26 de nov de 2017

O renascimento do Jaraguá

Investimentos na restauração do bairro histórico voltam a trazer vida para a região

Por Isabella Padilha, Izaura Delfino, Jade Katlen e Thaynara Monteiro
O Jaraguá, bairro histórico e importantíssimo no desenvolvimento de Alagoas passou por um longo período de esquecimento mas vem recebendo atenção extra nos últimos anos. Através de revitalizações dos pontos históricos e do crescimento do cenário noturno, o bairro está voltando a ser um dos principais pontos da capital alagoana.

O desenvolvimento de Maceió veio graças ao porto da cidade, situado no Jaraguá. Um dos bairros mais antigos da região, surgiu de uma vila de pescadores e possui diversas histórias e lembranças do estado. Considerado nobre devido ao fluxo intenso de comércio nacional e internacional, sua ruína iniciou na metade do século 20, quando comerciantes e moradores foram abandonando o local. A riqueza foi dando lugar para a decadência, e o bairro foi perdendo o movimento socioeconômico.

Desde o início da história comercial de Jaraguá, o local é marcado por períodos de altos e baixos: “Um desses momentos aconteceu com o movimento de marinheiros em seu porto, lá pelos anos da década de 1940, estendendo-se até a década de 1960, que deu vida boêmia ao bairro, afastando as famílias e passando a ser ocupado por bares e bordéis que animavam as noites de boêmios, poetas e viajantes”, destaca a museóloga Cármen Lúcia.

Ela aponta que quando os bordéis foram transferidos, “veio um longo período de decadência, só quebrado com o projeto de revitalização de Jaraguá que criou muita expectativa em todos nós, nos primeiros anos deste século”. 
Cais do Porto de Maceió logo após a sua inauguração em 1940 (Foto: Autor desconhecido)


A arquitetura
O bairro, que em 2000 possuía uma população estimada de 4.219 habitantes, é dono de uma área de 1,3 km² e é sede da Prefeitura, do Museu de Arte Brasileira, da Associação Comercial de Maceió e do Centro de Convenções.

Segundo a Assessoria de Turismo do Maceió Atlantic Hotéis, a cidade deve parte do seu desenvolvimento econômico ao porto de Jaraguá, que incentivou inclusive a mudança da antiga capital, Marechal Deodoro, para a atual. O bairro se tornou conhecido quando o primeiro governador de Alagoas, Sebastião Francisco de Melo e Povoas desembarcou no porto, em 1818. O bairro possui valor histórico inestimável.
O Banco de Alagoas nos anos 40, em seu auge (à esq.) e atualmente (à dir.) (Foto: Autor Desconhecido/Isabella Padilha).


Marcado pelo seu estilo neoclássico, o Jaraguá teve seus casarões e armazéns restaurados e reformados na década de 90. Hoje, esses locais abrigam bares, restaurantes e casas noturnas. Em 2005 foi inaugurado o Centro Cultural e de Exposições, espaço que possui uma excelente infraestrutura e abriga convenções, exposições, cinema, teatro e outras manifestações artísticas e culturais.

A restauração mais recente foi a da Estátua da Liberdade, que foi modificada pela primeira vez em 2017. Ela chegou em Maceió em 1908. O serviço na escultura de ferro foi responsabilidade da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Semds), que, para a execução da restauração, realizou uma avaliação por meio de um laudo químico para definir os materiais utilizados sem modificar a estrutura do monumento histórico.
A estátua da liberdade de Maceió antes da restauração (Foto: Francisco Buarque).
“Iniciamos a restauração da Estátua por sua importância, hoje um dos símbolos do bairro de Jaraguá. Trata-se de uma peça histórica e, sendo assim, tivemos o cuidado de realizar o serviço com uma equipe técnica para utilizar produtos corretos, garantindo que o serviço seja realizado sem qualquer alteração na escultura. Esta é a primeira vez que a estátua está sendo restaurada desde que chegou a Maceió, há mais de 100 anos, e o nosso objetivo é deixá-la da mesma forma que foi entregue”, declarou Gustavo Torres, titular da Semds.

Atualmente, existe um público interessado em ressuscitar a imagem histórica do Jaraguá, com modificações alternativas na arquitetura que recriam o ambiente, como grafites e lambe-lambes. São eventos variados em casas de show que movimentam a cena noturna do bairro. No carnaval, blocos tradicionais e novos fazem a festa dos cidadãos. E para quem ama fotografia o lugar é ótimo para obter registros. São com os pequenos movimentos da população que a vida do esquecido bairro histórico vai ressurgindo das cinzas.

