11 de out de 2018

A antropologia xamã de Silvia Martins


Por Luiz Henrique Barroso de Carvalho e Vanessa Silva*



Parece avó, mas ainda é mãe. Talvez os cabelos alvos a denunciem. Talvez suas características excêntricas – assim definidas pelos padrões estéticos da maioria das pessoas – façam da antropóloga Silvia Martins uma pessoa única em simpatia, competência e respeito. Com carreira acadêmica dedicada ao estudo antropológico do xamanismo das tribos indígenas do agreste alagoano e pernambucano, a PhD construiu uma carreira sólida na sua área e com certeza é exemplo para muitos antropólogos aspirantes. Hoje em dia, calçando um par de alpargatas, exibindo belos dreadlocks alvos e usando um sem-número de pulseiras, colares e brincos feitos com sementes e outros artigos indígenas, Silvia atende pacientes para realizar terapias homeopáticas com uso de florais e cristais na sala de cuidados Antonio Piranema, no campus A. C. Simões da Universidade Federal de Alagoas. 

A senhora construiu uma carreira acadêmica de renome enquanto antropóloga. A jovem Sílvia imaginava conquistar tudo que você conquistou? Como foi se descobrir pesquisadora? 
Não me considero uma antropóloga de renome, não. Acho que a gente trabalha, se esforça, vai construindo um caminho, mas nunca tive nenhuma pretensão de ser exigente comigo mesma e ocupar um espaço. A gente vai trabalhando e construindo as coisas ao longo do caminho. Mas realmente era um sonho meu, fazer o que eu faço hoje, ser professora na Universidade Federal de Alagoas, trabalhando com antropologia, trabalhando com xamanismo, que me chamou a atenção em antropologia no início.

A senhora sempre se interessou pelas tradições indígenas e o xamanismo? Como esses temas entraram na sua vida?
Desde o início, o que me atraiu – eu acho que as pessoas já estão cansadas de me ouvir falar – foi a leitura de um livro de Carlos Castaneda, antropólogo brasileiro. Eu fiquei encantada porque o livro tratava de um diálogo dele com Don Juan, um xamã mexicano. Nesse diálogo, o autor expõe toda a filosofia indígena desse povo mexicano. Eu fui atrás da profissão do escritor e vi que ele era antropólogo. Eu fiquei encantada e achei lindo o termo “antropólogo” e pensei que queria ser antropóloga também. Descobri na UFPE tinha o curso de Ciências Sociais com especialização em antropologia. Passei em primeiro lugar no vestibular. Já na graduação, trabalhei com apoio do Núcleo de Estudos Indigenistas da universidade, ligado ao curso de Letras. Na época da minha graduação, não havia na UFPE ninguém trabalhando com grupos indígenas no bacharelado de ciências sociais. Eu tive essa oportunidade de me vincular ao NEI e inclusive ter apoio de financiamento de pesquisa já no bacharelado, voltada à monografia sobre os Pankararu, um grupo indígena de Pernambuco. No mestrado, resolvi fazer uma pesquisa dos Xucuru-Kariri daqui de Alagoas. Foi quando me apaixonei por Alagoas e Maceió. 

O que a levou a escolher os Kariri Xocó como objeto de pesquisa?
Eu tinha uma curiosidade pelo grupo Kariri Xocó. Era uma ligação porque tinha lido uma tese de doutorado de Clarice Mota, que trabalhou com etnobotânica e com o conhecimento da tribo sobre o assunto, como a relação com as plantas e o xamanismo. Então me chamou muito a atenção por ser um grupo que carrega uma tradição muito forte, ligados a rituais de Ouricuri, quando se isolam numa área perto da floresta, na mata, à parte da aldeia. Eles têm ligação com os índios Fulniô de Águas Belas, um grupo indígena que até hoje são falantes de uma língua viva. Então os Kariri Xocó começaram a ganhar meu fascínio e admiração. Fiquei com vontade de conhecê-los melhor, principalmente dentro da perspectiva do xamanismo. Eu já estava trabalhando na Ufal quando mandei o projeto de pesquisa para uma universidade no Canadá, que foi aceito. Eles davam 75% de desconto para estudantes internacionais. Fui com bolsa e levei toda minha família. Foi uma sorte imensa. Geralmente, a experiência de vida no exterior sozinha traz muito sofrimento e isolamento, há um choque cultural muito grande. Mas no meu caso foi uma maravilha. Escolhi ir para um país estrangeiro porque quis dar essa experiência aos meus filhos. Ficamos quatro anos fora. Passamos nove meses em Porto Real do Colégio, quando estava fazendo minha pesquisa de campo, e depois retornamos para o Canadá, quando ficamos mais um ano e meio, enquanto escrevia a tese, a parte mais dura de todo o processo de doutoramento. A convivência com os Kariri Xocó foi maravilhosa. Em Porto Real do Colégio, nós moramos na cidade numa chamada “Rua dos Caboclos”, com vários vizinhos e famílias indígenas. Foi uma experiência muito boa para todos nós. 

