10 de out de 2018

Ciência em movimento: o poder transformador da Caravana Itinerante

  Por: Lisa Gabriela, Emanuella Lima e Nathália Melo Paes

Lenilda Australino

Sentada em uma sala de aula comum e com um largo sorriso, a professora aposentada Lenilda Australino, mestra em Física e doutora em Educação, não dá indícios de que há 14 anos faz a ciência transcender os muros da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e caminhar por todo o estado. Dona de uma simplicidade singular, trajando um vestido florido e com um par de óculos que -segundo a própria- há tempos lhe acompanha, ela discorre com calma e tranquilidade sobre um projeto que modifica a vida de muitas pessoas.  

Lenilda é fundadora e coordenadora da Caravana Itinerante de Ciência e Tecnologia da Ufal, e desde 2004 passa três dias na estrada levando oficinas de aerodinâmica, sessões de planetário, lançamentos de foguetes e varais de poesia às regiões carentes e interioranas de Alagoas. Segundo ela, não importa o meio ou a forma, e sim a disseminação da ciência e a modificação de vidas através dela. 

Em que momento a Ciência se tornou uma área fundamental em sua própria vida? 
Eu sempre gostei das ciências, desde muito jovem. Então, eu queria fazer engenharia... curso que fiz até o terceiro ano, época em que decidi mudar para a física. Desde lá não saí mais desse caminho. 

E no meio acadêmico, qual é a importância da divulgação da Ciência? 
Para mim, a divulgação da ciência tem dois aspectos fundamentais. O primeiro deles é a informação à sociedade sobre o que acontece na academia. Você faz descobertas científicas e a comunidade precisa saber o que está sendo feito, principalmente nas universidades. A outra vertente é a estimulação de jovens, para que eles sigam nessa carreira.

Qual é o objetivo principal da Caravana Itinerante e como ela começou? 
Com certeza o objetivo principal é divulgar a importância da ciência e levá-la ao interior de Alagoas. A caravana começou no primeiro ano da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, pois fizemos uma palestra e vimos que aquilo não era suficiente, pela pequena abrangência e pelo pequeno alcance. No ano seguinte pomos a caravana nas ruas. Enfrentamos alguns problemas como o vento, os locais... Mas fomos nos ajustando com o passar dos anos. No fim das contas o importante é o impacto que a caravana causa. Geralmente as pessoas que visitamos não tem a oportunidade de assistir a um show de física ou química, principalmente no interior. Tanto é que até hoje nunca tivemos uma exposição vazia.

Como funcionam os núcleos de divulgação da ciência? 
Nós temos grupo dentro da caravana, responsável por se reunir e traçar as estratégias para o projeto. A caravana é financiada por instituições de fomento, como o CNPQ e a FAPEAL. Dentro dessas parcerias e definições, abrimos um leque de divulgação da ciência. Gosto de definir apenas como um grupo de pessoas interessadas na ciência e em divulgá-la. É importante falar que as estratégias mudam de acordo com os temas propostos pelo Ministério Público. Se em um ano temos um tema voltado aos indígenas, por exemplo, procuramos divulgar e visitar lugares que alcance esse público em especial, como o município de Pariconha. 

Este ano a Semana Nacional de Ciência ocorrerá durante os dias 15 e 21 de outubro, quais são as expectativas para o evento? 
Nossa expectativa é atender as dez cidades do Sertão que colocamos no roteiro, e, principalmente, sensibilizar as pessoas visitadas. Queremos conhecer essas outras realidades... esses lugares englobam Inhapi, Santana do Ipanema, Água Branca, Olho D’água das Flores, Delmiro Gouveia.... São cidades próximas e pretendemos envolver todos por onde passarmos. Essa é a expectativa máxima.  

O projeto existe há 14 anos, ele já alcançou um grande público?  
Com certeza! Na última conta que eu fiz, por exemplo, já tínhamos atingido 2% de toda a população do estado. Isso é muito. Tocamos muita gente nesse caminho.  

Quais as cidades que a caravana já visitou? 
Palmeira dos índios, Santana do Ipanema, Delmiro Gouveia, Água Branca, Piranhas, Belo Monte, Traipu, Porto Real do Colégio, Pão de Açúcar, Igreja Nova, Penedo... toda a margem do São Francisco, excluindo São Braz. Já visitamos Arapiraca, Teotônio Vilela, São Luiz do Quitunde, Branquinha, União dos Palmares, Viçosa... por aí vai (risos). Fomos há muitos lugares! Um detalhe é que nunca conseguimos um apoio das prefeituras da região Norte, por isso há uma dificuldade maior em ir para essa área. 

O que faz você continuar a ter compromisso com a ciência, mesmo sendo professora aposentada pela Universidade Federal de Alagoas? 
A primeira coisa é que eu amo, gosto, adoro o que eu faço! (risos) Essa energia me motiva, ver as pessoas engajadas me motiva, os alunos que querem participar da caravana me motivam... são essas pessoas que me estimulam a continuar trabalhando pela ciência e a interagir com ela. Fazendo esse trabalho, eu vejo que agrego na vida dessas pessoas. É inexplicável a sensação de chegar em uma cidade e ver a reação das crianças quando entram em um planetário... dos idosos que nunca tiveram a oportunidade de vislumbrar a ciência. Essas coisas pagam todos os meus aperreios (risos). O poder da ciência é o que me move, é o que move os professores. 

Como você descreveria sua história e a responsabilidade firmada através da divulgação da ciência como um dos artifícios principais de sua carreira? 
Eu faço por prazer. Essa é minha descrição. Sempre gostei de transmitir conhecimento... eu vejo essa atividade como uma atividade de satisfação. Minha história pode ser definida como uma história de satisfação, sempre gostei da ciência. 

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos