26 de nov de 2017

Do clássico ao moderno

Os vários estilos musicais apontam a diversidade do estado de Alagoas
Por Bianca Melo, Keroll Gomes e Thalis Firmino
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A diversidade da música alagoana (Montagem: Bianca Melo)
Nem só de forró vive Alagoas. Diversos ritmos e estilos fazem parte do atual cenário musical do estado, uma terra em que quando se fala de música, logo se lembra de artistas como Djavan, Hermeto Pascal e Sandro Becker. Porém, os novos estão surgindo aos poucos, dando vida e voz à música alagoana.
Para a constituição da identidade de determinado lugar, vários elementos podem ser levados em conta, entre eles a música. Ela está interligada com a vida pessoal e comunitária dos indivíduos. Um bom exemplo foi a música erudita que surgiu na Europa e predominou a elite durante início e meados do século XX. Porém, foi nesse século que a invenção do fonograma proporcionou a disseminação musical e também o gosto pela música popular entre as grandes massas.
Com o mercado cultural dos anos 1930, o Brasil também já estava se posicionando como grande produtor musical, reconhecido internacionalmente. Já Alagoas teve seu auge em 1945, segundo o artigo Cultura Musical em Alagoas: Uma abordagem histórica na década de 40 do século XX, escrito pelo estudante de Música da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Danyel Souza, a alta sociedade alagoana se reunia para se divertir ao ritmo contagiante de muito metal, firmando o estilo americano de jazz band no estado.
“Na comemoração da independência do Brasil, por exemplo, a notícia não ganha foco nos desfiles das bandas fanfarras do interior e da capital, mas nas festas civis. Se é mencionada uma orquestra, certamente era uma banda de música tocando seus sucessos. O registro de orquestra deve ser feito não como uma sinfônica, mas, verdadeiramente o que se convencionou chamar de jazz band”, destaca o artigo. Esse estilo era a grande procura de jovens que ingressavam nas filarmônicas onde se aprendia os dobrados e músicas como um todo e daí então começavam a se apresentar nos eventos culturais que a sociedade alagoana organizava.
De acordo com o artigo, “a música é representação, reflexo de como o homem, na sociedade, estabelece seu costume e crença, portanto, sua cultura”. O Brasil é caracterizado como um lugar rico e cheio de diversidade, sincretismo fruto da miscigenação entre os povos e entre os estilos musicais. É nessa realidade que Alagoas se enquadra.
A clássica de Alagoas
21º Aniversário da Orquestra Filarmônica Filadélfia (Foto: Kennedy Herculano)
“A música tem encantos para serenar o coração mais selvagem”, é a frase de The Mourning Bride, a mais famosa tragédia do dramaturgo britânico William Congreve. É inegável o poder residente em uma melodia. Acredita-se que desde os tempos medievais o ser humano possui tal fascinação pelo som, em reproduzir notas que a natureza produz. A música clássica, gênero mais reconhecido como representação de uma sociedade refinada, acabou com o passar dos anos a ser deixada um pouco de lado em prol de músicas mais populares. Porém- a pesar da mudança das eras – a melodia suave, atemporal, vem como um bálsamo sobre as agitações da vida moderna e nos transporta a um ambiente tranquilo, no qual somos embalados pelo doce som de notas que flutuam, hesitam e dançam no ar.
O cenário musical alagoano é, como o resto de nossa cultura, fruto de uma variedade de ritmos e gêneros. No nordeste, a música clássica não é muito popular, embora existam diversas orquestras em igrejas e grupos independentes. A música parece fechada, para um público específico, quase inacessível. Aqueles que se dedicam ao estilo musical geralmente o fazem por paixão, por encontrar na música um meio de expressão pessoal. Em cidades do interior o gênero parece concentrado na música gospel, encontrando espaço dentro de assembleias.
É o caso da Orquestra Filarmônica Filadélfia, localizada em Rio Largo. Fundada em 27 de novembro de 1996, a orquestra faz apresentações em cultos e eventos religiosos. A violista Sanni Mirella dos Santos (20) toca na Filarmônica Filadélfia há sete anos e diz que sua maior motivação é a paixão que nutre pelo gênero. “Minha vida depois de me tornar musicista mudou. É um encanto saber que tenho um dom e que esse dom me acalma através de notas musicais”, conta.
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21º Aniversário da Orquestra Filarmônica Filadélfia (Foto: Kennedy Herculano)
Para Sanni, a carreira como musicista não é muito valorizada em nosso estado e oportunidades para o reconhecimento são quase nulas. “Conheço musicistas de outros estados que contam que são bem valorizados e admirados. Também é fácil encontrar eventos que colocam a música clássica em foco”, relata. Apesar do pouco reconhecimento externo, a jovem diz que o apoio de seus instrutores também a incentiva a continuar refinando suas habilidades no ramo musical.
“Ser músico não dá dinheiro”, é algo que o musicista o musicista Rangel Moreira da Silva ouve com frequência. Porém para ele, a questão financeira não tem qualquer peso em sua dedicação pela música e o reconhecimento não é esperado. “Em nenhum momento penso no lado financeiro. A música é como você gostar de alguém: você não pode gostar de alguém por interesse. Você tem que gostar porque gosta”, diz.
Atualmente Rangel participa de duas orquestras como violinista: Assembleia de Deus do Pinheiro e Orquestra Filarmônica Filadélfia. O primeiro instrumento que aprendeu foi o violão, aos 12 anos de idade, e desde então a paixão pela música só aumentou. “O ser humano sem música, é um ser humano infeliz. A música está presente em todos os lugares. Até onde há silêncio, que faz parte da música. O silêncio são as pausas que existem na partitura.”, declara. Além do violino e violão, o músico também toca guitarra e contrabaixo.
Apesar do espaço musical para a música erudita em nosso estado ser desacreditado,  muitas pessoas não esquecem a importância do gênero para a cultura nacional. “A produção da música clássica em Alagoas vem crescendo. A Escola Técnica de Artes da Universidade Federal de Alagoas [ETA] tem um papel importante, pois forma o músico que irá participar dos grupos musicais e orquestras”, conta a professora de música e ex-diretora da ETA, Rita Namé. Para ela, o papel da escola de música é crucial para incentivar novos alunos e auxiliar a divulgação da música clássica em nosso estado.
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Escola Técnica de Artes (ETA) - Centro (Foto: Thalis Firmino)
No estado de Alagoas, a grande referência em ensino gratuito no campo artístico é a ETA, vinculada a Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Criado por meio da Resolução nº 65/2006 do Conselho Universitário da Ufal (Consuni) em 06 de novembro de 2006, o espaço visa integrar escola e comunidade. Além de ofertar vagas em canto e instrumentos musicais, dispõe de cursos técnicos de arte dramática, dança e produção de moda.  
Em Maceió, é grande o número de pessoas que buscam por aulas de técnicas de canto e instrumentos no geral. Atualmente, cinco grandes escolas estão atuando na formação básica, complementar e técnica, sendo elas: Casa de Música Villa Lobos; Academia de Música; Escola de Música -EllaM e Serviço Social do Comércio (Sesc), estando todas muito bem equipadas e com profissionais experientes e empenhados na formação desses alunos.
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Turmas que passaram pela ETA (Montagem: Thalis Firmino)
Para conhecer mais sobre o trabalho da Orquestra Filarmônica Filadélfia, assista o vídeo institucional produzido por Dash Creations:

Música alternativa alagoana
Um solo de guitarra não é marca apenas de bandas de rock internacional ou do famoso rock brasiliense. Em solo alagoano, o estilo invade muitos corações e constitui o sonho de diversos artistas que pretendem viver de música. Em 14 de maio de 2014 a banda de rock alagoana, Loucos Alados, fez seu lançamento apresentação em Rio Largo durante a primeira edição do Tributo a Charlie Brown Jr., uma das bandas que mais inspiraram o líder e vocalista, Edy Pinheiro. “Vi aquela faixa de 300 pessoas na praça no dia do tributo. Foi quando o Lucas Barros (guitarra solo), Juan Porfírio (guitarra base), Júlio Oliveira (baixo) e eu, começamos a tirar o som mais louco que já ouvi”, comentou.
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Simbolo da banda Loucos Alados (Foto: Divulgação)
Este ano, Edy lançou um Extended Play (EP) solo com quatro músicas, mais voltadas para o rap. “Decidi fazer essa EP para um projeto de equipar mais o meu Home Studio, assim posso também ajudar outros que tem o sonho de ter a sua música tocando por aí. Esses últimos dois anos tem sido difíceis por falta de estrutura para a banda. Mas temos vários projetos que estão no papel e em breve vamos realizar todos eles. Essa EP vai ajudar bastante, apesar de ser solo. Creio que podemos mostrar que sonhos são feitos para serem realizados, só basta encarar que um dia acontece”, finaliza.
O Projeto Palco Aberto, criado em 2004, surgiu com o objetivo de dar visibilidade à música produzida em Alagoas. Desde sua primeira apresentação, realizada no Bar Engenho, no Jaraguá, o público multiplicou e o projeto ganhou as ruas. Levando a música alagoana para outros estados, como Pernambuco, Ceará, Salvador, e até mesmo para o cenário internacional com o Popkomm, em Berlim, Alemanha. Abraçando diversos estilos musicais, foi um dos responsáveis por dar visibilidade à banda Heavens On Fire Band, lançada este ano. “Nossa esperança é que a cena musical alagoana seja mais reconhecida e que nossos artistas possam ser vistos fazendo sucesso no país todo, e quem sabe internacionalmente, independente do gênero”, afirma a integrante do projeto, Susie Cysneiros.
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Cena musical alternativa de Alagoas (Foto: Facebook)
O vocalista da Heaven’s On Fire Band, João Paulo Carvalho afirma que o sonho surgiu ouvindo bandas internacionais, como Nirvana, Guns ‘n’ Roses e Creed. Ano que vem está prevista o lançamento de sua segunda EP e eles já planejam o primeiro CD também para 2018. “A dificuldade de fazer rock no nosso estado vem da falta de oportunidade, pois o ritmo não é bem uma prioridade aqui. Claro que existe público, mas são poucas as casas de show e bares voltados para o nosso estilo. Porém, ao mesmo tempo em que isso se mostra uma dificuldade, também serve como incentivo para a gente se esforçar mais, correr atrás e voar sempre mais alto", desabafa.
Acesse o link e conheça a música com mais visualizações da banda Heaven’s On Fire, The Comet:

Roots do reggae em Alagoas
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Banda Massive Reggae. Da esquerda para direita: Rugery Rodrigues (bateria), Lucas Nascimento (contra-baixo), Di Santos (Vocalista), Luiz Ferreira (Guitarra) e Saramone Gonçalves (violão) (Foto: Facebook). 

Surgido na Jamaica em meados do século XX, o reggae prega mais que um estilo musical, é também uma filosofia de vida. Inspirados no maior símbolo do ritmo, Bob Marley, a banda alagoana Massive Reggae surgiu em 2011 no bairro do Benedito Bentes I. O grupo segue a vertente conhecida como Lovers Music, que usa melodias e canções românticas, estilo eternizado pelo jamaicano Gregory Isaacs.
“O reggae alagoano tem muita identidade, principalmente pelo sotaque e por sofrer influências da cultura local, como o coco de roda e o maracatu. A Massive Reggae carrega muitas referências. O Djavan, por exemplo, que tanto retratou a cidade de forma bem poética fazendo uma mistura de vivência com sentimentos. Nossa música é carregada disso, dessa verdade que viver em Maceió nos proporciona”, relata o contra-baixista e um dos fundadores da banda, Lucas Nascimento.
Com influência de bandas brasileiras como Natiruts e Planta e Raiz, a Massive é regada a Música Popular Brasileira (MPB) mesclada com o autêntico reggae da Jamaica. Em 2014, gravaram seu primeiro trabalho em estúdio com cinco faixas originais e um clipe lançado no ano passado. Segundo Lucas, fazer música em Alagoas sempre foi difícil, independente do estilo. O reggae, em especial, sempre se desenvolveu de forma autônoma, ou seja, a maioria dos shows e eventos de reggae são realizados pelas próprias bandas ou por pessoas que gostam do ritmo.
Ainda assim, ele vislumbra grandes planos para o futuro musical alagoano. “Nós estamos produzindo músicas novas e pretendemos lançar um CD em breve. Temos planos de divulgar nosso trabalho pelo resto do país e quem sabe iniciar a primeira turnê. Em Alagoas temos muitas bandas de reggae que tem muita qualidade. Acreditamos que logo a cena irá se tornar mais abrangente, como tem que ser, e nós, da Massive Reggae, esperamos contribuir no que for preciso para que isso aconteça”, afirma.
Para conhecer o último videoclipe lançado pela banda Massive Reggae, da música Não É Mais Segredo, acesse o link abaixo:

O professor de música do Instituto Federal de Alagoas (Ifal), Daniel Cavalcanti, conta que quando veio morar em Alagoas, em maio de 1999, as músicas regionais tinham mais circulação em várias camadas. Na época, a “capital” do reggae era o bairro Jacintinho, o qual frequentou bastante entre 2000 e 2001. “Muitos jovens e adolescentes dançavam e curtiram o reggae da linha de Edson Gomes. Foi lá pela primeira vez que vi o reggae dançado por casais. No meio universitário, Bob Marley, Cidade Negra, Natiruts, eram muito cultuados”, diz.
Daniel também destaca a importância do acesso a computadores e internet. “Com o advento do YouTube, os acessos e possibilidades de divulgação do próprio trabalho ficou muito acentuado. De 2007 para cá, o número de lojas de instrumentos musicais e acessórios multiplicaram. Hoje qualquer garoto tem facilidade para comprar uma guitarra”, afirma. Ainda segundo o professor, ritmos como rock e reggae já estavam na dianteira há anos, apenas aumentaram suas tribos pelo Brasil afora, desde as capitais até as pequenas cidades. E em Alagoas não seria diferente.
Apesar do pouco investimento e das dificuldades em ter sua música valorizada, os artistas que hoje sonham em fazer sucesso representando Alagoas, não desistem de conquistar espaço aos poucos. Com o uso de redes sociais, eles conseguem deixar sua marca e conquistar um público fiel, que tem a mente aberta para ritmos que não fazem parte das raízes alagoanas.
A música Alagoas, de Djavan, retrata com precisão o que significa querer viver de música nas terras das belas praias. “Você me deu liberdade pra meu destino escolher, e quando sentir saudades poder chorar por você. Não vê, minha terra mão que estou a me lamentar, é que fui condenado a viver do que cantar”.