Em 2011, um grupo de artistas e intelectuais decidiram criar um movimento intitulado Ocupe Jaraguá, que tinha como objetivo a revitalização do bairro, evitando que os prédios históricos desabassem e abrindo espaço para que artistas alagoanos tivessem lugar para apresentar suas artes. O pontapé inicial foi dado e os integrantes do movimento seguem fazendo o que podem para destacar novamente o bairro histórico.

O cenário noturno
Por trás dos muros e histórias do Jaraguá, uma cena alternativa tomou fôlego. As madrugadas do bairro fervem com a movimentação dentro de casas de show. Orakulo, Rex, Havana e Rosa Mossoró são exemplos de espaços localizados por lá que abrigam grande movimentação.

Apesar do peso cultural e histórico do bairro, a falta de atividade noturna gerava desconfiança para quem tinha que transitar por lá. A mudança foi lenta, e hoje o bairro é reconhecido e tornou-se rota na noite alagoana. 
A primeira boate LGBT foi a Havana, recentemente fechada, remodelada e renomeada como Joy Club. Depois delas, várias casas de shows abriram as portas para públicos diversos.

Jorge Cedrim, dono de uma produtora alagoana, afirma que as festas no Jaraguá acabaram ganhando um público próprio e fiel. “A energia do bairro, do lugar, acaba propiciando uma vibe totalmente fora do comum. O Jaraguá é um bairro distante, e difícil de se acessar por ônibus, além de perigoso, e mesmo assim todo final de semana a gente tem uma festa para ir, e melhor ainda, lotada”, explica o produtor.

Diferente das áreas nobres de Maceió, onde produzir festas na maior parte das vezes acaba não sendo rentável pelos preços fora do normal, as casas de show da localidade ganharam um espaço especial no coração dos produtores e do público, que sempre precisa de um ‘rolê’ diferente no final de semana.

“É complicado produzir festa dentro de Maceió por conta dos preços fora do normal das casas de show. Se a gente for cobrar em ingresso valor para bancar aluguel, som, cachê de atração, entre outras coisas, o preço acaba inviável. Se a gente não tem preço para vender, a gente não consegue pagar, e por consequência sem festas.”, disse Jorge. O produtor frisa a importância da diferença de preços entre localidades como a Jatiúca e o Jaraguá e como isso impulsionou o mercado noturno maceioense.  
O Rex Jazz Bar, localizado no Jaraguá, é um dos points da noite maceioense (Foto: Marcos Ferreira)

Quase todo final de semana presente no bairro, e DJ residente de algumas festas, Netto nos confidenciou que a mudança foi bem-vinda pela variedade que se gerou. “Antes, a gente tinha festas restritas, caras e de anos em anos praticamente. O crescimento da cena no Jaraguá forçou os outros locais a abrirem opções, hoje em quase todo lugar na parte baixa da cidade a gente encontra eventos acessíveis, de qualidade, e variados. Tem lugar para ir em todo canto, não falta festa.”
Além da atividade noturna, pela qual o bairro é famoso, muitos artistas de rua escolhem os prédios destruídos do Jaraguá para tentar dar vida ao bairro também durante o dia. 
                                          
A arquitetura histórica do Jaraguá faz contraste com pinturas modernas e atuais (Foto: Isabella Padilha)
O novo projeto de revitalização do Jaraguá

A prefeitura de Maceió está desenvolvendo um outro projeto de revitalização do Jaraguá para 2018. Além da mudança da sede da prefeitura para o bairro, realizada no ano de 2015, mais quatro secretarias irão também ter as suas sedes no bairro.

Segundo o secretário da prefeitura José Lages, o objetivo da revitalização do Jaraguá é a ocupação, e não a reforma em si. "A proposta, que foi enviada para a câmara recentemente, vem trabalhar um pacote de incentivos tributários para os empreendedores que queiram investir no bairro. O bairro precisa ter vida, precisa ter gente. Precisa ter moradia, precisa ter gente vivendo o bairro. O movimento não pode se concentrar só na Sá de Albuquerque, a avenida mais famosa do bairro e durante a noite" explica. 

O projeto passa a vigorar a partir de janeiro de 2018, após a aprovação da câmara. Segundo o secretário, a prefeitura não vai apenas tratar de restaurar os prédios antigos, e sim dar incentivos concretos para que a população, construtoras e empresários queiram se mudar para o bairro.