24 de out. de 2018

Para pesquisadoras alagoanas em educação bilíngue, construir linguagem é mais do que decorar regras

Por Luiz Henrique Barroso de Carvalho*

Era 1985 e o bairro de Ponta Verde nem sequer era considerado área nobre, muito menos tinha ruas calçadas. Foi no coração da Deputado José Lages que duas irmãs, aniversariantes do mesmo dia com um ano exato de diferença, abriram uma escola de inglês e esperavam dar voz aos instintos de professoras que sempre tiveram, quando brincavam de escolinha na infância. Fátima e Vanessa Tenório tinham alguns anos acumulados de experiência com ensino de inglês, embora tenham tido formações divergentes: arquitetura e engenharia. A escola deu certo, cresceu, e já no início dos anos 2000 estava recebendo visitas de executivos de grandes editoras internacionais que queriam ver o que estava acontecendo naquele centro de idiomas numa cidade brasileira chamada Maceió. As irmãs enxergaram nos alunos a possibilidade de expandir as possibilidades de aprendizado de idiomas, quando resolveram se dedicar a um mestrado na Inglaterra de educação em inglês. Foi quando concluíram que muito mais do que mecanizar a instrução de idiomas, os institutos de língua do Brasil poderiam construir um processo autônomo, natural e transformador de educação bilíngue.


“Desde o fim dos anos 90, a gente começou a estudar essa possibilidade de desenvolver uma maneira das crianças terem acesso ao inglês como ele é falado mesmo, sem ser algo baseado em hierarquia gramatical”, comenta Vanessa, co-fundadora da metodologia de educação em inglês batizada Systemic Bilingual, que busca expor os alunos em sala de aula a conteúdos escolares como ciências, história, geografia, educação física, entre outros, com restrição absoluta ao uso do português. A diretora explica que a noção de aprender uma língua por pedaços e em uma ordem convencionada e hierarquizada – primeiro o famigerado verbo “to be”, depois o “can”, em seguida o “did” e assim em diante – limita o rendimento das crianças em relação à aprendizagem do idioma. “A gente sempre observou que as crianças faziam muito pouco com isso e que o potencial delas era gigantesco. Então começamos a estudar o ensino numa segunda língua por meio do conteúdo escolar. Foi assim que a gente começou a idealizar o Systemic e o que hoje se chama de educação bilíngue, que é de fato o uso de conteúdo, ensinar em uma segunda língua e não a segunda língua”, completa a diretora.

Para Fátima, essas metodologias tradicionais mais instruem sobre a língua do que incentivam a comunicação. “A ideia é fazer os alunos produzirem mais fazendo uso da língua. A gente descobriu que por meio de uma educação bilíngue, e usando todos os assuntos escolares e todos os assuntos que a criança tem acesso, há muito mais rendimento. A gente dá mão pra ajudar a construir a língua, o que fica muito mais fácil, já que é um processo natural”, salienta a co-fundadora da metodologia.

As irmãs alagoanas chamam atenção de que foram pioneiras nacional e internacionalmente. Para chegar na fórmula que garante o sucesso dos resultados, elas precisaram viajar para a Inglaterra e se debruçarem sob um mestrado em educação bilíngue. “Na época, a academia também estava em busca de um modo de fazer, de um substrato científico para isso”, comenta Vanessa. Vários países que já tinham um método bilíngue eficaz procuravam meios de refinar ainda mais as práticas para atingir resultados cada vez melhores. “Houve esse diálogo academia-prática-academia-prática que foi muito rico para nós”, completa a educadora.

Vanessa explica que há algumas tentativas fraudulentas de educação bilíngue no mercado, que trazem as velhas práticas de instrução focada na língua maquiada por algum conteúdo superficial. “O que a gente busca é a integração da língua e conteúdo, os dois sendo desenvolvidos ao mesmo tempo e ainda por cima desenvolvendo competências no aluno”, complementa a diretora.

Além de terem sido pioneiras no mercado de educação bilíngue, as irmãs agora estreiam uma jornada tecnológica no mercado. A metodologia de ensino criada por elas será integrada a uma plataforma digital que reinventará as possibilidades de educação em sala de aula, além de conquistarem os alunos com um jogo de RPG exclusivo. “O que a gente prega é que a tecnologia permeie [a educação], não que ela seja um fim em si mesma. Não tem sentido que ela seja um simples substituto do que já se fazia analogicamente”, explica Vanessa. “Há muito o que se fazer com tecnologia porque ela pode ajudar em muitos sentidos. Nossa plataforma é capaz de fazer o aluno interagir com o que ele aprende em sala com games e conteúdos inseridos dentro dela, sem ser puramente gramatical”, completa Fátima.

As diretoras acreditam numa educação bilíngue que vá além da fluência no idioma. Elas repensam, inclusive, o papel do professor na sociedade informatizada e online. “O professor sai desse papel ‘hoje eu vou falar sobre tal coisa’ e dá ao aluno esse protagonismo de poder definir o que ele quer, ir mais fundo em qualquer tema”, analisa Vanessa. Para ela, a figura do professor como “transmissor de conhecimento” é transformada com o advento da internet, cujo poder de armazenamento de informações jamais poderá ser comparado com a de um cérebro humano. “Por mais que você seja um grande conhecedor de um assunto, a quantidade de informação que tem na internet é infinitamente maior. Acho que a gente tem que caminhar pro professor ser um grande guia, um grande mentor, um grande pesquisador e que incentive o aluno a ser pesquisador”, conclui.

Sendo duas irmãs alagoanas, Fátima e Vanessa contam que não faltaram desafios pela jornada. Nostálgicas, lembram da primeira meta que haviam traçado: chegar em mil alunos estudando na metodologia. Hoje, somam pouco mais de 15 mil alunos. Certa feita, ao visitar uma escola que poderia implementar a metodologia, conversavam com os diretores sobre os caminhos da educação bilíngue no Brasil. “Vocês sabiam que tem uma metodologia de que todos mundo está falando?”, perguntou um dos diretores às irmãs. “Parece que é de Alagoas, mas não me lembro bem o nome...”. “Systemic?”, perguntaram Fátima e Vanessa. “Prazer, somos nós!”.

As diretoras contam que, ao longo da trajetória, o maior preconceito veio de casa: o mercado nordestino tinha muita dificuldade em aceitar a legitimidade de um programa bilíngue de um estado vizinho. “A gente chegou a pensar em dizer que éramos dos Estados Unidos”, comenta Fátima.

Após 30 anos de jornada, os desafios só aumentam. As metas modestas se transformaram em um grupo robusto de cinco empresas e as irmãs se orgulham de terem, ao longo desses anos, formando não somente um grupo de colaboradores, mas uma família. “Na medida que a gente cresce, também cresce o número de pessoas que depende diretamente da empresa e do sucesso da empresa. Não é mais a questão do seu sucesso, de se realizar, é questão de manter tudo não só em pé, mas indo para frente”, comenta Vanessa.

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos