30 de mai de 2018

Quadrilhas Juninas: a busca pela preservação da cultura nordestina

Grupos se articulam para a permanência cultural com auxílio da população


Por Cairo Martins, Carolina Amorim e Thaís Lins


Foto: ilustração.


As típicas festas juninas estão entre as expressões culturais brasileiras mais populares e marcantes, e em junho as manifestações, como as quadrilhas, ganham as ruas do país, o que se intensifica, principalmente, no Nordeste. As festividades abrilhantam o tipicamente conhecido, mês junino, com as danças coletivas que misturam cores, estilos e alegria, que levam traços de uma cultura popular muito forte.

Em Alagoas, essa expressividade não poderia ser diferente. “Com o término de mais um São João, as quadrilhas do estado já começam a pensar nos preparativos da próxima festividade junina”, garante Erivaldo Martins, também conhecido como “Mosca”, presidente da Liga de Quadrilhas Juninas de Alagoas (Liqal).

De acordo com Erivaldo, em Alagoas, são 43 grupos de quadrilhas que se apresentam anualmente em competições e apresentações dentro e fora do Estado. Das 43 quadrilhas, 20 são consideradas especiais, de primeira divisão, e 23 fazem parte do grupo de acesso, segunda divisão. Das 43 quadrilhas, 13 são maceioenses.

Atualmente, a maioria dos grupos residentes na capital produzem suas apresentações a partir do modelo “estilizado”. “Desde 1992, as quadrilhas aqui no estado passaram a utilizar esse modelo. Antes elas se apresentavam da forma tradicional, mas depois foram criando mais movimento, temáticas e aderiram a essa tendência”, explica Erivaldo. Antes deste novo formato, as quadrilhas, eram menos performáticas e conhecidas como quadrilha matuta.

Ele ainda afirma que o movimento de quadrilha estilizada ganhou mais força na capital do que nos interiores, tendo em vista que as quadrilhas, fora da capital, não recebem tanto apoio financeiro para criarem grandes espetáculos. “Mesmo com o pouco recurso que recebem no interior o financiamento é ainda muito limitado. Muitas quadrilhas, investem no pagamento de dançarinos e, com isso, não acaba sobrando recursos para outras implementações”, detalhou.


Dificuldades

De acordo com o “Mosca”, o investimento nas quadrilhas juninas do estado ainda é muito limitado e todos os anos as quadrilhas enfrentam dificuldades para adquirir verba necessária para o preparo do festejo. “Desde 2015, a situação melhorou um pouco por parte do Poder Público, mas, ainda assim, a quantia que recebemos não paga todos os nossos gastos. Sem contar que, quando recebemos a verba pública, já se passaram muitos meses. E quando alguma quadrilha é convidada a participar dos festejos de outro Estado, a situação se complica mais ainda porque muitas não têm de onde tirar o recurso para viajar com o grupo”, contou.

Para Emerson Davis, presidente-fundador do Cultura.AL, “apesar do pouco incentivo dos governantes, ainda existe um movimento muito forte e teimoso que insiste em resistir na produção de espetáculos sem fins lucrativos, mesmo com todas as dificuldades em manter essas culturas. As quadrilhas, o bumba meu boi, o coco de roda, as fanfarras, os fandangos, os maracatus entre tantos outros, usam todas as forças para a cultura não acabar e para perdurar a história desses movimentos dentro de seus bairros e localidades”.

Emerson Davis (no meio) e Lavínia Burtner, drag queem, integrante da equipe do Cultura.AL
Foto: Rosilvado Silva

Financiamento

Erivaldo conta que como medida alternativa, alguns grupos de quadrilha realizam eventos durante o ano para arrecadar recursos para os festejos juninos. “Algumas delas realizam shows, churrascos, bingos e entre outras atividades para manter a tradição das apresentações”, frisou. E complementa: “Outras até conseguem patrocínio de políticos ou outras personalidades da sociedade”.

Outra medida adotada para que as apresentações se tornem possíveis de acontecer, segundo Erivaldo, é a responsabilidade dada a cada dançarino da quadrilha para custear suas fantasias. Cada fantasia, de acordo com o presidente da Liga das Quadrilhas, custa cerca de R$ 2 mil e devem ser confeccionadas aos moldes do tema escolhido pelo grupo junino. “Geralmente, as quadrilhas contratam os serviços da mesma costureira para confeccionar as fantasias dos dançarinos”, afirmou.

Para aqueles dançarinos que desejam economizar, Erivaldo revelou que a medida adotada por eles é realizar a customização do acabamento no momento em que a fantasia já tomou forma através das costureiras. E, além dessas medidas, para garantir ainda mais economia, que a maioria dos quadrilheiros compra os materiais necessários para a confecção de fantasias e acessórios em outros estados como Ceará, Pernambuco e Sergipe.

“Aqui em Alagoas as coisas que precisamos para realização das quadrilhas são muito caras. Nós precisamos nos deslocar para que a festa seja realizada. Às vezes sai mais barato a gente pagar uma passagem de avião e ir comprar em outro estado, do que realizar as compras somente aqui”, desabafou. Além das fantasias, os gastos das quadrilhas envolvem a banda que cada quadrilha contrata, o transporte para que o grupo possa ir aos locais de apresentação e, para a Liqal, os gastos que envolvem a estrutura de alguns pavilhões para as apresentações.

Festejo

As apresentações em Maceió serão realizadas no bairro do Jaraguá, na sede do Serviço do Comércio (Sesc) na unidade do bairro do Poço, no Shopping Pátio (Benedito Bentes) e na região metropolitana da capital, em Rio Largo. “Durante as apresentações, as quadrilhas serão analisadas por um corpo de jurados e entre os critérios do júri serão analisados coreografia, figurino, originalidade, casamento, marcação e, dentro desses critérios, há as questões mais específicas a cada um dos critérios citados”, explicou Erivaldo.

Ainda de acordo com “Mosca”, com o término das avaliações, os cinco grupos de quadrilhas melhor pontuados, disputam uma vaga para representar Alagoas no concurso Forró & Folia, organizado pela Rede Globo Nordeste. No ano passado, a quadrilha Santa Fé, uma quadrilha alagoana, venceu o concurso ao disputar com outros grupos de quadrilha da região Nordeste. Até meados de agosto, algumas quadrilhas do estado se apresentam nos concursos Nordestão e Brasileiro. O canal do Youtube Cultura.AL transmite todos os eventos culturais, além de acompanhar os grupos para apresentações fora de Alagoas.



Junina Santa Fé ganha em 1º lugar o concurso Forro & Folia da TV Gazeta 2017, com o tema, 300 anos de Fé na Santa. Imagens: Cultura.AL


Preparativos

O presidente da Liqal também é líder do grupo de quadrilha Flor de Chita. O grupo é originário do bairro Eustáquio Gomes, em Maceió e é composto por 60 integrantes. O tema que o grupo representará esse ano será sobre a escravidão e, para que todos os integrantes pudessem aprender os passos do espetáculo, foi necessária a realização de um pedido para que o grupo ensaiasse nos pátios das escolas públicas. De acordo com Erivaldo, os ensaios em escolas são comuns na maioria dos grupos de quadrilhas juninas. “Apenas um ou dois grupos de quadrilhas possuem sede própria, a maioria realiza os ensaios em escolas”, afirmou.


Junina Flor de Chita 2017, no Concurso de Rio Largo – AL
Imagem: Cultura.AL


A quadrilha Luar do Sertão, originária do bairro Prado, também em Maceió, revelou estar prestes a finalizar os preparativos para o festejo deste ano. A quadrilha foi fundada em 1987 e foi a campeã alagoana de quadrilhas juninas do ano passado com o tema “Sob a Luz do Luar”.

