30 de out de 2018

Vida na costa: uma relação de troca entre comunidades e pesquisadores na APA Costa dos Corais


Por Letícia Cardoso


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Pescadores iniciando o dia com suas atividades. (Foto: Bárbara Pinheiro / Peld)


O sol ainda nem raiou no horizonte quando os pescadores saem para trabalhar em uma das principais atividades que mantém e sustentam as comunidades no entorno da Área de Proteção Ambiental (APA) de Costa dos Corais, uma região que vai do Litoral Norte de Maceió até Tamandaré, em Pernambuco.  São 120 km de praias e mangues palco do turismo, do artesanato e da vida pesqueira, que sustentam as comunidades e podem influenciar até quem está mais longe da costa.
Mas viver nesse meio fez com que as pessoas tivessem um contato além da vida na praia: a pesquisa científica. Pesquisar e entender faz parte da obrigação de preservar. Tocar a vida das pessoas e fazer crescer o desejo disso é ganhar mais um parceiro no dia-a-dia de manter a vida na região e é o que importa em cada mergulho.
A primeira pescadora da comunidade em uma universidade federal
Ana Paula Santos, de 46 anos, encontrou nas pesquisas desenvolvidas na região e na volta à universidade uma oportunidade para contribuir com outras famílias e atividades na cidade de Barra de Santo Antônio, no Litoral Norte de Alagoas. Ela foi a primeira pescadora dentro de sua comunidade a fazer curso superior em uma universidade pública, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
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Ana Paula, de verde, é de família de pescadores e luta melhorar a vida em sua comunidade. (Foto: Cortesia)
“Sou filha, esposa e família de pescador. Me considero pescadora até hoje. Voltei a estudar para buscar me capacitar através da formação acadêmica e contribuir ainda mais não só onde vivo como em todo o entorno pesquisando e estudando as comunidades pesqueiras, principalmente no que se refere ao trabalho das mulheres. Escolhi fazer licenciatura em Ciências Sociais e meu Trabalho de Conclusão de Curso foi ‘A Mulher No Universo Da Pesca Na Comunidade Da Ilha Da Croa – Barra De Santo Antônio’. Foram quatro anos de muita luta, sofri discriminação, já que as outras pescadoras têm apenas o ensino fundamental, cansaço e dificuldade já que estava a 84 km da sala de aula”, relata Ana.
A pescadora conta que hoje suas principais atividades são como liderança local e que o TCC fez com que hoje o diálogo entre as mulheres da pesca melhorasse. Ana contribui e participa de um projeto que envolve as populações de Paripueira, Barra de Santo Antônio e Passo de Camaragibe. A iniciativa tem como foco o empoderamento feminino na região e conta com parceria do Projeto Ecológico de Longa Duração (Peld), Secretaria da Mulher do Estado de Alagoas (Semudh), Instituto TerraMar e o Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental (ICMBio).
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Hoje uma das principais atividades de Ana Paula é na liderança de ações na comunidade. (Foto: Bárbara Pinheiro / Peld)
“Esse trabalho deve fortalecer a participação das mulheres nas discussões da APA, bem como discutir o empoderamento delas na pesca e na organização. Também buscamos pensar em formações e capacitações para as pescadoras, ostreicultoras e marisqueiras que existem dentro da APA”, explica.
Ana já tinha o desejo de contribuir no desenvolvimento local, mas encontrou em um pesquisador do Peld, um grande incentivador. Então, a partir disso, ela se tornou colaboradora do projeto, que tem o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).
“Meu objetivo sempre foi não só pensar a pesca como atividade pesqueira, mas pensar em organizar, articular e formar novas lideranças que pudessem assumir o trabalho de base e formação das comunidades pesqueiras do Litoral Norte. O João Campos foi uma figura fundamental no meu processo de aprendizado e foi quem muito me orientou no TCC. Foi quando passei a ser colaboradora do PELD, inserindo os pesquisadores na vida dentro das comunidades e todos ganhamos com isso”, afirma Ana.
O saber científico e a conscientização: uma relação de troca
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Equipe do Peld aplicando questionários com a comunidade. (Foto: Jônatas Oliveira / Peld)
O mergulho do Peld na APA Costa dos Corais começou há dois anos quando as equipes, que se dividem em componentes específicos, passaram a estudar os diversos âmbitos da vida na Área de Proteção, desde as comunidades aos corais debaixo d’água.
