14 de mai de 2018

Controle biológico de pragas: importância da cotesia flavipes na plantação

Manejo integrado diminui impactos causados por agrotóxicos no plantio da cana de açúcar em Alagoas

Por Bárbara Isis, Lívia Enders, Philipi Accete e Rian Ferreira

Meio ambiente. Produtores e trabalhadores rurais. Operários de diversas fábricas. Consumidores do Brasil e do mundo. Todos são afetados diariamente por um produto químico bastante utilizado e considerado extremamente perigoso: o agrotóxico. Desde a Revolução Verde, em 1950, ele tem sido cada vez mais presente na produção de diversos alimentos que vão à mesa da população, seja como forma de controle de pragas, como de inibidores ou estimuladores de crescimento.
Segundo o relatório nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) de 2016, vinculado ao Ministério da Saúde (MS), o Brasil está figurado entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, apresentando prejuízos não apenas ao meio ambiente, como também à saúde e ocasionando acidentes com a manipulação errada do produto. A utilização de tais técnicas tem fomentado diversos debates e polêmicas acerca do tema, uma vez que, tem se estimulado a proliferação de plantas, doenças e pragas, e aumentado a necessidade do uso de pesticidas.
Embora grande parte seja voltada para o mercado exterior, a produção agrícola do Brasil é realizada em larga escala devido ao vasto território, à qualidade do solo e ao clima. Atualmente, o Brasil é grande produtor de mandioca, laranja, arroz, banana, trigo, tomate e algodão. Além desses, os que mais se destacam, por ordem de colheita, é a cana-de-açúcar, a soja e o milho. Essa produção desenfreada favorece a grande utilização de agrotóxicos no país.
Dentre as áreas de plantio que se sobressaem no Brasil, a cana-de-açúcar é uma das mais cultivadas. Em Alagoas, a área estimada corresponde a 82% de sua produção agrícola, sendo responsável por grande parte do abastecimento do açúcar e do álcool. Além da cana-de-açúcar, o estado também é um excelente produtor de mandioca, milho, fumo, laranja, dentre outros. Nesse cenário, os dados da Agrofit, publicados no relatório de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (Vigipeq) de 2015, mostram que foram utilizados aproximadamente 16 milhões/kg de agrotóxicos em Alagoas, somente em 2012.


Para auxiliar a diminuição do uso desses produtos químicos, biólogos, engenheiros e produtores agrícolas têm utilizado técnicas alternativas cada vez menos agressivas ao meio ambiente e à saúde da população, e que também promovem melhor equilíbrio ecológico. Além de evitar o desperdício de água, de realizar coleta seletiva e reciclagem, métodos como adubos orgânicos, combinações de culturas e controle biológico, realizados através do Manejo Integrado de Pragas (MIP), tem sido considerado importantes aliados na preservação ambiental.
Um dos procedimentos que mais cresce nas lavouras é a utilização do controle biológico por meio do MIP, cuja apropriação do formato surgiu na década de 60. Segundo o biólogo Gustav Enders, o MIP é importante por ter como finalidade o controle de pragas através de técnicas que não tenham grande impacto ambiental. Ele fala que é apenas o início de um planejamento agrícola para a diminuição do uso de agentes químicos nas plantações, de forma que seja evitado um problema maior.
Gustav destaca ainda que, no país, o controle de pragas tem como “cultura” utilizar agrotóxicos. “O uso dos agentes biológicos começou a chamar atenção das pessoas por diversos acontecimentos de desaparecimento de seres vivos que beneficiam a plantação, causando grande impacto ambiental, principalmente em relação à intoxicação. Hoje existe um grande esforço para adoção do manejo integrado de pragas no planejamento agrícola para que esses efeitos sejam minimizados”, complementou.
Antônio Rosário, diretor técnico da Associação dos Plantadores de Cana do Estado de Alagoas (Asplana), comenta que a utilização dos agrotóxicos foi um mal necessário durante muito tempo para o controle de pragas. “Através de pesquisas conseguimos ter o controle de pragas. O controle biológico é muito útil e importante para Alagoas, para o Nordeste e para o Brasil, pois essas pragas acontecem em todo o setor canavieiro”, frisou.

AGROTÓXICOS COMO AGENTES INTOXICANTES

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 70 mil pessoas são intoxicadas e 20 mil morrem por ano devido à inalação, manipulação e consumo de pesticidas - de forma indireta - em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Em 2013, o país notificou a incidência de 6,23 casos de intoxicações por agrotóxicos em uma escala de 100 mil habitantes. Entre 2007 e 2017, houve um aumento considerável de 87%, alcançando um total de 68. 873 casos.
O último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de (IBGE) de 2006, apresentou uma predominância da agricultura familiar em Alagoas correspondente a 91% do cultivo de terra. Sobre isso, o Vigipeq observa a sua fragilidade e analisa o aumento do uso de agrotóxicos no estado. O documento evidencia que “devido às características socioeconômicas, o grupo tende a ter menor acesso à tecnologia e informação, o que pode resultar no aumento do uso de agrotóxicos na plantação, em comparação aos demais produtores”. Outro ponto destacado pelo Vigipeq trata-se da relação à exposição desses produtores às substâncias danosas, devido à ausência de técnicas adequadas de manejo e ao uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).