Segundo José Claudio Menezes, fundador da Junina Luar do Sertão, a finalização dos preparativos da quadrilha deve ocorrer no começo de junho. Este ano, 92 integrantes se apresentarão sob o tema “Isso é Lá com Santo Antônio”. Ele também revelou que os ensaios da Luar do Sertão são feitos em escolas, e que nesse período de aproximação do São João, todos os finais de semana têm preparação.


Luar do Sertão se apresentando em uma das etapas do alagoano
Foto: Cleverton Pedro

“Às vezes é difícil reunir todo o pessoal porque muitos não querem perder os finais de semana. Mas nós fazemos um trabalho de convencimento e eles acabam compreendendo que o final de semana é o melhor período, já que a maioria trabalha e estuda durante a semana”, revelou.

José Claudio enfatiza o depoimento de “Mosca”, afirmando que a Luar do Sertão também utiliza de eventos como arrecadação de fundos para as apresentações durante os festejos. “Sem os eventos realizados, a apresentação dos espetáculos torna-se ainda mais difícil do que a dificuldade que já enfrentam” relata o presidente da Luar do Sertão.


Luar do Sertão na Final do Campeonato Alagoano de Quadrilhas Juninas 2017, com o tema Sob a Luz do Luar. Imagens: da Internet.


Incentivo à Cultura

Em março deste ano, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) divulgou edital de incentivo às apresentações das quadrilhas juninas de Alagoas. O valor disponibilizado pelo Órgão foi de R$ 120 mil voltados a organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, que fossem representantes de quadrilhas juninas alagoanas.

Segundo a Secult, a parceria em contrapartida, exige que o vencedor do edital realize apresentação gratuita à toda a sociedade, com acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

A Fundação Municipal de Ação Cultural (Fmac), em consonância com a Secult, pensando no incentivo da cultura no Estado, lançou duas chamadas públicas destinadas, no valor de R$ 300 mil, voltado à programação do São João 2018, nos bairros da capital. Os editais têm a finalidade de selecionar 50 artistas musicais, entre bandas e trios de forró, para os festejos que acontecerão nas comunidades.

De acordo a Fmac, serão selecionados 12 bandas e 30 trios de forró para compor o Arraial Pé de Serra, além de seis bandas de rock para o Forrock. Os trios nordestinos receberão R$ 3 mil, as bandas de forró R$ 8 mil, e as de Rock R$ 5 mil.

Cada bairro selecionado pelo o edital destinado aos Arraiais dos Bairros receberá quantia no valor de R$ 6 mil, que servirá para montagem do palco ou palhoção, decoração, iluminação e preparação dos festejos juninos, sendo que 20% do valor do recurso deverão ser para a contratação de um trio de música nordestina.

Segundo o diretor de Políticas Públicas da Fmac, Marcos Sampaio, “a iniciativa reforça o compromisso do Poder Público Municipal com a valorização e disseminação dessa manifestação cultural e manutenção das tradições juninas”. Além de contribuir com a estrutura do concurso de quadrilhas que ocorrerá durante os festejos juninos, a Fundação destinou recurso para fomentar as apresentações dos grupos culturais.

Este ano as festividades juninas em Maceió vêm com o tema “São João é Praia, Festa e Forró”, e trará além dos Arraias Central, Pé de Serra e o Forrock, o bairro histórico de Jaraguá terá Vila Cenográfica e Pavilhão de Quadrilhas. As festividades se estendem também para os Mercados da Produção e do Artesanato.

Para Emerson Davis, os movimentos culturais estão vivos, existe um grande público interessado, mas ainda assim, é preciso de apoio financeiro para que sejam melhor elaborados e apresentados ao público. “Vale salientar, que muitos deles que são formados em bairros mais humildes, tiram vários jovens da ociosidade e de situações de risco, o que acaba por partir para a fronteira de outros interesses da própria comunidade onde estão inseridos, expôs o criador do Cultura.AL.

Quadrilhas de Alagoas

As quadrilhas alagoanas são representadas pelo grupos: A fazendinha – Tabuleiro do Martins, Alegria da Noite – Santa Lúcia, Amanhecer no Sertão – Benedito Bentes II, Amor da Juventude – Murici, Amor Junino – Vergel do Lago, Amor Nordestino – Satuba, Arrasta Pé – Igaci, Balancear – Barra de Santo Antônio, Balanço do Matuto – Massagueira, Banaluar – Arapiraca, Barra Quente – Maragogi, Brilho Lunar – Coqueiro Seco, Chamego Quente – Capela, Chapéu de Couro – Penedo, Chapéu de Palha – Piaçabuçu, Dona Dadá – Pajuçara, Explode Coração – Paripueira, Explosão Nordestina – Barra de São Miguel, Falamansa – Benedito Bentes II, Flor de Chita - Eustáquio Gomes, Flor do Amor – Paripueira, Flor do Camará – Passo de Camaragibe, Flor do Mandacaru – Rio Largo, Flor no Sertão – Marechal Deodoro, Forró Baião – Vergel do Lago, Gibão de Couro – Pilar, Gonzagão – Arapiraca, Luar do Nordeste – Messias, Luar do Sertão – Prado, Mistura Junina – Rio Largo, Paixão Moderna – Ouro Branco, Parys Junina – Paripueira, Pé de Serra – Bebedouro, Princesa do Norte – Matriz do Camaragibe, Raízes do Nordeste – Benedito Bentes II, Remelexo – Penedo, Roda de Fogo – Murici, Rosa dos Ventos Alagoana – Feitosa, Santa Fé – Trapiche da Barra, Xamego Show – Pilar, Xique-Xique – Jacintinho, Xodó Alagoano – Anadia, Xodó e Xamego – Rio Largo.

Origem das Quadrilhas Juninas

As populares juninas já foram associadas a nobreza e, de acordo com pesquisadores, a quadrilha surgiu no século XVIII, na França. Em Paris, ocorriam danças coletivas, formadas geralmente por quatro casais, que tinham o nome de quadrille. As festas eram realizadas em palácios e apenas membros da aristocracia francesa participavam.

No Brasil, a dança chegou em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, e assim como no seu país de origem, foi comum entre as classes sociais mais ricas da sociedade carioca. Somente no final do século XIX a festa dos ricos se popularizou e tornou comum entre as camadas populares, ganhando uma nova aparência.

Os trajes que esbanjava riqueza, com tecidos finos, ganharam vestimentas mais simples e baratas, com estampas em xadrez. As sofisticadas valsas deram lugar a uma dança mais despojada, sendo substituídas pelo forró. Com a popularização, a festividade ganhou traços mais divertidos e descontraídos, agregando elementos tradicionais da vida no campo.

No século XX, as quadrilhas se expandiram por várias regiões do Brasil, tanto no interior quanto nas capitais, mas em cada localidade ela assumiu aspectos específicos da cultura típica da cidade ou estado, tendo uma carga cultural mais forte no Nordeste. A beleza deste folguedo está justamente na diversidade que enchem a dança de cores, músicas e ricos elementos culturais.

Embora as quadrilhas sejam festejadas em todo território brasileiro, na região Nordeste as festividades ganham maior notoriedade. O mês de junho é marcado pelas fogueiras, que servem como centro para a famosa dança junina, também foram incorporadas aos fogos de artifício e comidas típicas da região. Além disso, os festejos juninos são associados a religiosidade católica, dedicados aos três santos: São João, São Pedro e Santo Antônio.

Os nordestinos deram um toque de carisma e alegria as quadrilhas juninas, e expandiram as festas de São João, movimentando a economia local, pois muitos turistas visitam cidades do Nordeste para acompanhar os festejos. Embora a maioria dos visitantes seja brasileiros, é muito comum encontrar estrangeiros acompanhando as festas.

Embaladas por músicas instrumentais típicas do interior, a folia é caracterizada por casais vestidos com roupas e acessórios caipiras. É geralmente dirigida por um marcador, que narra a história, faz brincadeiras e conduz o espetáculo. Atualmente as juninas, como são carinhosamente chamadas, esbanjam modernidade e protagonizam competições para esquentar a festança.