5 de nov de 2018

Conversas sobre o inconsciente

Médico alagoano cria canal no Youtube para desmistificar psiquiatria 

Por Maylson Honorato

Mesmo que não pareça, não é de hoje que a arte conversa com a ciência. Somente para ilustrar essa relação, pense que arte e ciência começam por meio do mesmo estalo, pela curiosidade. Essa relação histórica, agora, também está evidenciada em um canal no Youtube, o “Diário de um Psiquiatra”, do Dr. Gustavo Omena. O médico alagoano investiga os meandros da mente humana, a subjetividade, para falar com leveza sobre assuntos diversos e, segundo ele, desmistificar a psiquiatria. E o melhor: o caminho para a psique é a arte.

É que no canal, o consultório médico é substituído pela varanda da casa do psiquiatra e, entre o jardim e os bichinhos do cenário intimista, diversas personalidades locais são entrevistadas para falar sobre psiquiatria. Isso inclui músicos, atores, atrizes, escritores e outros tantos artistas, que contam sobre seus processos, o seu trabalho mais recente ou simplesmente sobre a vida cotidiana. A razão é justamente a relação que a teia da cabeça da gente tem com a arte.


Ideia quer tornar acessível os avanços da psiquiatria e como as pessoas lidam com o assunto

Para entender essa história é preciso voltar seis anos atrás, quando o, recém formado, Gustavo Omena dava os primeiros passos na medicina. Despretensiosamente, ele criou uma página no Facebook para relatar alguns casos do plantão médico. A fanpage “Diário de Um Plantonista” trazia o Dr. Greg, um personagem fictício, como protagonista.

"Criei um personagem para que eu tivesse essa licença poética e também atentasse para a ética médica. Pelas redes sociais eu tive muita expressividade, então esses casos acabaram virando um livro e, desde então, eu fiquei com a vontade de amadurecer esse projeto. Quando eu me tornei psiquiatra eu senti essa necessidade de manter contato com o público para além do consultório e também de abordar a psiquiatria de maneira mais palpável e desmistificada”, comentou Dr. Gustavo.

Ainda com o projeto anterior, ele rapidamente conquistou milhares de seguidores e, em apenas um ano, teve seu livro vendido e esgotado nas livrarias Saraiva e Cultura espalhadas de norte a sul. O Fascínio despertado nos leitores foi parar nas telas. As histórias do Dr. Greg foram contadas, inclusive, em programas de televisão, como o “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo, em 2013.

“Diferente do outro projeto, onde eu escrevia as histórias, no Diário de um Psiquiatra nós trabalhamos com entrevistas, com uma conversa. Falamos sobre a interface da psiquiatria com as outras especialidades médicas, por exemplo, pois as pessoas acham que a psiquiatria é isolada, existe todo um tabu para procurar um psiquiatra. Porém, diversas doenças clínicas cursam com sintomas psiquiátricos. Existem pacientes com doenças crônicas, por exemplo, que precisam desse apoio, tanto psicológico quanto psiquiátrico. Então, no debate, tornamos tudo mais acessível e acabamos falando de saúde em geral”, explica o médico.


DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA
 Canal do YouTube chega após médico lançar o livro 'Diário de um Plantonista'

Quatro quadros distintos norteiam as entrevistas no Diário de um Psiquiatra. O ‘Interconsulta’ trata da relação entre a psiquiatria e as demais especialidades médicas. O primeiro vídeo lançado no canal no último 20 de setembro, resultou num bate-papo entre as especialidades médicas Psiquiatria e Nefrologia, onde o Dr. João Paulo Lopes falou sobre a alta incidência da depressão em pacientes com problemas renais crônicos. O segundo quadro do projeto, o ‘Psiquiatria Na Varanda’ é onde músicos, instrumentistas, intérpretes e compositores falam de suas trajetórias e inspirações. É um bate papo musicado para desbravar o inconsciente humano e a sua intrínseca relação com a criatividade e com o som. O ser humano, em toda a sua complexidade, consegue dar vazão às suas angústias por meio de produções, que se tornam verdadeiras obras de arte. Foi assim com grandes nomes da cultura mundial, que, através de suas histórias de vida difíceis, das suas dores, amores e desamores, presentearam a humanidade com suas obras. O primeiro Psiquiatria na Varanda recebeu o produtor musical, cantor, ator e publicitário Heberth Azzul e também já estreou no canal. 

