20 de jul de 2018

O QUE VOCÊ SABE SOBRE HIV E AIDS?

 Assim como em todo país, o número de novos portadores do HIV tem crescido em todo o estado, o que tem preocupado profissionais da saúde.

Fernando Lima  

Ser diagnosticado com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a AIDS, nos anos iniciais da doença era o mesmo que receber uma sentença de morte, já que a sobrevida para pacientes que a desenvolviam em seu organismo era de apenas alguns meses.
A nível mundial, a doença, que é considerada por muitos cientistas e pelo senso comum a epidemia do século XX, foi responsável por cerca de 35 milhões de mortes em todo mundo ao longo de quase 40 anos de história.
Em Alagoas, os primeiros casos da síndrome começaram a ser notificados em 1986, período de ápice da doença em todo em mundo. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, até os dias atuais já foram registrados cerca de 6.394 casos da doença no estado, dentre os quais 2.009 terminaram em óbito. Mais de 1000 destes foram pessoas residentes em Maceió.
O tempo passou e após inúmeros avanços no tratamento e na prevenção da doença, a AIDS, que causou comoção mundial durante as décadas de 1980 e 1900, hoje é considerada uma doença crônica.

Médico infectologista Fernando Maia. Foto: Fernando Lima

Mas apesar de essas conquistas, o número de novas infecções pelo HIV tem crescido no estado nos últimos três anos. Em 2015, foram registrados 317 novos casos. No ano seguinte, esse número teve um acréscimo de 15,69 %, somando 376. Em 2017, o número de casos subiu para 410.
De acordo com os dados, nos três anos foram notificados 1103 novos casos entre a população alagoana, dentro os quais 769 (ou 69.7%) deles são homens. Mulheres somam 30.3% ou 334 do número de registros.
Contrariando o que muitos ainda acreditam, de acordo com os dados a maior incidência dos casos é entre heterossexuais. O grupo soma 483 registros. Em contrapartida, o estado comemorou uma diminuição no número de pessoas que desenvolveram a AIDS, já houve queda de 373 para 361 entre 2016 e 217.
Outro índice negativo que tem preocupado a saúde pública não só em Alagoas, como também em todo o Brasil e no mundo é o aumento dos casos entre adolescentes de 14 e 15 anos e entre idosos.
Sobre isso o médico infectologista Fernando Maia, que atua no Hospital Escola Dr. Hélvio Auto (HEHA), um dos centros de referência no tratamento de Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no estado de Alagoas explica: “Temos observado nos últimos anos um crescimento nos de casos AIDS entre adolescentes a partir dos 14 anos, como também entre pessoas idosas, que devido a novas ferramentas como medicamentos e cirurgias agora podem ter uma vida sexual prolongada. ”
O infectologista acredita que a perda do medo da AIDS é um dos principais motivos que alavancaram o número de novas infecções nos últimos anos. Devido ao tratamento que possibilita uma sobrevida de qualidade, disponibilizado em diversas unidades de saúde de todo o país, as pessoas têm se descuidado na hora de se prevenir contra infecções sexualmente transmissíveis em geral.
Mesmo sendo bem menores que os registrados há 30 ou 20 anos, quando a AIDS ainda não havia alcançado o status de doença crônica e matava milhões de pessoas anualmente, esses números são considerados altos devido à quantidade de métodos preventivos como também de informações sobre ISTs circulando na publicidade, nas campanhas de saúde pública, em programas televisivos, veículos de comunicação em geral e, até mesmo nas produções cinematográficas.
O que acontece em Alagoas é apenas o reflexo do que também é realidade em todo mundo. Recentemente a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou em seu relatório anual que houve aumento no número de infecções pelo vírus em 2016. Foram 1,8 milhão novos casos (um novo caso a cada 17 segundos) e um total de 1 milhão de mortes decorrentes de complicações relacionadas à doença. No Brasil também houve aumento no número de infecções. Foram 37.884 novos casos no ano registrados em 2016, contra 36.360 em 2015.
Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS, divulgado no dia primeiro de dezembro de 2017, estima-se que 160 mil brasileiros estejam vivendo com HIV sem saber. Os números são alarmantes, já que desconhecendo a existência do vírus no organismo, esses portadores, além de desenvolver a AIDS, transmitem HIV para inúmeras outras pessoas, aumentando ainda mais esses números.

O QUE É HIV E AIDS


Conheça quais são as formas de transmissão do vírus e descubra como o HIV age no organismo infectado

Ao contrário do que muitos ainda pensam, AIDS e HIV não são sinônimos. Ser portador do vírus não significa estar doente. Este é um dos mitos mais comuns em relação ao assunto, que ajuda apenas a fortalecer o preconceito sofrido por pessoas que vivem com HIV, tidas dessa forma como doentes por uma parcela significativa da sociedade.
É importante reforçar que HIV é um vírus, classificado como retrovírus, e pode ser transmitido através do contato com fluidos corporais, como sangue, leite materno, esperma e secreção vaginal. A partir do momento em que esse vírus entra em contato com a corrente sanguínea, ataca e enfraquece o sistema imunológico, responsável por proteger o organismo de doenças, infecções e alguns tipos de câncer.
Quando tem acesso ao organismo do indivíduo, o retrovírus utiliza uma enzima chamada “transcriptase reversa” para atacar inicialmente os linfócitos T, mais precisamente o T CD4+, as células da superfície. Entrando em contato com elas, o vírus se combina a seu código genético, se multiplicando e infectando o resto do corpo. Em outras palavras, as células T CD4+ se transformam em uma fábrica de vírus HIV.
“Quando entra em contato com as células T CD4+, o vírus libera uma enzima chamada transcriptase reversa, transformando seu próprio material genético de RNA para DNA. Isso permite que ele se integre ao código genético da T CD4+, ou seja, ele agora faz parte do DNA da célula, o que lhe serve de base para continuar se replicando e aumentando o número de vírus circulantes. ” Explica a Biomédica Dayane Oliveira.
Ao ser infectado com o vírus, o indivíduo pode desenvolver alguns sintomas comuns a doenças como a gripe. São eles: febre, fadiga, faringite e dores de cabeça e no corpo. Esta semelhança entre o HIV e infecções por outros vírus leva algumas pessoas a não tomarem os cuidados necessários e acabam desenvolvendo a AIDS. Por isso é tão importante identificar o quanto antes a presença do vírus no organismo e iniciar o tratamento o quanto antes.
O retrovírus age gradativamente no organismo infectado, destruindo aos poucos seu sistema imunológico. Mas é no momento em que a quantidade de T CD4+ no sangue chega a 200 células por mililitro de sangue, número extremamente menor que 1.000 T CD4+ por mililitro de sangue, considerado normal, que o HIV positivo desenvolve a AIDS.
“Com a presença do vírus, essas células T CD4+ perdem a habilidade de defender o organismo contra doenças. Com a diminuição dessas células de defesa entramos no quadro que chamamos de síndrome da imunodeficiência ou AIDS.” Completa a biomédica.
O organismo do paciente diagnosticado com AIDS está vulnerável a qualquer tipo de infecção oportunista. Qualquer doença, até uma simples gripe, cujo vírus seria facilmente combatido por um sistema imunológico saudável pode ser fatal.

TRATAMENTO

A terapia antirretroviral, disponível gratuitamente em todo o Brasil é capaz de garantir qualidade de vida a pacientes positivos

A terapia antirretroviral, principal forma de tratamento do HIV e da AIDS, é de extrema importância quando o indivíduo descobre ter contraído o vírus ou, até mesmo, quando desenvolve a doença, por justamente conter substâncias capazes de evitar que o HIV faça cópias de si mesmo, ajudando assim a manter o sistema imunológico forte e ativo.
            Com o uso regular do medicamento, o paciente, além de proteger seu organismo, consegue baixar os níveis de HIV e leva-o a um estado de “indetectável”.
            Se tornar indetectável não significa estar livre do vírus, ele continua presente dentro de células no corpo, chamadas reservatórios virais ou santuários e podem voltar a se multiplicar a partir do momento em que a terapia é interrompida, seja por alguns dias ou definitivamente. Quando há a interrupção do tratamento, o vírus pode desenvolver resistência contra o medicamento, tornando o tratamento mais difícil.
            O tratamento é considerado caro, mas desde 1996, quando medicamentos mais sofisticados começaram a ser desenvolvidos, o Brasil passou a disponibilizá-los de forma gratuita pelo SUS. Além dos medicamentos, a população também pode ter acesso a preservativos sem custos. Com isso, o Brasil se tornou referência mundial no combate ao HIV e à AIDS.
            Em 2015, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) reconheceu a importância da iniciativa brasileira na luta contra a doença e o vírus por HIV. Em relatório divulgado pela organização, fora destacado que o país havia sido o primeiro a oferecer combinação do tratamento para HIV, estruturando um forte programa de controle da epidemia em território nacional.
            Em Alagoas, o tratamento, pode ser realizado em três unidades de saúde da capital – Hospital Escola Doutor Hélvio Auto, Pronto Atendimento Médico (PAM) Salgadinho e Hospital Universitário (HU), na Universidade Federal de Alagoas.
            Atualmente são tratados ambulatorialmente pelo Serviço de Assistência Especializada (SAE) do Hospital Hélvio Auto, cerca de 2.200 pacientes provenientes do Estado de Alagoas.
            Em 2017, foi registrado aumento de 33,75 % no número de casos de HIV/AIDS atendidos e encaminhados para tratamento ambulatorial ou internação pela unidade. Enquanto em 2016 o número de atendimentos realizados pelo hospital atingiu 400, após um ano esse número subiu para 534.
Serviço de Assistência Especializada (SAE) do Hospital Hélvio Auto, responsável pelo atendimento de cerca de 2,200 pacientes provenientes de todo o estado de Alagoas. Foto: Fernando Lima.

 
 
TESTE RÁPIDO


O resultado do exame, feito gratuitamente em praticamente todas as unidades de saúde do Brasil, pode ser obtido em até 30 minutos.

Além da terapia antirretroviral, o Sistema Único de Saúde (SUS) também dispõe de forma gratuita o teste rápido do HIV. O procedimento é muito semelhante ao que é feito para medir a quantidade de glicose no sangue: através de uma pequena amostra obtida por meio de uma picada no dedo do paciente.
O sangue é disposto em uma pequena placa e após 30 minutos, em média, o resultado aparece. No caso de aparecer apenas uma linha vermelha no mostrador, o resultado é negativo. Se duas linhas surgirem, o resultado é positivo para a presença do vírus. Neste caso o exame é feito novamente para que haja confirmação do resultado. É aconselhável que esse tipo de teste não seja feito de forma indiscriminada e a todo o momento, mas sim quando houver comportamento de risco, como relação sexual sem preservativo.
Atualmente outros tipos de testes rápidos estão sendo comercializados em farmácias e drogarias. Alguns deles conseguem identificar o HIV através de fluidos orais.

A DESCOBERTA

Considerada a epidemia do século XX, a AIDS causou impacto e comoção mundial desde o início dos anos 1980

As décadas de 1960 e 1970 foram, com certeza, determinantes para uma verdadeira reestruturação das relações sociais e do comportamento humano, promovendo a liberdade de expressão, maior igualdade entre os sexos masculino e feminino, como também um significativo impacto político. Todas essas mudaram se deram devido a revolução sexual, que transformou o mundo e desconstruiu inúmeros tabus.
O pontapé inicial para esse novo momento foi a criação da pílula anticoncepcional, aprovada nos EUA em 1960. O medicamento surgiu a partir do momento em que uma enfermeira e ativista pelos direitos das mulheres, chamada Margaret Sanger, se uniu ao cientista Gregory Pincus e ao ginecologista e obstetra John Rock; para criar um medicamento contraceptivo e, com isso, reduzir os índices de gravidez não-planejadas.
Financiada pela bióloga e também feminista Katharine McCormick, a pílula logo se popularizou, servindo para dar início a uma verdadeira emancipação feminina, onde mulheres de todo mundo pode- riam ter o controle de sua maternidade, o que as levaria a concorrer de igual para igual com os homens no mercado de trabalho.


Quando foi descoberta, a Aids era comumente associada homossexualidade. Foto: Reprodução. 

Nos anos 1970, outro acontecimento importante para a revolução sexual fora a popularização do movimento Hippie entre a juventude da época. Com uma filosofia inovadora que pregava a liberdade, a paz e o amor, os hippies eram conhecidos pelo desprezo a qualquer paradigma ou regra impostos pelo conservadorismo, rompendo completamente com as amarras morais tradicionais que ditavam as regras de comportamento sexual na sociedade até então.
Também nesses 20 anos, o movimento gay ganhou força tendo um crescimento consideravelmente expressivo. Os homossexuais começaram a “sair do armário”, ganharam voz, vez, foram às ruas e tiveram inúmeras conquistas de direitos. O movimento ganhou uma força tão grande que foi capaz de influenciar diretamente na contracultura da época e desenvolveu inclusive uma subcultura
Todos esses fatores fizeram com que homens e mulheres tivessem uma vida sexual mais ativa e com um número de parceiros maior. Uma gravidez indesejada não era mais uma questão para se preocupar. Não haviam mais impedimentos morais para a prática sexual única e exclusivamente por prazer. Com isso, o mundo vivia em um momento de libertação sexual como nunca antes visto.
A partir da intensificação do sexo, além do crescimento do consumo de drogas injetáveis, momento em que os usuários compartilhavam entre si a mesma seringa durante o uso das substâncias, a sociedade estava extremamente vulnerável e suscetível para o que viria a acontecer em meados dos anos 1980 e que marcaria para sempre a humanidade.
No início da década, mais precisamente em 1981, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos registrou os primeiros casos de uma infecção no sistema imunológico até então desconhecida. Rapidamente a ameaça desconhecida começou a se alastrar por todo o país, começando a se tornar uma verdadeira epidemia.
Devido os primeiros casos serem registrados entre homossexuais do sexo masculino, criou-se um forte preconceito e estigmatização em relação ao grupo, o que levou a uma direta associação entre eles e a doença. Em alguns lugares do mundo, gays eram atacados pela população, que os culpavam pelo surgimento e propagação do vírus.

A partir do momento em que a AIDS começou a ganhar status de epidemia, inúmeros estudos começaram a ser feitos buscando desenvolver medicamentos capazes de conter os efeitos de vírus no organismo (reprodução) 

Comumente a doença era chamada de Câncer Gay e GRID (sigla em inglês para "Imunodeficiência Relacionada aos Gays"). Após a notificação dos primeiros casos entre mulheres e heterossexuais, a infecção foi batizada provisoriamente de “Doença dos 5 H”, associando-a a partir de então não apenas aos gays, como também aos hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e prostitutas (hookersem inglês), grupos até então mais atingidos pela enfermidade.
Um ano depois, a doença recebeu o nome definitivo de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Após inúmeros estudos, em 1983, os pesquisadores Luc Montagnier e Robert Gallo identificaramo retrovírus chamado HIV (sigla em inglês para o Vírus da Imunodeficiência Humana) como causador da AIDS.
A essa altura, a doença, que já alcançava o status de epidemia mundial, atingira homens e mulheres de todas as classes sociais e orientações sexuais.
O mundo, que há alguns anos havia se tornado um cenário de esperança devido a inúmeras conquistas e avanços sociais jamais imaginados anteriormente passou a se tornar palco de um terrível momento de terror generalizado. O número de mortos e a rapidez com que os pacientes diagnosticados com a síndrome chegaram a óbito era espantoso.
O tema passou a ganhar mais destaque quando casos entre pessoas públicas começaram a ser divulgados na imprensa em todo mundo. Ícones como o vocalista da banda Queen, Freddy Mercury, e o ator Anthony Perkins, astro do filme “Psicose” (1960) assumiram publicamente serem soropositivos, o que gerem grande repercussão popular e fez com que AIDS e HIV se tornassem assuntos mais abordados pelos meios de comunicação.
           No Brasil, dois dos maiores músicos das décadas de 1980 e 1990, Cazuza e Renato Russo, também revelaram ao público serem portadores do vírus. Sua luta contra a AIDS foi acompanhada por todo o país e o tema ganhou grande destaque em jornais e revistas de circulação nacionais.
            A descoberta da AIDS teve um enorme impacto na sociedade, como também na ciência e na economia. No período de descoberta, muitos estudos voltados a desenvolver medicamentos capazes de tratar a síndrome foram realizados, mas sem muito sucesso. O único remédio disponível no mercado era a zidovudina ou AZT (Azidotimidina) como era conhecido. O medicamento foi inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas nunca chegou a ser comercializado com esta finalidade. A medicação precisava ser tomada doze vezes ao dia e em altas dosagens, o que veio a causar diversos efeitos colaterais como anemia, miocardiopatia e neutropenia.

Cazuza foi capa da polêmica e controversa edição da revista Veja, lembrada até hoje por abordar de forma preconceituosa a luta do cantor contra a AIDS. (Reprodução) 

            O AZT passou então a ser consumido em doses menores e conseguiu ajudar inúmeros portadores do vírus, mas não surtia efeito em outros pacientes, cujos organismos desenvolveram resistência a substância com o decorrer do tratamento.
            Após outra série de estudos, que levaram em consideração a urgência por novos medicamentos, foi aprovado em 1991, o uso de uma nova droga chamada DDI ou Didanosina. No ano seguinte, surgiu o DDC, ou Zalcitabina, que servia como alternativa ao AZT. Mas foi só em 1996 que começaram a ser desenvolvidos os conhecidos coquetéis, que combinavam vários medicamentos.
            Essa combinação de drogas foi apresentada em um Congresso de Retrovírus e Infecções Oportunistas, realizado nos EUA. O coquetel foi testado em 32 voluntários e surtiu efeito positivo em 27 deles (ou 85%), que se tornaram indetectáveis por pelo menos 24 semanas.
            A medicação incluía, além do AZT, drogas como o Indinavir, conhecido como inibidores de protease, e o 3TC, que assim como o AZT é da classe de medicamentos que inibem a trancriptase reversa, uma enzima fundamental para a reprodução do HIV.
            Foi a partir deste momento que surgiu uma luz no fim do túnel para aqueles que lutavam contra o vírus. A sobrevida de pessoas que viviam com o HIV começou a aumentar, e em contrapartida os índices de óbito caíram significativamente.
            O aperfeiçoamento desses medicamentos antirretrovirais aliado a intensas políticas públicas de conscientização, prevenção e incentivo ao tratamento dos que já possuíam o vírus, conseguiu diminuir de forma significativa o número de infectados pelo HIV e de mortes em decorrência da doença no Brasil e em todo o mundo.

NOVAS ALTERNATIVAS DE PREVENÇÃO


Conheça as mais novas formas de prevenir a infecção por HIV já disponíveis no Brasil

Desde que foi descoberta a transmissão do HIV via relação sexual, a camisinha tem sido indicada como a forma mais eficaz de prevenção contra o vírus. Campanhas publicitárias reforçam a importância do uso do preservativo ano após ano, mas, ainda assim, há uma grande parcela da população que não o utiliza.
            A camisinha, também apontada como um dos métodos mais populares para se prevenir uma gravidez indesejada e outras doenças sexualmente transmissíveis, acaba não sendo utilizada por uma parcela considerável da população.
            Segundo levantamento feito em 2012 pela empresa especializada em pesquisa, Gentis Panel, que entrevistou mais de 2 mil pessoas de todas as regiões do Brasil, 52% dos brasileiros nunca ou raramente usam preservativos e 10% só a utilizam às vezes.