O núcleo de governança, liderado pelo pesquisador João Campos, o mesmo que incentivou a pescadora Ana em seu TCC, é o responsável por ir a campo aplicar questionários, buscando identificar as necessidades e formas de trabalho para que exista um equilíbrio entre a comunidade e o meio ambiente.
Durante este primeiro contato, a população responde a uma série de perguntas. Dessa forma, é possível compreender o que acontece na região e conhecer os anseios das comunidades.
O pescador Johnny Antônio Lima, secretário da Colônia de pescadores Santo Amaro Z-21, de Paripueira, comenta que o principal desafio é que os pesquisadores mantenham o comprometimento para criar uma boa relação entre as duas partes gerando resultados e fazendo diferença para a vida local.
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Johnny participa de reuniões e fortalece a relação entre a comunidade e a gestão. (Foto: Bárbara Pinheiro / Peld)
“Acredito que as pesquisas que fortalecem as relações devem ser feitas com ciência e consciência. Elas geram um enorme impacto, pois, é através de muitas delas que são construídas as ações que fazem a Unidade de Conservação funcionar. Mas é importante questionar se essas áreas estão sendo preservadas para as comunidades ou para as pesquisas. Ainda não temos resultados que podemos pegar na mão, mas esperamos que esses questionários passem para nós, no futuro, dados que nos levem a perceber a dimensão do que se tinha e do que se tem, do que gastamos para pescar, se vale a pena e o que mudou”, expõe.
O coordenador João Campos afirma que os resultados devem ajudar a construir programas não só de conservação como de políticas públicas e que todas as pessoas têm um efeito dentro da APA, seja positivo ou negativo.
João explica ainda que a Unidade de Conservação (UC) é fundamental na manutenção dos modos de vida das comunidades do entorno por uma série de motivos, como geração de alimento, renda e serviços culturais. No entanto, são necessários alguns cuidados para que não haja exploração desordenada, poluição e desmatamento.
De acordo com o relato do pesquisador, o primeiro passo é conquistar a confiança da população para que eles vejam a equipe como parceiros. Mas não é apenas a população que passa a ter um novo conhecimento sobre o que já fazem há anos, os moradores da comunidade ensinam um outro ângulo a quem chega para fazer pesquisa. Os estudos funcionam como uma troca entre as duas partes.
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A conversa com a comunidade estabelece uma relação de confiança entre as duas partes. (Foto: José Gilmar Júnior / Peld)
“Somente em uma parceria próxima e honesta é que conseguiremos atingir nossos objetivos.  As pessoas que moram lá têm um conhecimento empírico da realidade muito grande, muito maior que o da gente, que aprendemos na teoria. Essa sabedoria acumulada ao longo de centenas de anos nas comunidades locais é uma fonte de conhecimento para quem chega lá. Estamos aprendendo a todo momento com eles. Por outro lado, a pesquisa ajuda a questionar e enxergar a realidade sob outra ótica e isso acaba contribuindo para o processo organizacional das comunidades, de saber que juntos eles podem conseguir mais direitos, participando da gestão”, relata João.
O Plano de Manejo
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As reuniões para elaboração do Plano de Manejo abordam necessidades tanto para o meio ambiente quanto para os moradores. (Foto: Bárbara Pinheiro / Peld)
A região que abrange a APA Costa dos Corais tem a gestão sob a responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental (ICMBio) de Costa dos Corais. Para orientar as decisões e delimitar as ações dentro da Unidade de Conservação (UC), é necessário que seja elaborado um Plano de Manejo.
O documento descreve a missão da Área de Conservação, identificando o propósito, sua significância, os recursos e os valores fundamentais para os temas que são debatidos. É a partir dele que são definidas questões como zoneamento e normas. Além disso, o documento serve como base para decisões sobre o manejo e planejamento da unidade.
Ao longo de 2018, o ICMBio Costa dos Corais vem realizando reuniões para a revisão desse plano junto com as pessoas que vivem nas comunidades do entorno, órgãos públicos e comunidade acadêmica. Ao todo, já são mais de 40 reuniões para esta elaboração. Em cada uma das comunidades foram apontadas algumas lideranças dentro de cada setor, como o de pesca e turismo, por exemplo.
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As reuniões do Plano de Manejo reúnem comunidades, instituições e  pesquisadores para discutir sobre a APA Costa dos Corais. (Foto: Bárbara Pinheiro / Peld)
Marius Pinheiro, Analista Ambiental do ICMBio, explica que essa reformulação tem como objetivo facilitar futuras decisões a serem tomadas na UC, já que ele também serve como base para orientação do uso público, pesquisa, proteção e pontos que sejam necessários dentro da gestão. Nesse sentido, quando for observada a necessidade de alguma mudança dentro do acordo previsto, ela poderá ser alterada.
“É uma via de mão dupla. O conhecimento empírico é base de quase todo conhecimento científico, então as comunidades têm muito a oferecer à ciência. Ao mesmo tempo, a ciência pode dar retorno às comunidades na forma de benefícios diretos (propriedade intelectual) e indiretos (melhoria de técnicas, serviços e reflexo na melhoria da qualidade de vida). Biodiversidade, beleza cênica, qualidade de vida, a balança é enorme. As medidas protetivas adotadas podem enriquecer a vida marinha do entorno, em um cenário otimista, ou esgotar os recursos naturais fora da UC pela falta de regras, em um cenário pessimista”, explica.
É importante ressaltar que o trabalho de conscientização não deve ser feito apenas pela gestão da região, mas por todos que fazem uso dos recursos da APA Costa dos Corais. O pescador e guia turístico Jaelson Santos de Lima, de 44 anos, trabalha em alto mar com a pesca desde os 13 anos. Desde os 16 ele leva todos os dias grupos de turistas para visitar as piscinas naturais da Barra de Santo Antônio e diz que conversa com elas sobre preservação ambiental e a importância de não deixar lixo durante os passeios.
“Jogar sacola ou qualquer lata polui o meio ambiente e atinge não só ele, mas a nossa pesca. Participo das reuniões e acho importante que nós sejamos inseridos nesse planejamento. As pesquisas também, porque nos orientam melhor. É importante que cada um deixe a sua contribuição e seu conhecimento, o nosso povo às vezes se perde porque não há conhecimento”, comenta Jaelson.
Big Data: o olhar dos visitantes
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O peixe-boi apareceu em uma porcentagem das publicações analisadas. (Foto: Cláudio Sampaio)
Seja um espaço físico ou virtual, ao passar por ele as pessoas deixam uma trilha que pode ser seguida por quem vier depois. O Big Data, quando um grande volume de dados compõe o banco de informações, especialmente no Peld, reúne informações que têm como objetivo analisar o engajamento entre os visitantes e a APA Costa dos Corais através de postagens em plataformas como o Instagram e o Flickr.
A coordenadora do núcleo de Big Data do Peld, Ana Malhado, explica que essa estratégia de pesquisa tem como vantagem o fato de poder ser feita de qualquer lugar. Através de um banco de dados e imagens, a equipe levanta um questionamento: o que as pessoas que visitaram a região encontraram de interessante e resolveram compartilhar.
“Nós precisamos ser criativos para fazer o desenvolvimento de pesquisas, às vezes até trabalhar com poucos recursos, por isso esse framework [desenvolvimento de software] é tão interessante, porque não precisamos nos deslocar. Com as análises pretendemos entender a relação entre os turistas e a Unidade de Conservação. Claro que eles não estavam pensando nisso exatamente ao fotografar, mas é possível identificar um padrão”, explica Ana.
O bolsista de pós-doutorado e pesquisador do Peld, Ricardo Correia, expõe que este trabalho já é capaz de oferecer uma avaliação parcial sobre o que vem sendo feito e se as áreas delimitadas para cada tipo de uso (praia, pesca, conservação ou visitação) estão sendo respeitadas. Feita a análise, é possível visualizar que tipos de ações de conscientização são necessárias para a conservação do ambiente e de espécies ameaçadas.
“Buscamos estabelecer um cenário de base, temos na APA uma área de importância sociocultural. Já conseguimos identificar alguns padrões temporais e espaciais de visitação que estão de acordo com o esperado. Por exemplo, foi possível observar um pico de visitação nos meses de férias e ao final de semana, sobretudo junto a em locais como Maragogi ou São Miguel dos Milagres que providenciam atividades e infraestrutura para visitantes. Outra observação interessante retirada do trabalho foi a identificação de algumas atividades indesejadas, como seja a utilização de veículos motorizados na zona da praia”, expõe Ricardo.
Até o momento, o banco de dados do Peld já conta com cerca de 200 mil fotografias, mas ainda não foram divulgados resultados da pesquisa. Com essas análises, Ricardo contou à reportagem que foi observado que o Peixe-boi, um mamífero marinho, esteve presente em 10% das publicações.
Neste caso, o pesquisador comenta que é um dado importante visto que é um animal difícil de ser fotografado. Ter essa representação nos posts demonstra a importância do programa de conservação da espécie, valorizando e sensibilizando os visitantes para a problemática de conservação.