14 de mai de 2018

Indústrias Prestes a se Instalarem no Interior de Alagoas Podem Causar Danos Ambientais

Por: César Oliveira, José Moraes Júnior, Henrique Interaminense e Smack Neto.


Fábrica de Portobello instalada em 2015 no Polo Industrial Aprígio Vilela em Marechal Deodoro.
Foto: Agência Alagoas

As indústrias ceramistas possuem a má fama de impactarem fortemente o meio ambiente. Os problemas relacionados à atividade vão da poluição de mananciais aquíferos às doenças respiratórias. Tudo relacionado à extração e ao manuseio da argila, que é usada na fabricação dos produtos.

Há muitos estudos sobre o assunto. Mas, apesar da unânime constatação sobre os impactos ambientais que o setor ocasiona, as conclusões são um tanto vagas. É o que diz o artigo “Impactos Ambientais Causados pelas Indústrias de Cerâmica Vermelha no Rio Grande do Sul”. Segundo o PhD em Engenharia, Miguel Aloysio Sattler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), “as referências bibliográficas que estudam os impactos ambientais especificamente para cada material de construção, quase sempre são de origem estrangeira e apresentam uma análise superficial e qualitativa dos impactos, o que dificulta a adaptação de alguns valores de impacto ambiental para a realidade nacional”.

Contudo, os efeitos da indústria ceramista sobre o meio ambiente também são reconhecidos na “Cartilha Ambiental” da Associação Nacional da Indústria de Cerâmica (ANICER). Segundo a publicação, a cartilha foi produzida “não apenas pelo fato da problemática ambiental ser um tema recorrente, mas pela suma importância que tem para que o setor se torne mais responsável diante dos impactos ambientais causados pela sua atividade”.

A Poluição no Maior Polo Ceramista das Américas
Os casos práticos também estão espalhados pelo Brasil. O caso mais emblemático, certamente, é o de Santa Gertudres, cidade localizada no interior do estado de São Paulo. O município possui o maior polo ceramista das Américas, com 29 indústrias. Em 2012, a edição eletrônica do jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre os índices de poluição local.
Segundo a reportagem da Folha, o material particulado (poeira fina) resultante da produção de cerâmicas faz da cidade a segunda em poluição no estado e a quarta no Brasil. “O pó fino acaba se espalhando por todo lugar. Inclusive dentro do nariz, garganta e pulmão das pessoas que vivem ali”, diz a matéria.
O Ministério Público paulista disse na época que investigaria o caso. Entretanto, quatro anos depois, nova matéria do Portal G1 mostrou que os 20 mil habitantes de Santa Gertrudes continuam sofrendo com a qualidade do ar do município. Em notícia, veiculada em abril desse ano, o sítio revela que a cidade foi elevada ao posto de cidade mais poluída do Estado de São Paulo, superando Cubatão e a própria capital paulista, devido “à poeira e a alta concentração de fluoretano”. Os problemas de saúde relatados pelos moradores, especialmente os respiratórios, também permaneceram inalterados.
Mudança de ares
O fato é que, duas das quatro indústrias ceramistas prestes a se instalarem em Alagoas têm sede em Santa Gertudres. A Esmalglass e a Tettogres que até já receberam os terrenos para início das obras nos municípios de Marechal Deodoro e Penedo, respectivamente. Trarão para o território alagoano, os mesmos processos que dão a Santa Gertrudes o quarto lugar entre as cidades mais poluídas do Brasil. Tem apenas um diferencial.
Terreno em Penedo para inicio das obras para industrias ceramistas. Foto: Secretaria de comunicação de Penedo. 

Em Alagoas, as fábricas, além da matéria-prima – a argila, contarão com a fartura de gás natural para o aquecimento dos seus fornos. A medida, por si, reduz drasticamente um dos maiores flagelos dessa forma de exploração econômica, o desmatamento para uso da madeira no processo de queima dos produtos. Uma ação tão danosa ao meio ambiente que é capaz de promover a desertificação de áreas inteiras, como ocorreu no Rio Grande do Norte.
Segundo o estudo realizado pela pesquisadora da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Áurea de Paula Medeiros e Silva, a extração de madeira para alimentar a indústria ceramista da Região do Ceridó tornou o local “a área de maior índice de desertificação do território potiguar”. Os resultados da pesquisa podem ser encontrados no Artigo “Problemas Sócioambientais Causados pelas Indústrias de Cerâmica no Município de Encanto-RN”, publicado na Revista GeoTemas em 2011.
O Secretário de Desenvolvimento, Indústria e Comércio do município de Penedo, Pedro Soares, reconhece a vocação poluente e os impactos ambientais provocados pela indústria ceramista. Porém, contraditoriamente, refuta a ideia de que a atividade pode causar danos à saúde. Para Soares, a rigidez nos estudos para a concessão da licença ambiental é o caminho para reduzir o impacto sobre o meio ambiente.
O curioso, entretanto, é que a Penedogres (nome da futura fábrica da Tettogres em Penedo) já assinou o termo para receber a doação, pela Prefeitura, de uma área de 10 hectares no Distrito Industrial Roberto da Silva Peixoto. A área fica no Povoado Itaporanga, zona rural do município ribeirinho. Isto, antes da realização do Estudo de Impacto Ambiental que será executado pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA), ainda segundo Soares.
Moradores Preferem Pagar para Ver
No povoado onde está localizado o Distrito Industrial, os moradores garantem que ouviram falar sobre a chegada das fábricas. Nada oficial. Ignoram eventuais riscos advindos da instalação das empresas. É o caso do motorista desempregado Jorge de Souza Gomes, 59 anos.
Jorge Souza Gomes, motorista. Foto: Moraes Júnior. 
Ele vive na Itaporanga desde que nasceu. É casado e tem quatro filhos adultos dos quais. Dois deles também estão desempregados. “Eu torço pela chegada das fábricas, pelo menos os meus filhos têm uma chance de conseguir um emprego. Eu não, porque já estou velho. Mas, quem sabe eu boto um negocinho para tirar uns trocados, né”? Declara Gomes.
Na hora de falar sobre os possíveis danos à saúde e ao meio ambiente, o motorista reluta um pouco. Limita-se apenas a dizer: “É. Isso dai a gente tem que esperar para ver”. Dúvida que não atormenta outro motorista também desempregado.
Deitado na rede, Edson Borges, está desempregado. Foto: Moraes Júnior. 
Para Edson Borges, 31, solteiro, a expectativa de ter um emprego supera qualquer risco que as indústrias ceramistas possam acarretar. A lógica é simples! “Nós convivemos aqui com a poluição causada pela queima da cana de açúcar”, diz apontando as plantações que cercam o povoado. “Então, uma poluição a mais ou a menos não faz diferença. Nós queremos é trabalhar”, completa Borges.

Os moradores do povoado são unânimes na expectativa de que os empregos gerados, pela instalação das fábricas no distrito que fica a uns 200m de distância do local, absolva a mão-de-obra de Itaporanga. Entretanto, garantem que, além de não receberam qualquer informação da Prefeitura sobre os projetos, desconhecem a existência de cursos de capacitação voltados para o trabalho na atividade ceramista.
Geração de Emprego com Responsabilidade Social
A estimativa é de que, só a Penedogres, gere 300 empregos diretos. Mas, o desenvolvimento econômico implica, além da geração de empregos e da distribuição de renda, em sustentabilidade. Para além de toda a propaganda oficial, a instalação das indústrias ceramistas em Alagoas requer um amplo debate com a sociedade nas audiências públicas, estudos rigorosos sobre os impactos ambientais que acompanham a atividade industrial desse setor e o custo-benefício para as populações de Penedo e Marechal Deodoro.
Afinal, é a própria Cartilha Ambiental da ANICER que ensina aos seus associados ceramistas que “Quando a empresa se compromete com a Responsabilidade Social, ela tem o propósito de incorporar questões socioambientais em seus processos decisórios e de se responsabilizar pelos impactos da sua atividade nos diversos públicos e no meio ambiente”. Pelos exemplos de Santa Gertrudes, da Região do Ceridó, entre outros espalhados pelo Brasil, vê-se que ainda há um longo caminho a ser percorrido até que as metas da ANICER se tornem realidade.