Foto: Reprodução. 
                 Apenas 37% dos entrevistados se protegem sempre ou frequentemente.
            A despeito disso, de acordo com dados divulgados em 2017 pelo Ministério da Saúde, mais de 95% da população sabe que a camisinha é a maneira mais eficaz de evitar o HIV.
            Os números são preocupantes, tendo em vista que o índice de pessoas que contraem o vírus HIV no Brasil anualmente ainda é considerado alto. Algumas pessoas alegam que esquecem de usar o preservativo, e outras que ele reduz a sensibilidade do órgão genital e, consequentemente, o prazer no momento da relação sexual.
            Mas há uma boa notícia em relação à prevenção do HIV: atualmente há algumas novas alternativas mais flexíveis e eficazes capazes de proteger contra o vírus.
            Recentemente foram desenvolvidos dois tratamentos com terapias antirretrovirais utilizados na prevenção ao HIV: Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP).
            A PrEP, como é mais conhecida, é uma medida de prevenção realizada antes da exposição ao vírus, capaz de reduzir a probabilidade de a pessoa ser infectada. O medicamento antirretroviral deve ser utilizado se o indivíduo acredita que pode ter alto risco para adquirir o HIV.
            Até então a PrEP é voltada para grupos considerados mais expostos ao contágio do vírus. São eles os gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH); pessoas trans; profissionais do sexo e HIV negativo (pessoa que não é portadora do vírus) que está em um relacionamento com pessoas positivas.
            De acordo com o estudo "Combina!', realizado recentemente em 526 voluntários de cinco capitais brasileiras a PreP demonstrou eficácia de 100%. Durante o período avaliado, nenhum dos indivíduos que fizeram uso da medicação contraíram HIV.
            A PEP, erroneamente conhecida como a pílula do dia seguinte do HIV, é um medicamento indicado para pessoas que possivelmente foram expostas ao vírus em situações como: violência sexual; relação sexual sem o uso de camisinha ou rompimento dela, e também para profissionais de saúde que tiveram contato direto com material biológico ou que se cortaram com agulhas, bisturis e alicates e/ou qualquer outro instrumento perfurocortante. O uso da substância reduz em 90% o risco de contágio.
            Para que seja eficaz, o tratamento com a PEP, considerado uma profilaxia de emergência, deve ser iniciado no máximo após 72 horas da atividade de risco e precisa ser tomada por 28 dias ininterruptos. Apesar de ainda não ser muito popular entre os brasileiros, o medicamento está     disponível de forma gratuita no SUS em todo país desde 2012. É importante reforçar que a utilização da PEP não substitui a camisinha.
            O uso da medicação pode provocar alguns efeitos colaterais no início do tratamento, como náuseas, diarreias, dores de cabeça e amarelamento temporário da pele e dos olhos (icterícia).
            Em Alagoas, os medicamentos estão disponíveis nas Unidades de Pronto Atendimento, nos mini-pronto-socorros e nos pontos de atendimento especializados no tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, que são o Hospital de Doenças Tropicais, Pam Salgadinho e Hospital Universitário (HU).


 A SÍNDROME DO PRECONCEITO



Em meio a tantos avanços em relação ao tratamento e a qualidade de vida de   pessoas com HIV, a discriminação é a maior vilã na luta contra a AIDS

Com a possibilidade de uma vida normal para pessoas com HIV, atualmente o grande vilão da história tem sido o preconceito e o estigma sofrido por pessoas positivas.
            Uma pessoa magra, debilitada, fragilizada e à beira da morte. É essa a imagem que muitas pessoas têm ainda hoje de alguém que vive com HIV. Por vezes, ser portador do vírus HIV é confundido com estar com AIDS. Termos como “aidético”, “vítima da AIDS” são termos pejorativos que muitas pessoas ainda utilizam para se referir à pessoas positivas.
            De 1981 até os dias atuais, muitos estereótipos e outras formas de discriminação têm feito parte da realidade de pessoas que vivem com HIV. É o caso do músico, que aqui chamarei de André. Portador do vírus desde 2013, o mineiro, que mora em Maceió há alguns anos conta que já sofreu inúmeras formas de preconceito vindas até mesmo de pessoas muito próximas, e até já perdeu várias oportunidades profissionais por ser positivo.
            “Não é fácil conviver com o vírus. Já perdi muitos amigos que se afastaram de mim por conta da minha condição. Hoje me sinto só e estou desempregado por conta do HIV. Ainda hoje não é fácil ser portador do vírus”, desabafou o músico. Apesar de ser um assunto amplamente discutido, histórias como estas são muito comuns entre pessoas vivendo com HIV. Há muitos tabus e preconceitos que ainda são mantidos até hoje em relação ao assunto.
            A forma de transmissão, o tratamento, a vida e os relacionamentos com pessoas portadoras do vírus são alguns dos pontos que ainda geram muitas dúvidas entre a população em geral, o que, consequentemente, fortalece o preconceito.
            Por receio da reação das pessoas de seu convívio, muitas pessoas preferem esconder de familiares e entes queridos que vivem   com    o   vírus.         Segundo       a UNAIDS, pesquisas afirmam que o estigma e a discriminação têm prejudicado os esforços no enfrentamento à epidemia do HIV. É por medo que muitas pessoas não se informam, não fazem  o teste rápido nem procuram tratamento quando se descobrem    soropositivos.
            De acordo com o médico infectologista Dr. Fernando Maia, pessoas com HIV podem viver uma vida normal, se relacionar sem transmitir o HIV e até terem filhos não portadores do vírus. “Se uma pessoa positiva fizer uso regular da medicação antirretroviral, o risco de transmissão do vírus é praticamente nulo. O(a) parceiro(a) não corre risco de contrair HIV” afirmou o médico sobre um dos grandes mitos em relação ao vírus.
            Sobre a gravidez quando a mãe ou ambos os pais são soropositivos, o médico explica: “Se a mãe [ou os pais, no caso de casais soropositivos] tiverem carga viral indetectável não há risco de a criança nascer com o vírus. Mas como em qualquer outra gravidez, é preciso de acompanhamento pré-natal”.
Professor de sociologia e cientista social Francisco Alberto. Foto: Fernando Lima

            Um dos maiores tabus em relação à AIDS e ao HIV que permanece desde que a doença e ao vírus foram descobertos é o de que os gays são os responsáveis pela transmissão e propagação do vírus, como explica o professor e cientista social Francisco Alberto: “Com tantos avanços medicinais em relação à sobrevivência da população com HIV, o preconceito continua associando AIDS e HIV à homossexualidade. Diga-se de passagem, essa associação é LGBTfobia das mais arcaicas. Que apesar de não ter fundamento, ainda é um estigma vivido por muito ainda hoje. ”
            De acordo com o sociólogo, é necessário que a população seja instruída a respeito do assunto para evitar o preconceito. “A meu ver ampliar as políticas públicas de saúde e travar um combate constante, por meios educativos ao preconceito”, concluiu ele.

SUPERANDO A AIDS

Conheça a história de Helena Soares, que conseguiu superar a perda e hoje faz diferença na vida de centenas de pessoas que   vivem com HIV

Em algum momento, você já se questionou como seria a vida se alguém que você amasse muito morresse? Provavelmente você já se perguntou isso inúmeras vezes e ao imaginar como seria seguir adiante longe das pessoas que considera imprescindíveis na minha vida, possivelmente foi tomado pelo medo e pela incerteza de como seria viver com essa ausência. Mesmo sabendo que a morte é uma das únicas certezas de nossa existência, a ideia de nunca mais ver alguém que se ama é completamente insuportável para qualquer ser humano.
            Mas como seguir a vida quando esse medo se torna realidade e somos surpreendidos pela morte de alguém muito próximo? Perder quem se ama e lutar para seguir adiante a partir de então é realidade na vida de milhões de pessoas que perderam quem tanto amavam em decorrência da AIDS. Desde 1981, ano em que os primeiros casos da doença foram registrados, até os dias de hoje foram cerca de 35 milhões de pessoas que vieram a óbito por conta da síndrome, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, divulgados em novembro 2017.
            A síndrome, considerada a epidemia do século XX, foi responsável por deixar milhões de filhos órfãos, separar casais, tirar violentamente filhos de seus pais e a dar fim a amizades de longa data. Não deve ser tarefa fácil lidar com essa dor. As pessoas não reagem da mesma forma diante de um momento de sofrimento como este, como também demoram períodos diferentes para superá-lo. Aos que ficaram, só restou a dura tarefa de dar um novo rumo a suas vidas, recomeçar.
            Quando surgiu a oportunidade de conversar com Helena Soares, coordenadora da Casa de Passagem Conviver, que assiste pessoas com HIV em Alagoas, a intenção era conhecer um pouco sobre esse trabalho tão importante na vida de tantos HIV positivos no estado, mas no decorrer da conversa ela revelou que existe uma história dolorida por trás desta mulher forte e determinada.
            Ao contar sobre o início da instituição em 1992, momento de auge da epidemia não só em Alagoas como também em todo mundo, Helena surpreendentemente revelou que uma das principais motivações para o início das atividades da ONG foi uma perda pessoal que havia tido. Ela perdeu sua irmã e também seu cunhado, vítimas da doença no final dos anos 1980.
            O cunhado foi diagnosticado com AIDS três dias antes de sua morte, o que deixou ela e toda sua família extremamente abaladas. Algum tempo depois, quando ela ainda não havia se recuperado de sua primeira perda, foi surpreendida pela morte de sua irmã. Além de perder duas pessoas tão queridas, ela se viu na responsabilidade de cuidar dos dois sobrinhos, filhos do casal.


Helena Soares superou a perda da irmã e do cunhado e hoje ajuda pessoas portadoras do vírus HIV. Foto: Fernando Lima.

            Em um momento de muita dor e sofrimento, Helena percebeu que a única decisão que poderia tomar seria seguir adiante. Sensibilizada com a falta de apoio a pessoas com HIV, que eram hostilizadas e marginalizadas pela sociedade e pela saúde pública da época, a gestora escolar, que acompanhou de perto o descaso vivido por portadores do vírus durante o tratamento da irmã e do cunhado, decidiu contribuir para garantir suporte a esses pacientes. Foi assim que nasceu a Casa de Passagem Conviver.
A casa de passagem Conviver foi criada a quase 30 anos e assiste atualmente centenas de alagoanos provenientes de todo o estado.  Foto: Fernando lima. 

            A ONG promove acompanhamento social e psicológico para HIV positivos de baixa renda, residentes em diversos municípios do estado durante sua passagem pela capital para realização do tratamento. Além disso, lá também são realizadas inúmeras atividades, como palestras e festejos de datas comemorativas, tudo isso buscando promover a interação e, como o nome da instituição já sugere, a convivência entre os indivíduos assistidos.
            A casa, que este ano completa 26 anos ininterruptos de atuação no estado de Alagoas e assiste 250 pessoas, funciona com trabalho 100% voluntário. Apesar dos desafios enfrentados para se manter, já que a instituição não conta com apoio financeiro do governo estadual ou da prefeitura e, também, devido ao número de parcerias que diminuiu como o passar dos anos, a ONG consegue se manter firme e executa bem o seu papel social na vida dessas centenas de pessoas.
             A paixão de Helena pelo trabalho que tem realizado ao longo de todo este tempo é perceptível em cada palavra que ela fala no decorrer da nossa conversa. Ela é peça fundamental para que a Conviver se mantenha de pé durante esses quase 30 anos. De acordo com suas próprias palavras ela tem dedicado seu tempo e sua vida a esta causa.
             No final das contas, a incansável Helena é dona de uma história inspiradora de alguém que conseguiu superar sua dor e transformar suas feridas em cura para pessoas que já sofreram tanto por conta do preconceito e do estigma. Ela dá a essas pessoas o auxílio que sua irmã e seu cunhado não puderam ter.
Ela é um exemplo de coragem e perseverança. Mesmo sem o apoio de seus parceiros que iniciaram os trabalhos da ONG ao seu lado, Helena permaneceu na sua luta em prol da causa.
             Helena conta com orgulho e sem nenhum arrependimento que abdicou de muitas coisas, inclusive de sua vida social para se dedicar a essa causa. Ela explica que os pacientes assistidos pela casa e os voluntários que trabalham lá é que são seus amigos mais próximos atualmente.

      Ela dá uma lição a todos de que não se pode entregar-se às adversidades que surgem na vida, mas sim seguir vivendo e lutando, fazendo a diferença e tentando tirar lições preciosas da própria dor.