4 de jun. de 2018

A nova geração de cineastas e os desafios do audiovisual alagoano

Realizadores têm garantido uma difusão significativa das produções, mesmo com a política desestruturada e descontinuada


Por Maykson Douglas


O mesmo cinema alagoano que deu seus passos iniciais com a ajuda de Guilherme Rogato, italiano que veio para o Brasil, também possui em sua história nomes como o do premiado cineasta Celso Brandão. A cultura audiovisual, mesmo com a ausência de políticas de incentivos à produção, resistiu ao tempo e tem se destacado no cenário nacional. Produções realizadas por jovens alagoanos têm cada vez mais sido selecionadas para mostras e festivais em todo o país. Por outro lado, em seu berço, quem pretende viver da sétima arte enfrenta problemas com a falta de políticas de fomento.
Alagoas não tem a cultura cinematográfica de contar sua história, diferente de outros estados da federação. Pernambuco, por exemplo, em 2014, conseguiu aprovar a lei que disciplina a promoção, o fomento e o incentivo ao audiovisual no âmbito do estadual e criou o Conselho Consultivo. A sanção da lei possibilita que anualmente seja investido o montante mínimo de R$ 33,5 milhões, para destinação ao Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), sendo R$ 11,5 milhões para o audiovisual, e R$ 22 milhões para as demais linguagens. No caso do estado vizinho, o Funcultura beneficia toda a cadeia produtiva, democratizando a participação projetos de diretores consagrados e também de iniciantes.
Por aqui, como não existe uma política específica para o setor, inviabiliza que sejam desempenhadas ações que beneficiem todo o segmento, incentivando projetos de realizadores, espaços de pesquisa, formação e difusão, além da criação de produtos. Como cinema historicamente foi uma arte cara, a contrapartida governamental faz-se imprescindível, já que a maioria dos realizadores não têm recursos para a produção independente.
Conforme explica Larissa Lisboa, analista de audiovisual do Serviço Social do Comércio (Sesc) “os hiatos [lacunas] entre as edições dos editais de incentivo realizados pela Prefeitura de Maceió e pelo Governo de Alagoas, resultam em filmes não realizados, e os recorrentes atrasos nos pagamentos, inferem em prejuízos incomensuráveis aos que tiveram projetos aprovados e ficaram sem poder cumprir o planejamento previsto. A realização sistemática de editais de incentivo ao audiovisual alagoano não é uma realidade, o que imprime retrocessos e interrompe a fluidez do setor” pontua. “A edição do edital do estado de 2015 foi cancelada em 2016, reformulado e lançado ainda no mesmo ano, o qual só teve o processo de repasse dos recursos iniciado no final de 2017. E o último edital da Prefeitura de Maceió foi realizado em 2015” ressaltou a analista.

Para o Superintendente de Assuntos Culturais da Secretaria de Estado da Cultura, Paulo Poeta, o cinema e outras artes [teatro e dança] ainda não alcançaram a profissionalização. “Ninguém consegue viver só dessas atividades profissionalmente em Alagoas ainda, é muito incipiente e não foram feitas políticas ao longo do tempo que estimulassem e que tivessem continuidade. Em tempo, estamos tentando corrigir isso e deixar alguns eventos que são perenes. Estamos preparando editais com mais recursos e em constante diálogo com o Fundo Setorial do Audiovisual e, a partir daí é que nós vamos conseguir deslanchar com o audiovisual” explica.

Jovens realizadores

Dário Júnior, realizador maceioense, conta que o despertar de sua paixão pelo cinema veio ainda em 2012, quando estudava comunicação na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Sua primeira realização, o filme Wonderfull - meu eu em mim, produzido por meio de edital da prefeitura de Maceió, foi premiado na sétima edição da Mostra Sururu de Cinema Alagoano. O documentário que conta a história de uma mulher transexual também foi selecionado em festivais e mostras dos estados de Pernambuco e Bahia. Em suas participações em mostras ele fala da cena do audiovisual em outras unidades federativas. “É notória a discrepância entre Alagoas e outros estados, não dá nem para comparar. Em Alagoas ainda faltam algumas coisas para melhorar, se ao menos tivéssemos a Lei de Incentivo à Cultura, mas nem isso temos ainda.”, expôs o realizador.


Dário Junior na gravação de Wonderful - meu eu em mim. Foto: Itawi Albuquerque.


Dário não é o único que teve uma realização exibida fora do estado, entre janeiro e abril de 2018, filmes alagoanos foram selecionados para a 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), 3º Cine Paraíso (PB), II Mostra Itinerante Livre de Cinema: "Milc - Por Outras Fortalezas" (CE), 11º Curta Taquary – 2018 (PE), Festival Mimoso de Cinema (BA), II Festival de Cinema do Paranoá (DF), 2ª Mostra de Cinema Contemporâneo do Nordeste (BA) e 6º FestCine - Curta Pinhais (PR).
Também ex aluna do curso de comunicação da Ufal, Maysa Reis, começou a se interessar por cinema ainda na graduação. “Fui convidada por um professor para participar de um projeto de extensão que era um laboratório de curtas metragens. Na época eu pagava a disciplina de fundamentos do cinema e, foi aí que eu vi, quando eu mergulhei dentro do universo de pesquisa e de fazer cinema, me apaixonei naquele momento, depois disso decidi que toda minha formação, toda minha vida de alguma forma estaria ligada ao cinema. A partir de então, todas as minhas pesquisas, toda a minha formação foi voltada para o audiovisual”, relembra.

Maysa Reis, ex-aluna do curso de comunicação social da UFAL. Foto: Itawi Albuquerque. 

A jovem cineasta atualmente está matriculada no Programa de Pós-Graduação em Cinema da Universidade Federal de Sergipe. Para Maysa, “a especialização é importante porque em Alagoas não temos formação nenhuma em audiovisual, então as pessoas que estão fazendo cinema em Alagoas são autodidatas e são pessoas que estão aprendendo com a experiência, isso é ótimo. Mas eu acredito na educação como fonte de desenvolvimento, então eu quero aprender, construir e estudar para chegar no meu estado e construir pelo viés da educação também. Ensinar pessoas a fazer cinema, a pensar cinema e fazer disso a minha vida, esse é meu sonho”, pontua.
As produções recentes comprovam que mesmo com a política desestruturada e descontinuada, a resistência de realizadores, tem garantido uma difusão significativa das produções. Ultimamente tem se notado com frequência a inserção de filmes alagoanos em mostras e festivais e, apesar de todo o cenário desfavorável à produção audiovisual, jovens realizadores têm ido contra a corrente e fortalecido a produção cinematografia local.