24 de out de 2018

Ciência também é lugar de mulher


Por Carolina Neris, Maria Vanessa Ataíde e Thaís Paim*
Dona de uma opinião forte e sorriso largo, a PhD em física, Solange Bessa Cavalcante, fala com propriedade sobre os desafios de ser uma cientista no Brasil. Professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), trabalha há 34 anos no Instituto de Física fomentando ensino e pesquisa desde a iniciação científica até o pós-doutorado de seus alunos membros do grupo de Dinâmica Quântica e não linear. Também participa do grupo “mulheres na física”.

Ela fez uma breve pausa em sua agenda atarefada para compartilhar um pouco das alegrias e desafios de ser uma professora pesquisadora.
1    Por que você escolheu a física? O que te atraiu para essa área específica?
Por gostar de Matemática e de disciplinas dedutivas para as quais a memória, embora importante, não seja um fator determinante.
Em que momento da graduação você decidiu ser pesquisadora?
No final da graduação, por gostar muito e além disso por ter a noção que um professor pesquisador pode ser bem mais preparado e, portanto, em princípio, bem melhor do que um professor não pesquisador. 
Como é ser uma mulher cientista em ambiente predominantemente masculino?
Foi bem difícil, pois no passado você nunca era levada a sério já que mocinhas iam à faculdade para esperar marido. No início é difícil, mas a gente vai aprendendo a lidar com as situações, e eu já estava acostumada em casa, porque cresci com um irmão dois anos mais velho do que eu. Tive que protestar muitas vezes em muitas ocasiões, inclusive com as mulheres contra, mas essa é a vida e eu não gosto de “mimimi”.
Como surgiu o movimento "mulheres na física"?
 Durante o meu Doutorado na Inglaterra eu participei de um grupo de mulheres e depois em Maceió em 1989, a professora Nádia Regina Loureiro de Barros Lima iniciou esta discussão na UFAL, realizando um evento sobre Mulheres na Ciência. Mais tarde no final dos anos 90, um grupo de físicas do Sudeste iniciou esta discussão na comunidade de físicos, e um primeiro evento no Brasil envolvendo não somente físicas, mas também cientistas de outras áreas como Biologia compareceram. Nesse evento a ex-ministra Nilcéia da Secretaria das Mulheres compareceu e nos apoiou fortemente com medidas concretas para incentivar as mulheres à carreira científica. Medidas tipo: licença maternidade para bolsistas, por exemplo, e outras, todas com a intenção de aumentar o número de mulheres na carreira científica.  
Qual foi o momento mais desafiador da sua carreira?
Foi o final do Doutorado e todo o processo que envolve a defesa de tese em terras estrangeiras na presença de professores famosos na área.
Quais são os principais desafios para o ensino de física na Ufal?
Basicamente, toda a estrutura da UFAL que não contribui e só atrapalha. As diretrizes que vem do MEC que detonou o currículo da Licenciatura, incluindo um monte de disciplinas inúteis em detrimento de disciplinas básicas de física.  O professor de Física para ser bom, tem que saber física e não disciplinas inventadas para satisfazer profissionais da Educação que nada sabem de física. Outro desafio é laboratório, que graças aos bons tempos do ministro Haddad conseguiu melhorar bastante, mas como tudo no Brasil não tem continuidade, posso vislumbrar um futuro negro para os laboratórios numa eventual vitória da direita. E o ensino de física sem laboratório é como aprender a dirigir um carro sem o carro.
Como você explicaria o seu trabalho como cientista?
Meu trabalho é atuar em física básica com o objetivo de aprofundar o conhecimento para que este
venha a ser aproveitado no desenvolvimento de dispositivos ópticos de última geração. Esse tipo de trabalho envolve um time de pessoas que são como elos de uma corrente e que, se feito corretamente pode proporcionar melhoria de vida para toda nação. Nessa corrente uma extremidade é a física básica, tanto teórica quanto experimental. Nos laboratórios forma-se pesquisadores em todos os níveis, de iniciação científica ao Doutorado e técnicos altamente especializados. Essas pessoas tem o poder multiplicador e difundem esse conhecimento que deve ser aplicado para que o país possa gerar riquezas e melhorar a situação da população. Por isso que qualquer país rico e civilizado tem sua economia baseada em Ciência, Tecnologia e Inovação. E ainda esta é uma senhora diferença entre instituições públicas e privadas, pois a maioria das instituições privadas voltadas para o lucro imediato, não sabem nem o que é pesquisa básica, que dirá tecnologia e inovação.
Como você enxerga o futuro da ciência no Brasil?
Durante o governo do PT eu já enxergava um futuro pífio porque apesar de ser o governo que mais investiu em pesquisa desde que nasci, ainda investia pouco em comparação aos países que sabem o quanto a pesquisa básica é importante para a economia de uma nação. Imagine agora com essa ameaça que bate à nossa porta. O futuro é negro, pois o líder nas pesquisas não tem proposta decente para pesquisa e educação.  Eu costumo dizer que, se esses políticos soubessem o quanto ciência e tecnologia (C&T) pode render ao país, eles certamente estariam investindo pesadamente em C&T.
Durante sua trajetória, em meio às dificuldades, o que te motivava para continuar?
Eu costumo funcionar ao contrário. Se as pessoas me motivam a parar para mim significa que eu devo continuar firme e forte. Talvez o ambiente competitivo em que cresci tenha me dado forças para encarar essas coisas e ir adiante. Então as próprias dificuldades funcionam como um motor para mim. 
Quais são os seus próximos projetos na área? Há algum projeto seu, em especial, que você destacaria? 
Sim tenho um projeto sobre novos materiais, conhecidos como metamateriais, mas se eu começar a falar sobre ele, posso fazer o leitor dormir... melhor não correr o risco.  
Qual a importância do incentivo à pesquisa, principalmente no meio acadêmico?
A maior importância é o efeito multiplicador como mencionado acima, é a base de toda a Tecnologia e Inovação.
O que você diria para alguém que sonha seguir a carreira de cientista/pesquisador? 
 Que é a melhor carreira do mundo para quem gosta de vida simples e feliz. Conhecer gente inteligente no mundo inteiro, este é um dos grandes privilégios. Tive oportunidade de conversar com vários ganhadores do prêmio Nobel, e várias pessoas brilhantes pelo mundo afora, isto não tem preço. Trocar informações com gente de todas as idades também é muito importante, particularmente com o avanço da idade que em geral afasta os velhos dos mais jovens. Mas na nossa profissão não tem idade.

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos