10 de out de 2018

Em cena, Sheila Maluf

Mestre em artes fala do amor e da trajetória nos palcos 

Por Brunna Moraes, João Victor, Lucas Amorim e Victor Lima*

De estilo arquitetônico neoclássico, inaugurado em 15 de Novembro de 1910 e localizado no centro da cidade de Maceió, o consagrado Teatro Deodoro, que guarda inúmeras histórias entre suas paredes, é parte integrante do patrimônio cultural alagoano, além de ser um dos grandes responsáveis por fomentar o circuito multicultural dentro do estado. Foi, justamente, o palco mais tradicional de Alagoas o escolhido para o encontro como uma das personagens responsáveis por “dar vida” e abrir as portas para artistas e produtores que compõem a programação artística no estado, estimulando, dessa forma, a diversidade cultural, seja ela local, nacional ou até mesmo as atrações vindas de fora do país, que contemplam diferentes públicos apreciadores do majestoso e aclamado tablado do teatro.  
(Foto: Assessoria)
Sheila Maluf em seu escritório 

Já de início, ao chegarmos ao complexo do Teatro Deodoro, nos deparamos com a exposição “Salão Nacional de Arte Contemporânea de Alagoas”, que conta com a participação de 40 artistas brasileiros e três estrangeiros convidados. O objetivo do Salão é estimular o pensamento crítico, promovendo a valorização da arte contemporânea nacional, através da mostra de trabalhos de artistas visuais. A exibição conta com fotografias de arte, esculturas, vídeo-arte, pintura, grafite, desenho e design, que ficam à disposição do público.  

O encontro estava marcado para as 10 horas da manhã e, sem muita demora, nossa entrevistada compareceu prontamente.  A figura da qual estamos falando é Sheila Diab Maluf, ou somente Sheila Maluf, como é comumente conhecida no meio das artes. Sheila nos recepcionou e nos acompanhou até o andar administrativo, um espaço amplo e acolhedor repleto de obras de artes. Depois de aguardar um tempo na recepção, entramos numa sala, na qual Sheila costuma executar suas funções. Entre mesas e poltronas nos sentamos para conversar. No canto da sala, prateleiras cheias de livros guardavam algumas das memórias da diretora, entre eles estava o prêmio “Parceiros da Visão” - Dorina Nowill, que ela fez questão de destacar com orgulho, recebido como reconhecimento ao seu trabalho enquanto esteve à frente da EDUFAL, pela publicação e distribuição de 20 títulos em braile para todo o estado de Alagoas. A EDUFAL tornou-se assim a primeira editora universitária a publicar livros em braile.   

Sheila Maluf possui graduação em Licenciatura em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Mestrado em Artes pela Universidade de São Paulo (USP) e Doutorado em Artes, também, pela Universidade de São Paulo (USP). Seu histórico inclui vasta experiência na área das artes cênicas, educação e literatura. Desde 2004 é responsável por coordenar eventos culturais de grande porte, tais como algumas edições da Bienal Nacional e outras da Bienal Internacional do Livro, ambas em Alagoas. Possui diversas publicações nacionais e estrangeiras, além de participar constantemente de convenções e congressos. No período entre 2003 e 2012 dirigiu a Editora da Universidade Federal de Alagoas (EDUFAL), chegando a produzir 564 títulos. Também foi diretora de eventos da ABEU - Associação Brasileira das Editoras Universitárias (2005 – 2009) e depois diretora da Região Nordeste da ABEU (gestão 2009-2011). É sócia-diretora da Livraria e Editora VIVA - hoje a livraria encontrasse fechada - e desde 2015 é diretora-presidente da DITEAL (Diretoria de Teatro de Alagoas). Ufa! Depois desse vasto currículo, Sheila Maluf conta um pouco mais da sua história acadêmica na entrevista a seguir: 

Quando surgiu a sua vontade de trabalhar com arte? Teve alguma inspiração na família? 
Eu fiz um colegial técnico, o local que eu fiz se chamava instituto de arte e decoração. Eu comecei fazendo um curso de desenho, então eu passei a ter disciplinas de arte. Desde o meu colegial eu já fiquei envolvida com a arte, aí eu entrei no meu curso de Licenciatura na FAAP. Um ano antes fiz curso de desenho industrial, também me formei em música e fiz curso de dança. Então a arte sempre esteve envolvida em minha vida e nunca tive nenhuma inspiração familiar.  

Qual o percurso trilhado durante a sua graduação acadêmica? 
Eu fiz História da Arte e Artes plásticas como graduação, depois eu fiz mestrado em Teatro e Educação e Doutorado em Teatro e Educação em Artes. Me envolvi com cultura, técnicas de escultura, pintura, serigrafia, cursos de fotografia e tudo isso foi ajudando na minha formação. E depois realmente me fixei em Teatro e Educação, onde nos últimos 9 anos fiquei como diretora da EDUFAL, com 564 livros publicados. 

Quando foi que você se interessou por trabalhar com Arte e Educação? 
Quando eu estava no meu último ano da graduação de Licenciatura Curta, surgiu uma lei que obrigou a ser Licenciatura Plena. Já estava com planos de sair da faculdade e preferi ficar mais um ano para cursar as matérias na área de educação e foi quando eu me apaixonei por educação. Depois fui fazer estágio nas escolas e comecei a trabalhar e vim pra Alagoas. Ainda voltei a São Paulo para cursar meu mestrado e doutorado.  

No período em que esteve à frente da EDUFAL, quais foram os caminhos para fomentar a 
cultura dentro da universidade ou do estado? 
Quando eu estive na EDUFAL sempre me preocupei muito em democratizar a cultura. Levo isso como um lema de vida. Permitir sempre o acesso para todas as pessoas, independentemente de qualquer coisa. E como a gente pode permite o acesso dessas pessoas? Dando gratuidade. E aí nos anos de 2005, 2007, 2009 e 2011 eu realizei a Bienal de Alagoas. Em 2005, eu fiz no Clube Fênix quando ninguém acreditava e não sabiam nem o que era Bienal. E me perguntavam assim “Bienal? Por que você não faz todo ano?” e eu respondia: “porque é bienal, então não é todo ano” (risos). O primeiro ano, em 2015, no Clube Fênix, compareceram 50 mil pessoas. A segunda edição, já no Centro de Convenções de Maceió foram 100 mil pessoas, o público da terceira foi de 150 mil e, em 2011, com 200 mil pessoas. Eu fazia questão que uma equipe fosse nas escolas “vender” a ideia que era importante os alunos irem visitar a Bienal. 

Após o período dentro da Universidade, quais foram seus projetos? 
Quando saí da Universidade, montei minha livraria e editoria, de mesmo nome, VIVA. A livraria eu terminei fechando depois de 3 anos no auge da crise, mas mantive a editora VIVA que funciona até hoje. E no momento em que dirigia a editora, eu fui convidada pelo governador a assumir a direção do complexo cultural, que compreende o Teatro Deodoro, o Teatro de Arena e a galeria de arte. Assumi em 2015 e estou no meu quarto ano de gestão. 

O Complexo Cultural viabiliza algum projeto? Se sim, qual ou quais são eles? 
Dentro do complexo cultural temos sim alguns projetos, em um deles trabalhamos com 50 jovens de 8 a 14 anos que frequentam aulas de dança, além de parcerias com vários grupos culturais que realizam eventos sempre nas últimas quartas-feiras de cada mês, chamado de Quartas Eruditas. Temos ainda aulas de balé, a Orquestra Filarmônica que ensaia aqui dentro do Complexo e o Clube do Jazz, que realiza ensaios abertos quinzenalmente.  

De que maneira o público que tem interesse de visitar ou se informar a respeito do 
Complexo Cultural pode ter acesso com praticidade? 
Falando ainda em democratização da cultura, uma das primeiras coisas que fiz à frente do Complexo Cultural foi a criação da plataforma online do Diteal, a Diretoria de Teatro de Alagoas. A plataforma facilita o acesso com todas informações referentes aos teatros, com a programação, ficha técnica, quantidade de assentos, tudo na palma da mão, e eventualmente podem inclusive comprar ingressos. Eu invisto muito em site porque acho que no site você mostra exatamente tudo o que a gente faz e, hoje em dia, todo mundo tem um computador ou uma lan house perto.   

De que maneira o Complexo Cultural tenta aproximar seu conteúdo artístico da população 
que não possui o hábito de frequentar teatro? 
Não adianta fazer cultura para uma elite, pra um grupo fechado. É importante fazer cultura para atingir a todos. Nós fizemos uma exposição chamada “Amostra Grátis” e fez tanto sucesso que tivemos que fazer uma “Amostra Grátis 2” no ano seguinte. Nós pegamos várias obras de artes, de autores alagoanos, fotografamos, plotamos, fizemos em tamanho de banners e colocamos do lado de fora do teatro. Então pra quem passava na rua, na praça em frente ao teatro, que tinha receio de entrar no teatro, a obra de arte foi até essa pessoa. A ideia da equipe era jogar a arte pra fora do Complexo Cultural. 

Qual o critério para um artista realizar uma mostra cultural dentro do Complexo Cultura? 
Alguns a gente convida, mas basicamente a maioria são por edital. Os critérios ficam todos no edital. Nós temos também dois projetos muito importantes aqui, que são “O Teatro é o maior barato”, que acontecem as quartas-feiras por preços acessíveis, custando entre R$ 10,00 e R$20,00, e que possuem 50 ingressos reservados para estudantes da rede pública. Ainda temos o Quinta no Arena, com participação através de edital também. E vários eventos que ocorrem dentro do complexo ainda são gratuitos, como a visitação e algumas peças que são abertas ao público.    

Ao final da entrevista, Sheila Maluf ainda apresentou a equipe com quem trabalha, que viabiliza o funcionamento de todo o complexo. Em seguida, fizemos um breve passeio as salas do prédio, visitamos a sala de dança, onde acontecem aulas gratuitas de dança para estudantes de escola pública e fomos ao salão de arte contemporânea. Ao conhecer de perto um dos principais espaços culturais do estado, fica claro o quanto se faz necessário viabilizar e estimular cada vez mais o livre acesso e a aproximação da população com espaços de fomento à cultura local. 

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos