da minha vida.”
André Luiz Bento, atleta paraolímpico, recentemente brilhou no Campeonato Mundial de Natação Paralímpica, no México, realizado no período de 29 de novembro a 03 de dezembro de 2018. O atleta se destacou entre os demais competidores e acabou a competição com o total de seis medalhas (três de ouro, duas de prata e uma de bronze). Para o atleta, que possui dificuldade de aprendizagem, a Adefal colaborou diretamente para seus feitos em cenário internacional.
Diego Luiz (Foto: Arquivo Pessoal)
Como muitos dos alunos de Diego, que são encontrados por acaso e levados até a Adefal para participar das atividades esportivas,  André Luiz foi mais um deles “Eu fazia parte do Projeto Atleta do Futuro (PAF) no Sesi e o Diego ficou tendo conhecimento de mim e de outro atleta e me levou para competição em São Paulo onde eu representei Adefal e foi assim que gostei muito e fiquei motivado mas ainda pela natação.” relata.

Ao ser questionado de como foi participar do Campeonato Mundial de Natação Paralímpica no México, ele conta que foi uma sensação muito boa, algo que ele nunca havia vivido em sua vida e que a equipe foi muito bem recebida por eles passavam. Para ele é importante mostrar para as pessoas que não existe limitações e que tem uma ótima qualidade de vida.
Hoje com mais de 400 medalhas em torneios nacionais e internacionais, André se sente como se o seu dever tivesse cumprido e que todo o esforço valeu a pena. Com tantas ações que muda a vida de muitas pessoas diariamente, principalmente no esporte inclusivo, espera-se que o trágico momento no bairro do Pinheiro não chegue até a associação, pois seria uma ocasião muito triste para o Estado de Alagoas e mais ainda para os beneficiados dessa grande ação social.