Atualmente a senhora conduz um projeto com florais. Em que consiste esse trabalho? 
Esse meu trabalho com os florais surgiu a partir de um curso que eu resolvi fazer em Recife, sobre florais da Amazônia. Hoje tenho quatro cursos de florais, incluindo um de fórmulas e outro de ciclo de vida. Ao final do primeiro curso, quando cheguei em casa, olho para o meu jardim imenso, onde há muitas flores e pensei: por que não faço florais das flores do meu jardim? Sempre tive uma ligação muito grande com plantas. Não é por acaso que eu fui conviver com os Kariri Xocó para pesquisar com eles também sobre essa relação que eles têm com as plantas dentro do xamanismo. Eu comecei a fazer alguns florais e batizei de Florais de Lis, em homenagem a minha filha mais nova. Eu tenho feito atendimento na sala de cuidados Antônio Piranema nas terças-feiras na Ufal. É um trabalho lindíssimo ligado à Famed. Graças a idealizadora Edna, uma pessoa maravilhosa, conseguimos agregar vários atendimentos das mais variadas terapias. Não só é lindo, mas é inovador e de ponta o trabalho da sala, já que outros espaços estão sendo feitos em outras instituições. Os florais não se tratam de remédios. Eu os considero como terapia, mas é algo que está inserido na medicina vibracional e, nesse aspecto, eu me apoio em alguns autores, em especial o Richard Gerber, que inclui dentro da abordagem de todas medicinas vibracionais a terapia floral.

Quais contribuições trabalhos acadêmicos como o da senhora podem fornecer para a sociedade? 
Meu trabalho como antropóloga é ser professora e pesquisadora, então nesse aspecto, sala de aula é um ambiente onde eu procuro contribuir para a formação acadêmica de meus alunos. Eu sou exigente, quero que eles realmente aprendam a ser cientistas, a ler trabalhos acadêmicos, a ter essa ligação. A contribuição que eu sinto que eu dou na minha atuação profissional é na formação acadêmica dos nossos alunos. Eu considero antropologia uma das ciências que estão aí para melhorar a qualidade de vida das pessoas, como o pessoal da biologia que orienta sobre preocupação com o planeta terra, com a vida. 

No recente caso do incêndio do Museu do Rio de Janeiro, um grupo de pesquisadores indígenas correram desesperados até o local em chamas na tentativa de salvar peças do acervo que guardava a história da sua tribo extinta. Sobre o caso, eles afirmaram que era como se tivessem sido extintos pela segunda vez. O que a senhora pensa desse ocorrido?
Foi realmente uma tragédia o que aconteceu. Eu senti muito, eu já tive no museu. Todos nós sentimos muito e realmente é algo irreparável, as perdas do acervo que não tem como recuperar é algo muito triste, algo que a gente sabe que é fruto de uma falta de cuidado em termos de manutenção, tudo relacionado a verbas. Eu acredito que o que aconteceu foi por uma besteira, provavelmente, um curto circuito, e isso tudo reflete a falta de cuidados que se tem hoje com esses nossos administradores, nossos governos com essas questões ligadas ao cultural, a esses ambientes que são de produção de conhecimento e de acervos como é o museu, então eu senti muito. Acho que todos nós.

Quais conselhos daria a um(a) jovem pesquisador(a) que está iniciando agora sua carreira na Antropologia e outras Humanidades?
O conselho que eu dou para as pessoas, para os meus estudantes, é seguirem o coração, sabe? É seguirem aquilo que gostam de fazer. É seguir o interesse teórico, o assunto que você quer pesquisar, descobrir. Eu acho que quando você segue seu coração, você vai ser um bom profissional. Então façam as coisas com amor, com vontade, paixão. É esse o grande segredo. 

Quem é Silvia fora da Academia? 
A Silvia Martins fora da Academia é uma pessoa muito só. No meu cotidiano, sou muito só. Conheço muita gente, entro em ambientes onde sou muito querida, muitas pessoas que me conhecem, mas no meu cotidiano eu sou só e gosto de ser só, não é algo que reclamo. Eu costumo dizer que muitas vezes, em finais de semana, se eu não ligo pra ninguém, ninguém liga pra mim. Eu consigo passar um fim de semana totalmente voltado para aquilo que eu queira fazer, dentro do silêncio e tranquilidade da minha casa. Isso é um grande privilégio, eu acho. Eu gosto muito de estar só e acho que a gente tem uma dificuldade muito grande com isso, em estar só. A gente é criado, desde pequeno, todos muito juntos, todo mundo sempre com alguém do lado. Eu aprendi a gostar muito dessa solidão. Agora basicamente, sobre quem é Silvia Martins, é mãe. Eu vivo muito pros filhos. Tenho 4 filhos. Eu sou aquela mãe que, quem olha para mim, pensa que sou avó, mas na realidade ainda sou mãe. Gosto de me ocupar com meus filhos, apesar de não me achar a melhor mãe do mundo em termos de cotidiano, mas eu gosto muito de ter essa ligação. Se você passa pela vida sem ter tido um filho, você perdeu algo, porque é uma relação e uma experiência muito boa. Eu diria que tenho esse lado também de mãe muito forte fora da academia – e dentro também, porque meus filhos estudaram na creche da Universidade e estavam sempre presentes.

*Alunos do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Magnólia Santos