Além desses, o quadro ‘Me Explica, Doutor!’ é destinado a abrir um diálogo com a população para esclarecimento de dúvidas comuns ligadas à psiquiatria. Uma equipe de filmagem visita mensalmente bairros da capital alagoana para ouvir o depoimento da população.

Por fim, o quadro ‘Psiquiatria em Cena’ tem o palco de um teatro como cenário para um bate papo descontraído com atores, produtores e diretores. Eles falam sobre a vida, o cotidiano, a ficção, o imaginário, o real, o choro, o riso, todo o turbilhão de emoções que envolve o processo de criação e a arte de representar. O primeiro entrevistado é o ator, produtor e diretor José Márcio Passos, que faz uma curiosa análise sobre o seu mais novo espetáculo “O Centenário” e os desafios físicos e emocionais do envelhecimento.
UM PAPO COM O DR.
Foi para expressar suas inquietações internas que o norueguês Edvard Munch pintou uma das imagens mais conhecidas da história da arte: O Grito. Assim como ele, diversos outros deram forma às suas vozes interiores e se tornaram gênios, por meio da arte. Como Vincent van Gogh, que possivelmente sofria de transtorno bipolar ou borderline; Ludwig Van Beethoven, que tinha transtorno afetivo bipolar; e Ernest Hemingway, que sofria de depressão e alcoolismo, e foi ganhador de um Nobel de Literatura e um prêmio Pulitzer. Mas a ideia não é romantizar as doenças, mas entender os processos de cura, descobrir esses caminhos. O Dr. Gustavo Omena conversou com a reportagem sobre a relação 'arte x psiquiatria'. 

Qual a intenção de juntar arte e psiquiatria no seu novo projeto? 
Muitos dos grandes nomes da história, de alguma maneira e por meio do sofrimento, conseguiram se expressar pelas artes. Um compositor diante da separação, por exemplo, fica mais sensível para compor e acaba se comunicando com as milhares de pessoas que também passaram ou estão passando por aquele momento difícil. Está aí uma relação entre arte e vida real: empatia. Então, eu pretendo tornar as emoções mais palpáveis através dessas entrevistas. Por exemplo, o que a música desperta, que memórias afetivas ela traz, como ela transforma?

E qual a importância de abordar isso dessa maneira, como a arte facilita? 
É um caminho para chegar na mente. Um constante exercício de empatia e uma investigação pública sobre a mente humana, sobre a criação artística, e sobre a produção das pessoas diante desses dias. Temos visto tantos casos de suicídio ultimamente, e eu, como psiquiatra, sei que grande parte desses casos tem uma doença mental de base envolvida. Mas as pessoas não falam sobre seus sofrimentos. A ideia é que as pessoas se sintam cada vez mais à vontade para procurar um profissional. 

Mas, finalmente, como é essa relação da arte com a psiquiatria?
Através das nossas experiências temos contato com nossa sensibilidade. Muitas coisas que estão em nosso inconsciente precisam se comunicar de alguma maneira com o mundo externo. O sofrimento, muitas vezes, torna isso mais evidente. Por exemplo, naturalmente a gente escuta histórias de pessoas que sofrem, perdem parentes ou que acabam relacionamentos. Mas quando a gente passa por essas situações ficamos mais empáticos pra isso. Conseguimos compreender melhor o outro. Então, nesses momentos, vários artistas conseguiram produzir suas grandes obras porque sofriam de alguma maneira. Existe beleza no sofrimento, a partir do momento que a pessoa canaliza o que está sentindo para uma produção, para uma expressão. Existem poemas belíssimos, músicas belíssimas da Música Popular Brasileira, que foram frutos de alguém que, quando se separou, por exemplo, acessaram aquelas sensações e lidaram com aquilo daquele jeito. O fato é que a psiquiatria também trata do mundo interno das pessoas, trabalha com o que há de mais subjetivo. Assim como a arte.

Confira o Canal no Youtube: