24 de out de 2018

Tem festa na cena alagoana

Maior festival de artes cênicas tem 19 espetáculos gratuitos e exposição sobre memória e afeto

Por Maylson Honorato*


Entre o artista no palco e o espectador, há muito mais que cadeiras e ribalta. Há conexão direta, química e espelho. Apesar dos incontestáveis avanços técnicos ao longo dos anos, as artes cênicas preserva o que lhe faz única: diálogo direto e o poder de se metamorfosear no mesmo ritmo em que a sociedade, aqui e agora, muda. Nos próximos dias, lugares comuns serão espaços cênicos, as luzes se acenderão para as lágrimas e riso; e momentos impossíveis de capturar convidarão os alagoanos a olharem para si, nos outros.

Foto: Ailton Cruz / Cortesia

Faz algum tempo que começou a contagem regressiva para o Festival de Artes Cênicas de Alagoas, o Festal, que ocorre durante todo o mês de outubro, em Maceió. Trata-se da maior reunião de artistas do calendário cultural do Estado, reunindo gente de teatro, dança, circo, performance e até de outros segmentos; em uma programação diversificada e totalmente gratuita.

Aberto oficialmente na última quarta-feira (10), com a exposição ‘Fios da Memória’, no Museu Théo Brandão, a programação segue na semana seguinte com uma maratona de espetáculos, que vai de 17 a 24/10. Serão apresentados os espetáculos: "Baldroca", da Associação Artística Joana Gajuru; "Negreiros", da Cia LaCasa; "Encantado das Águas", de Linete Mathias; "Mini Cabaré Tanguero", de Julieta Zarza; "Èwòn", da Cia A Cambada; "Ciclos Viciosos", do grupo Invasão Piegas; "Por Um Triz", da Cia Teatro da Meia Noite; "Le Monde Blue", do grupo Raízes da Terra; "Bailarete, a Bailarina Barbada", do grupo Ato Reflexo; "O Baile do Menino Deus", da Cia Mestres da Graça; “Os que vêm de longe", do grupo Teatro da Poesia; "Geni - Não recomendada", da Cia Os Vers'Artes; e "Palhaçaria de Improviso", do grupo Clowns de Quinta. As apresentações serão na Praça Sinimbu, no Espaço Cultural da Ufal, no pátio do Museu Théo Brandão e na Casa Jorge de Lima. A ideia é justamente essa: levar a arte para fora do caixa italiana, um corpo a corpo com o público.

"Nós pensamos em uma programação que contemplasse diversas linguagens artísticas para fazer uma espécie de mosaico, mostrando a diversidade, a qualidade e a riqueza do que é produzido em Alagoas quando o assunto é artes cênicas. Recebemos bons projetos e, agora, convidamos a população para prestigiar a programação do festival, integrando assim essa rede colaborativa, que busca valorizar e fortalecer a nossa produção artística local", afirmou o integrante da Comissão de Comunicação do Festal, Thiago Sampaio.

FESTIVAL EM REDE
Os grupos que compõem a programação se inscreveram no edital do festival, que recebeu 42 propostas este ano e selecionou 15. No processo de construção da programação, quatro grupos se voluntariaram para compor a mostra, totalizando 19 espetáculos, fora os pocket shows, debates e outras atividades.

Uma das grandes vitórias do Festival de Artes Cênicas de Alagoas é, sem dúvida, a consolidação de uma rede de artistas. Apesar de parecer simples, não é. Para que o festival saísse do campo das ideias e chegasse, então, a sua quarta edição, diversos grupos locais se uniram para formar um Grupo Gestor, com a supervisão do Coletivo Volante de Teatro e da Cia do Chapéu. Os grupos e artistas envolvidos na realização do Festal são: Associação Teatral Joana Gajuru, Bárbara Lustoza, Cia do Chapéu, Cia dos Pés, Cia La Casa, Cia Reka de Teatro, Cia Teatro da Meia-Noite, Cia Teatro da Poesia, Cia Vers'Artes, Código 8, Coletivo Volante de Teatro, Coletivo Heteaçã, Grupo Clowns de Quinta, Núcleo Presente e OZinformais Cia Artística.

FIOS DA MEMÓRIA
Exposição faz um recorte poético de parte da história das artes cênicas de Alagoas É da natureza das artes cênicas ser efêmera. O espetáculo é cronometrado e para nunca mais. Se apresenta e se despede. Mas o que fica são as impressões, retalhos que, unidos, formam um panorama de afetos e de histórias da cena e, consequentemente, do povo alagoano. A exposição Fios da Memória é um espaço do Festival de Artes Cênicas de Alagoas para experienciar coisas que passaram num átimo, mas que não devem ser esquecidas. A mostra exibe materiais ligados aos grupos e artistas cênicos locais, um aparato de textos, cadernos de processos, figurinos, fotografias, relatos, adereços, artes gráficas, críticas, matérias de jornal, entre outros instrumentos tão peculiares de vidas dedicadas aos palcos, ruas e picadeiros.

Treze coletivos e artistas formam o Grupo Gestor do Festal. Provocados, eles comentaram sobre a exposição, seu significado e importância.

EXPERIÊNCIA DA EXPOSIÇÃO
É muito mais um passeio afetivo, sinestésico e emocional por todas essas possibilidades do que uma busca por um caminho histórico, pois entendemos que todas essas possibilidades tecem uma parte da história das nossas artes cênicas.

Por serem as Artes Cênicas efêmeras em sua própria natureza, reconstruir a memória do que foi feito nesses anos é uma tentativa de encontrar resquícios do que ficou guardado dentro das pessoas, sendo assim, não é uma exposição linear que busca traçar uma linha do tempo, mas é um lugar de resgate do que ficou nas pessoas que fizeram e fazem arte em Alagoas.

Artistas trazem não somente seus materiais cênicos, mas o contexto do período em que tudo aquilo foi produzido e as emoções que se revelam ao revisitar esses lugares. Dentro da exposição haverá espaço para que o público construa junto também essas memórias, deixando por lá suas lembranças e emoções com os encontros que tiveram com nossas artes cênicas.

Foto: Ailton Cruz / Cortesia


PROCESSO DE CURADORIA
Na primeira etapa do processo a equipe se debruçou sobre formas de como encontrar esses materiais. Fizemos visitas a casa desses artistas para recolher aquilo que de sua produção lhe causavam emoções e lembranças que gostariam de compartilhar. Em outro momento foi a vez de gravarmos depoimentos audiovisuais com histórias de nomes que fizeram e fazem as artes cênicas em nosso estado. Quando todo esse material foi recolhido contamos com a ajuda de Alice Barros e Robertson Dorta para fazer a seleção, curadoria final e montagem do que está sendo exposto. Textos, adereços, figurinos, cenografias, trilhas sonoras, fotos, críticas, recortes de jornais e vídeos serão alguns dos objetos expostos para que o público acesse as artes cênicas produzidas em Alagoas e possa entender um pouco mais a trama de relações que sustenta e alimenta nossa história.

VISITAS GUIADAS
Além de assistir aos espetáculos, os estudantes serão recebidos numa visita mediada à exposição "Fios da Memória". E os artistas dos espetáculos selecionados serão os próprios mediadores. O encontro agora girará em torno das histórias e afetos que interligam artes cênicas e o público. Os estudantes terão a oportunidade de conhecer por um novo ângulo a produção artística local, entendendo seus processos criativos, suas escolhas estéticas e também a materialidade dos seus trabalhos.

PARA DIAS SEM MEMÓRIA
Pensar a memória de nossas artes cênicas é uma possibilidade de não esquecer a nossa história. Vivemos um período de constantes ataques a nossa memória. O incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro é uma prova desse descaso, com as artes cênicas não é diferente. As artes cênicas são efêmeras, mas deixam marcas nas pessoas que fazem e que vivenciam a experiência de assistir, mas além da experiência na memória, existem texturas, cores, tecidos, textos e cenários que são materiais concretos que contam sobre outros períodos da nossa história através deles. A conservação desse material é uma dificuldade que grupos e artistas enfrentam ao longo das décadas por falta de espaços específicos para guardar e também de cuidados necessários para a conservação. O que produzimos perece com tempo se não forem cuidados de uma maneira adequada, porém esses cuidados também envolvem investimento financeiro e estamos constantemente transitando entre o produzir a nossa arte e encontrar formas de como conservar o que foi produzido.

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos