30 de mai de 2018

Hip-Hop - da discriminação a patrimônio cultural imaterial de Maceió

Por Joyce Marina


      Breakdance, Grafite e Rap, estes são os elementos que compõe a Cultura Hip-Hop, criada na década de 70 por latinos, afro-americanos e jamaicanos. Embora ainda enfrente desafios, o Hip-Hop tem conquistado seu espaço em Maceió. Isto porque uma Lei, de autoria do vereador Silvânio Barbosa (MDB), tornou esta manifestação artística patrimônio cultural imaterial de Maceió.

    “Compete ao Poder Público assegurar e fomentar a cultura Hip-Hop, a realização de suas manifestações próprias, sem quaisquer regras discriminatórias, nem diferentes das que regem outras manifestações da mesma natureza”, disse Silvânio durante audiência pública na Câmara Municipal de Maceió onde apresentou o Projeto de Lei.

     Para o rapper Everton Alexandre, o ‘Nego Zika’, de 27 anos, a criação da Lei é de grande importância e valorização para esta cultura. “Em Maceió, muitos consideram apenas o forró cultura e hoje é diferente. O Rap, a rima já são fortes, ao mesmo tempo estamos fortalecendo isso com eventos, premiações aos artistas que se dedicam a ler e a escrever, porque para escrever as letras, o rapper precisa se informar e isso faz com que o jovem leia e tenha referências. O Rap traz informações e oportunidade de ganhar a vida com arte”, disse Everton. 


Everton Alexandre, o "Nego Zika" e companheiros de Rap durante o Réveillon no Benedito Bentes. Foto: Cortesia



       Além disso, ele acredita que a movimento é uma forma de resgatar a juventude da periferia da situação de vulnerabilidade. “Infelizmente Maceió fica entre as primeiras cidades quando se fala de violência. Eu acredito que isso acontece pela falta de oportunidade do jovem ter um sonho e almejar. Hoje o Hip-Hop tem várias áreas onde o jovem pode se encaixar e ver um meio de ganhar a vida com a arte dele. Atraindo os jovens, nós conseguimos combater a violência”, declarou ‘Nego Zika’.

     O jovem, que nasceu em Maceió, mas atualmente vive em São Paulo, procurou o parlamentar Silvânio Barbosa para propor o Projeto de Lei e organizar o primeiro Réveillon ao som do Rap em Maceió. A festa comemorou a chegada de 2018 e aconteceu no bairro do Benedito Bentes, parte alta da capital. “Tive apoio do vereador, dos MC’s, dos organizadores de batalhas de rimas e foi fundamental para fazer o primeiro evento. Conseguimos organizar a primeira virada de ano, o que nunca aconteceu em Alagoas conseguimos realizar. Todos que participaram do evento viram que daqui para frente vamos ser reconhecidos como artistas e vamos alcançar nossos objetivos também”, afirmou o rapper.




                                         Videoclipe do Nego Zika "A Fé em Deus". Imagens da internet.



     Mas nem tudo são flores. Desde sua criação, lá nos Estados Unidos, o Hip-Hop sofre discriminação por parte da sociedade e, na maioria das vezes, começa dentro da própria casa. “Muitas vezes temos que convencer os nossos pais de que o Rap, o Hip-Hop é do bem, que é possível conseguir vencer na vida e colocar dinheiro em casa honestamente com isso”, lamenta Everton Alexandre. Segundo ele, a discriminação ocorre devido aos temas que são abordados nas rimas. “São assuntos que praticamente outras músicas não abordam como opressão, violência por parte dos militares, abuso de autoridade, sofrimento nas periferias, a desigualdade”, explica ‘Nego Zika’.

      Ao ser questionado sobre a importância da expressão cultural, ‘Nego Zika’ foi enfático: “o Hip-Hop é liberdade de expressão. Com ele é possível falar, expressar o que sente e se sentir livre. O Hip-Hop une pessoas, fazer com que elas reflitam, tenham informações que muitas vezes não recebem na escola; ele faz com que as pessoas sintam o que são e o que querem ser. Nosso objetivo é trazer informação através da música”. “O Rap vem para dar voz aquele que não conseguem falar, mas são representados pelo Hip-Hop”, finaliza o jovem.


EXPRESSÃO LEGÍTIMA


    O diretor de Políticas Culturais da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), Marcos Sampaio, também participou da audiência pública que tratou do Hip-Hop na capital e reconheceu que ainda não há ações voltadas especificamente para o gênero, mas anunciou que “nos colocamos abertos para executar políticas que venham contemplar esses movimentos, que precisam e devem ser ouvidos pelo Poder Público. Devemos trazer a juventude para dentro da arte para que possamos enfrentar essa difícil fase da violência em nossa cidade” disse.

Audiência Pública para debater sobre o Hip-Hop aconteceu no Plenário da Câmara Municipal de Maceió.
Foto: Joyce Marina

 
    Marcos Sampaio também declarou que a FMAC considera o Hip-Hop “uma expressão legítima da música e da dança” e garantiu que a Fundação “está trabalhando para desenvolver ações voltadas a esse gênero em Maceió”.