A nutricionista Verônica Nicácio alerta sobre o consumo de alimentos com esses agroquímicos, que podem causar desde irritação na pele até vários tipos de cânceres, além de desenvolver problemas neurológicos e cognitivos, paralisia, dificuldades respiratórias, alergias, abortos e ainda, malformação do feto. “Existem agrotóxicos usados no Brasil que já foram proibidos em outros países, mas a falta de fiscalização faz com que ainda sejam usados aqui. Além disso, todos os anos a Anvisa divulga o ranking de alimentos contaminados e o tomate, pimentão, morango e cenoura sempre estão no topo da lista”, explicou.
Através da Asplana, foi firmada uma parceria com a Fitoagro para a instalação de dois laboratórios destinados à produção de agentes biológicos, ambos localizados em Ipioca, na região metropolitana de Maceió. A empresa possui um laboratório de fungos, destinado ao combate da cigarrinha e outro relacionado à produção da cotesia flavipes, uma espécie de mariposa que atua no controle da proliferação da broca da cana, conhecida cientificamente como diatraea saccharalis.

Empresa Fitoagro. Foto: Bárbara Isis.

PRODUÇÃO DOS AGENTES BIOLÓGICOS

Devido à parceria com a Asplana, a principal produção da Fitoagro é o controle biológico da broca, através do laboratório de produção das cotesias flavipes. Conforme explica o biólogo Gustav Enders, para trabalhar a produção da cotesia é preciso ter seu hospedeiro, que nesse caso é a broca da cana. No local, são desenvolvidos os ciclos de vida das cotesias, que é um parasita, e o ciclo de vida das diatraeas, que são os hospedeiros.

Cotesia Flavipes. Foto: Bárbara Isis.

De acordo com técnico da Fitoagro, Luiz de Araújo, 95% da produção das cotesias e das diatraeas são destinadas às lavouras e os outros 5% ficam no laboratório para dar continuidade ao controle biológico através do manejo. “Começamos com a produção das brocas, na sala de Oviposição, onde em tubos de PVC revestidos por papel manteiga são colocadas 30 fêmeas e 45 machos para acasalar. Essa quantidade é contabilizada porque a gente precisa ter a certeza que todas as fêmeas colocaram ovos férteis”, disse.
            Luiz explica que após 24 horas acasalando, o papel manteiga é retirado. “Após esse período, o papel manteiga é retirado, desinfectado e são revestidos em um papel alumínio e colocamos numa caixa úmida para manter a massa do ovo. Essa atividade é feita para não ressecar a casca do ovo e dificultar a saída da larva da broca”, ressaltou. Ele conta que após um período de cinco dias, os ovos estarão escurecidos e prontos para serem eclodidos.
            Na sala de Dieta do laboratório, é preparada uma pasta nutritiva que vai alimentar as larvas após a eclosão dos ovos. A dieta é um composto artificial desenvolvida com a pesagem e divisão de 14 componentes naturais da cana-de-açúcar. Preparada em um microprocessador, o preparo leva vitaminas, antibióticos, gérmen, farelo, sacarose, fibra, proteínas, leveduras, compostos que substituem a cana e alguns outros dominantes que evitam a proliferação de fungos, vírus e bactérias.

Dieta da diatrae saccharalis. Foto: Bárbara Isis.

A eclosão ocorre dentro de uma garrafa de vidro que possui a dieta no seu interior. “O papel manteiga é cortado e são colocados cerca de 300 indivíduos por garrafa. A larva vai eclodir, se alimentar da dieta, se desenvolver e vai para a sala de desenvolvimento da broca, onde devem permanecer em temperatura e umidade controladas entre 11 a 14 dias”, afirmou Luiz de Araújo. Após o desenvolvimento, cerca de 95% das garrafas com as melhores e mais resistentes pragas vão para sala de inoculação, já os outros 5% continuam o ciclo da praga no laboratório.

Eclosão em 14 dias. Foto: Bárbara Isis.

 Das pragas separadas para a continuação do ciclo, três são depositadas em uma caixa entomológica com a dieta cortada em cubo e colocadas na sala de desenvolvimento. A cada cinco dias são analisadas e retiradas para se desenvolverem até a fase adulta, quando viram mariposas e são levadas novamente à sala de oviposição, onde o ciclo é iniciado novamente.


As pragas separadas para o desenvolvimento da cotesia são oferecidas pelo corpo técnico às mais resistentes para serem parasitados pela cotesia flavipes, onde a fêmea vai inocular a diatraea e passará por um processo de desenvolvimento.
Sala de Inoculação. Foto: Bárbara Isis.

A sala de brocas inoculadas é onde as larvas se desenvolvem e, após 12 dias, elas matam e saem da broca, formando um casulo de seda, chamado de massa.
Formação do casulo de seda na sala de brocas inoculadas. Foto: Bárbara Isis.

A partir disso, são encaminhados para sala de coleta. No local, o ciclo da cotesia é encerrado, onde são retiradas e separadas cerca de 23 massas por copo de 150ml, que dão em média 1500 cotesias prontas para serem comercializadas.


Francisco Cavalcanti, engenheiro agrícola e diretor da Fitoagro, destaca que a produção diária do laboratório rende cerca de 40 mil brocas inoculadas. Ele conta que o custo desse agente biológico para o controle de pragas na plantação, especificamente da cana de açúcar, é muito baixo. “Cada potinho desenvolvido aqui na Fitoagro com cerca de 1500 cotesias flavipes sai por um custo muito menor que o uso de agrotóxicos, que corresponde a aproximadamente R$ 5,90 por copo. Vale ressaltar também que depois que a broca entra na cana, não tem outro inseticida que resolva, só o biológico, e seu alcance médio é de quatro copos por hectare de plantação”, completou.
O trabalho com o controle, o manejo e a integração entre o químico e o biológico tem refletido em menos problemas ao homem e a natureza devido à sua eficiência e quando não são utilizados agrotóxicos. Embora esses agroquímicos ainda continuem existindo, a conscientização do produtor é necessária, principalmente em relação ao custo, que é mais baixo. Esse controle é uma tecnologia alagoana, altamente voltada para a cana-de-açúcar e tem se mostrado eficaz em qualquer fase de desenvolvimento das pragas.