10 de out de 2018

A dama da educação matemática


Por Carolina Neris, Maria Vanessa Ataíde e Thaís de Jesus Paim* 

Era um fim de tarde bonito e se aproximava a famosa hora de ouro, quando o pôr do sol se exibe e transforma momentos simples em grandes paisagens e lembranças.  O ambiente era singelo, mesas espalhadas por todo canto e de onde estávamos podíamos ver folhas bem esverdeadas de uma grande árvore, vários rostos desconhecidos, murmúrios e risadas, além de uma brisa agradável.  

Tudo parecia cooperar para uma tarde de conversa descontraída e eis que surge a pessoa tão esperada, com uma graciosidade de dar inveja, um equilíbrio entre a extrema simpatia e imponência, de fato, alguém que não passa despercebida. Comprimentos feitos, sentamos em volta daquela mesa verde que combinava com as folhas que ambientavam o lugar. Com um copo de café ao lado, palavras breves trocadas, sorrisos e ansiedade pelo deleite do conhecimento que estava prestes a consumir.  

O ambiente escolhido não poderia ter sido melhor: a lanchonete do bloco de Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas, onde ministra as suas aulas, entre os alunos, com comprimentos e elogios que surgiram até durante a espera da sua chegada.  Em poucas palavras trocadas, a comunicabilidade eximia já era evidente, o que poderia ser anunciado por todas as formações contabilizadas em seu currículo, apesar de contar com uma energia extremamente convidativa e acessível que vai além da sua formação.  

E foi assim que iniciamos a conversa com a Mercedes Bêtta Quintano, com pósdoutordo pela Universidade de Lisboa, atuante nas licenciaturas de Pedagogia e Matemática como docente e pesquisadora, no Programa de Pós-Graduação da UFAL em Educação, na linha de pesquisa, Processos Educativos, onde desenvolve pesquisas na área da Educação Matemática. Essa mulher imponente, de atitude pioneira e extremamente bem informada nos agraciou com alguns minutos de muita simpatia, informação e sensatez.

Em que momento da sua graduação, de sua trajetória, decidiu ser pesquisadora?  
Puramente ao acaso. Eu sempre fui professora da escola básica. A minha primeira graduação é em Administração de Empresas. Eu fiz o magistério e trabalhei durante 20 anos na escola básica. Eu fui professora da educação infantil, do curso magistério, dos anos iniciais, e que no meu tempo era séries iniciais. E aí, quando eu entrei na coordenação, na parte da administração da escola, eu fui fazer um curso, que em São Paulo todo mundo fazia e era um curso com a Fernanda Pimentel, que trabalhava com a Formação do Coordenador em Fazer as Mediações do Trabalho Pedagógico. Nesse curso havia uma diretora, e só participavam diretor e coordenador de escola, que começou a conversar comigo sobre matemática e eu contei como eu trabalhava matemática com os meus alunos. Aí ela virou para mim e disse assim: “É isso que eu tô procurando! Você dá curso?”. E eu falei “Dou”. Mas eu nunca tinha dado um na vida. E é tudo assim, ao acaso. Ela me disse: “Então você vai na minha escola, apresenta um projeto, porque você vai fazer um curso de matemática na época de planejamento dos meus professores”. Então eu fui, fiz o planejamento, me contratam, gostei.  

No começo eu fui meio reticente e falei: “Nossa, mas eu vou falar com colegas, né?”. Porque ontem eu estava em sala de aula, como eles, fazendo semana de planejamento. Foi então que eu vi que o que eu estava falando para eles era uma grande novidade. Então, eu comecei a investir na formação de professores. Bater nas portas, buscar pessoas, buscar parcerias... fui e comecei a ter uma divulgação dos meus cursos. Paralelamente a isso, eu me inscrevi na minha primeira comissão de matemática para os anos iniciais, que também me possibilitou viajar pelo Brasil inteiro. Inclusive, estive aqui em Maceió para falar desse trabalho. E aí, o meu trabalho na formação de professores foi crescendo e o meu marido, na época era diretor, virou pra mim e disse: “Eu tenho bolsa pra minha cidade, por que você não faz?”. E nunca tinha passado pela minha cabeça. Foi aí que eu fui fazer o mestrado. Já quando eu fui fazer o meu doutorado, eu estava trabalhando somente no ensino superior. E sempre investindo, paralelamente, nesses cursos, escrevendo livros. 

Eu gostava do livro didático, gostava dessas coisas. E por conta do meu trabalho no curso de pedagogia, que eu fazia na universidade particular, eu fui fazer o doutorado em Educação Matemática. E nunca, nunca pensei, porque o doutorado, para mim, foi uma questão pessoal como investimento que eu faria nesse meu movimento de cursos de formação. Trabalhei muito com secretarias municipais de educação, no sentido de dar algo a mais na minha carreira, mas nunca pensei em prestar concurso para universidade pública e ser professora de universidade pública. 

Então, foi realmente ao acaso e mais, porque uma amiga minha, de longa data, tinha prestado concurso seis meses antes e falou: “Mercedes, vai aparecer um concurso que é a sua cara”. Porque a minha tese de doutorado é o Ensino da Matemática no curso de pedagógica. E eu vim, passei e aqui estou. Mas não foi um projeto de vida. Muito pelo contrário. Estou na Ufal há 9 anos e 8 meses. 

De todos esses momentos em sua carreira, quais foram os mais desafiadores?  
O meu maior desafio foi investir em mim mesma. Investir na minha formação, em leituras, em trabalhos e cursos do qual eu participei, em especial, porque eu não tive bolsa, exceto quando eu fiz o mestrado, porque o meu marido, por conta do protocolo da instituição em que trabalhava, ele tinha direito à bolsa. Então eu fiz, não bolsa financiada pelo CNPQ, mas bolsa porque ele tinha direito. O meu doutorado eu paguei, paguei a minha faculdade. Então eu acho que o meu maior desafio foi fazer determinadas escolhas em determinada época, que foi investir em cursos. Os cursos que eu fiz me serviram de inspiração para criar os meus.    


Na Ufal, o maior desafio foi o diálogo que eu consegui estabelecer com o Instituto de Matemática. Eu sou muito bem recebida dentro no instituto. Realizamos um trabalho pioneiro de estágio no IM, que é levar os meninos da matemática para fazer estágio no 5º ano do ensino fundamental. E isso acabou criando um movimento de alunos da matemática vierem fazer a disciplina de Saberes e Metodologias aqui no curso de Pedagogia. Então, a maior gratificação deste desafio foi conseguir estabelecer esse diálogo, essa reaproximação com o IM. Que tem a ver com a minha tese. Porque a minha tese, sem eu saber, já que eu não tinha essa intenção de ser professora universitária, deixou pavimentado o meu caminho para pesquisadora na universidade, porque é justamente isso que eu pesquiso: a formação dos professores que ensinam matemática. Porque assim, eu congrego tanto o licenciando em matemática, quanto o de pedagogia. 

Há algum projeto em especial que você destacaria? 
Esse diálogo com a matemática foi o mais marcante, o mais especial.  Porque, eu acho que essa experiência de trabalhar com a matemática tão próxima da pedagogia, principalmente no estágio e levar os meninos para fazer estágio no 5º ano do ensino fundamental, até o presente momento nós somos a única universidade do Brasil que fazemos isso. 

Como foi a reação dos alunos de matemática em realizarem estágio na educação básica. 
Primeiro eles acham assim: “Mas eu não vou trabalhar lá, então eu vou lá para quê?”. Mas, chamou a atenção deles a dinâmica do professor e eles também ficaram impactados em como a matemática é trabalhada nos anos iniciais. Porque acaba ocasionando umas lacunas para eles. A partir disto, eles começaram a ver a importância de se trabalhar o rito de passagem do 5º para o 6º ano. Porque eles irão ser o primeiro professor de matemática na vida desses alunos. Assim, eles começaram a ver sentido em trabalhar com essas crianças do 5º ano. No começo, era pra trabalhar com todas as séries, todos os anos, mas o 1º ano é muito distante. Então fui observando que se localizar tudo no 5º ano, o estágio ficaria mais produtivo. Foi então que nós quebramos a resistência.

Existe alguma personalidade da área que influenciou ou inspirou sua carreira? 
Eu acho assim, que como todo professor, a minha orientadora de mestrado, Maria Mota Campos, a quem tenho muito respeito e com quem aprendi muito. A minha orientadora de doutorado também e, aliás, acho que muitas das práticas de orientação que eu tenho, eu me espelho nela. E eu tive um grande professor, na minha época de pedagogia, quando fiz minha especialização em Supervisão Pedagógica, que era o José Fusário. Aprendi muito com ele. Mas, o que eu aprendi mesmo de importante foi na educação básica, com meus professores de português, matemática e literatura. Sempre foram minhas referências. 

Como é ser pesquisadora de Educação Matemática no Brasil? 
A educação matemática é um nicho muito novo, tem apenas 40 anos no Brasil. E eu devo ser a quarta geração de educadores em matemática, de doutores formados em educação matemática no país. A minha orientadora era a segunda geração. Os primeiros mestres em matemática ou doutores em matemática que saíram do Brasil para fazer fora, porque aqui não tinha, foi em 1989. É algo muito recente. Então, trabalhar com a pesquisa em educação matemática, em especial, voltando os olhos para os anos iniciais em educação infantil e trazendo o diálogo tão próximo com a matemática, eu diria que é um grande desafio. 

Qual será o reflexo desse esforço, dessas pesquisas, em alguns anos, na formação de professores que estão saindo da pedagogia e da matemática?  
Eu penso que a formação ainda é muito comprometida. Eu penso que na formação inicial nas licenciaturas, e não é o caso só da Ufal, é o caso de todas as licenciaturas, elas têm um comprometimento muito tênue da prática pedagógica. Porque você forma com muita teoria e pouca prática. O que não quer dizer, que a teoria deve estar em segundo plano. Não. Ela deve estar caminhando junto com a prática. Só que nós temos uma formação muito teórica, com pouca realidade de sala de aula. E por isso o governo tem vários projetos para tentar suprir essa carência do que não foi dado na universidade. No meu entendimento, a forma como se forma professores no Brasil é totalmente equivocada. Professor tinha que entrar às 8h na universidade e sair às 17h. Uma formação em período integral. E nessa formação, além de você ter os conhecimentos da filosofia, da sociologia, da psicologia, os alunos teriam que ter uma alta carga das disciplinas que irão ser trabalhadas, com conteúdos da matemática, da história, geografia, das ciências, das artes. E essa parte do professor ficar o dia inteiro, além dele fazer inserções da escola, ele trabalhar também numa perspectiva de uma questão cultural e ir a museus, teatros, cinema, estudo de campo mesmo e diferentes espaços.  

Como você enxerga o futuro da ciência e da pesquisa no Brasil? 
Se nós continuarmos formando professores para a educação básica.... Porque não adianta... História, português, matemática, geografia, ciência.... Tudo sai da universidade e vai desaguar na educação básica. E a educação básica está com a qualidade de ensino bastante comprometida. Se você continuar formando com essa educação básica comprometida como está, fatalmente, comprometerá a ciência e a pesquisa. Tudo o que a gente aprende de importante vem da educação básica. 

O que você diria para alguém que sonha seguir a carreira de cientista/pesquisador? 
Estudem! 

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos