26 de nov. de 2017

Coletivos culturais em Alagoas: arte e resistência

O resgate da cultura local através do altruísmo e da união

Por Nayara Lucena, Mácio Paulo e Eduardo Maurício

 Folder Coletividade da Banda Rancore (Foto: Nayara Lucena)
Transmitida de geração em geração, a cultura local possui resquícios de história e origens raciais e étnicas. São raízes de toda uma sociedade que se expressam por meio da arte e da contemplação cultural. Com o advindo da modernidade algumas dessas expressões artísticas podem estar vindo a ser esquecidas ou pelo menos enfrentam uma série de dificuldades como a carência de recursos e a falta do apoio necessário para sua atuação.
É a partir disso que nos deparamos com os Coletivos Culturais, que são grupos que se dedicam a resgatar essas origens e fazer renascer essa chama altruisticamente. Termo criado pela Instrução Normativa nº 1 de 7 de abril de 2015 e regulamentado pela a Lei 13.018 de 22 de julho de 2014, os Coletivos Culturais são organizações ativistas que buscam resgatar um cenário cultural e local, contando com o apoio de toda a sociedade na busca da valorização cultural.


Atualmente os Coletivos Culturais viraram uma espécie de tendência que vem crescendo e exercendo seu potencial por meio de atividades como eventos, shows, caminhadas, exposições e peças de teatro. O trabalho dos coletivos pode ser feito através da música, expressões artísticas, eventos de dança, teatro e até mesmo poeticamente. A maioria dos grupos possuem uma vertente específica em que focam em um determinado trabalho e o realizam em prol da sociedade. Essas entidades exercem um papel fundamental nessa conjuntura atual de desvalorização e esquecimento das nossas raízes, e o apoio a cena local é de extrema importância para a sobrevivência desses grupos que em sua maioria não recebe patrocínio ou renda fixa do Poder Público. Segundo Bruno Alves fundador do Coletivo Volante vivemos um período de precarização das artes, onde ocorrem constantes cortes para cultura e ausência de editais e leis de fomento em Maceió e Alagoas.


O objetivo principal dos coletivos é trazer a tona algo que muitas vezes a modernidade não torna visível, resgatando origens e valorizando minorias esquecidas. É um trabalho de resistência e luta, e a denominação “coletivo” não é à toa, já que necessita de toda uma coletividade. Há um apoio mútuo, existe esse espaço para se ter ideias e fazê-las acontecerem. O nordeste é rico em cultura, e Alagoas em si está inserida nesse cenário. Existem mais de 20 coletivos em ativa atualmente em Maceió, e uma boa parte deles possuem muito a dizer.


AS EXPRESSÕES ARTÍSTICAS EM BUSCA DA RESISTÊNCIA


A busca do equilíbrio do corpo e espírito é uma constante luta de todo ser humano. Há quem diga que o teatro promove essa expressão e nos deixa em paz consigo mesmo. Talvez esse grupo de resistentes venham a concordar. Formado por Rayane Wise, Nivaldo Vasconcelos e Bruno Alves, o Coletivo Volante de Teatro teve início de seu processo de pesquisa em teatro em janeiro de 2014 quando se deu a montagem de seu primeiro espetáculo que se chama "Volante”. Após isso outros espetáculos vieram como  o Incelença e o Projeto Texto Ex Machina, continuando com o trabalho. O ator, fundador e figurante do “Volante” Bruno Alves vivencia em todos os seus projetos o processo colaborativo, onde as decisões são horizontalizadas e todos do grupo criam a narrativa do espetáculo. “Desde figurino, sonoplastia, dentre outros. É um processo grupal. Além disso é importante ressaltar nossos diálogos com outros grupos e coletivos da cidade, pois a troca e construção de saberes nos levam a lugares interessantes em nossas pesquisas”, afirma o ator.

Coletivo Volante com seu “Incelença” no Festival de Artes Cênicas de Alagoas (Foto: Alexandra Souza)


O grupo trabalha com projetos paralelos ligados a arte como oficinas de teatro, grupos de leitura além de buscarem editais e patrocínios. “Os dois espetáculos foram construídos sem nenhum patrocínio. No primeiro as apresentações eram realizadas em espaços alternativos, logo não cobravamos ingressos. Já no segundo, dentro do Porão, assumimos o ‘Pague Quanto Puder’, colocavamos uma caixa na entrada do teatro e as pessoas pagavam quanto podiam naquele momento. Foi uma experiência favorável para nós e para o público que podia pagar quanto podia”, afirma Bruno. Além dessas dificuldades, o coletivo ressalta o temível território que a maioria dos coletivos adentram como o da censura, falta de apoio governamental e desvalorização da arte. “ A arte nos faz refletir. Nos modifica, nos torna seres pensantes e autônomos. Sem acesso a isso é mais fácil manipular e direcionar para a estabilidade das coisas, deixando tudo como sempre esteve, rodeado de um moralismo perverso e de um preconceito que só destrói a possibilidade de vivermos em lugar melhor. Acreditamos na arte livre, sem censura e com acesso a toda a população”, ressalta Bruno.


SDKQ CREW: A DANÇA COMO TRANSFORMADORA SOCIAL


Foi na Escola Municipal Luiz Pedro da Silva I, localizada no Tabuleiro dos Martins, modesto bairro da capital alagoana que o Street Dance Kings and Queens (SDKQ Crew) deu seus primeiros passos. Graças a um projeto escolar, o atual graduando em Dança e fundador do grupo, Leonardo Emiliano, se juntou a alguns colegas de classe para montar uma equipe que representasse a instituição.


Leonardo Emiliano, líder e fundador do grupo. (Fonte: Instagram)
O projeto ganhou força, se expandiu. O que antes se limitava à sala de aula ultrapassou os portões da escola e passou a agregar jovens de comunidades vizinhas, muitos deles em situação de vulnerabilidade social, como à exposição ao tráfico de drogas, realidade muito comum nas periferias maceioenses.


O antídoto foi a arte. Leonardo viu na dança uma saída para aqueles meninos e meninas. Por ele (e seu grupo) já passaram em torno de 200 jovens ao longo dos 9 anos de existência do SDKQ Crew. “Muitos já casaram, já tiveram filhos, hoje em dia alguns vivem comigo nesse caminho da dança desde 2011 até hoje. Mas todo ano sempre alguém sai, alguém novo entra”, conta Leonardo.


Infelizmente, manter o grupo é uma luta constante. Seja pela realidade econômica, seja pela realidade social. Por um lado, a falta de patrocínio financeiro para custear figurinos e cenários, essencial para a manutenção e bom desempenho do grupo.  De outro, o contexto familiar dos membros, que implica em desavenças e desencontros.


SDKQ Crew em apresentação (Fonte: Instagram)


Léo afirma que ao longo de sua trajetória à frente do SDKQ Crew viu muitos integrantes saírem ou serem prejudicados, ainda, por certo preconceito. “Em 2014 a gente passou por uma crise na qual ocorreu a saída de muitos integrantes porque os pais não permitiam e algumas das integrantes, por estarem em alguns relacionamentos que o namorado estava com ciúmes, também deixaram o grupo”.


Mas isso não desanima o jovem professor de dança, que recentemente conseguiu montar, junto com o restante do coletivo, seu próprio espetáculo, totalmente independente e construído de forma singular. O show foi no teatro Gustavo Leite e na 8º Bienal do Livro de Alagoas. SDKQ Crew resiste.





CARA CREW E A REPRESENTATIVIDADE NA DANÇA


O hip hop surgiu como um movimento transgressor. Num contexto de problemas sociais como a violência e o racismo, grupos de negros e latinos se aglomeraram para dar início a um dos mais conhecidos gêneros de expressão artística. Desde a década de 70 pra cá ele ganhou o mundo, chegando, inclusive, na capital alagoana. O grupo de dança Cara Crew, usa desse estilo como principal influência - performances quebradoras de tabu.


Membros do Cara Crew (Foto: Bruno Ramos)
Mas não é só no hip hop que o Cara Crew baseia suas coreografias. A atual líder do grupo, Sara Oliveira, conta as influências que serviram para o coletivo construir sua essência. “O cara Crew tem como estilo inicial o hip hop dance que é um estilo no universo da cultura hip-hop, sendo assim temos a liberdade de percorrer por diversos estilos tais como:jazz dance, frevo, Coco de roda e muitos outros seja do universo urbano ou não. A escolha inicial de ser uma movimentações voltada para o street dance é a liberdade que ele nos proporciona”.


Por incrível que pareça, a mistura do hip hop com o coco de roda funciona. Em meio à palmas, batidas de pé e aplausos, o grupo dança numa batida de músicas nordestinas com o gingado do hip hop - Karol Conká é um nome muito presente na trilha -, e anima qualquer um que esteja perto.


Apresentação do grupo no Museu Théo Brandão (Foto: Bruno Ramos)
A alma do grupo surgiu da necessidade de misturar um cunho urbano e contemporâneo com a essência nordestina de seus integrantes, levando a região para onde quer que eles forem. No figurino, cores que lembram o sertão ao mesmo tempo que abraçam a contemporaneidade.


Cara Crew é barulho, voz, representatividade, é “abraçar o universo negro, LGBTTAQ+, o universo da mulher e todos os assuntos a ser tratados na sociedade contemporânea”, afirma Sara. E tinha como ser diferente? O grupo é composto por gays, lésbicas, negros e periféricos, minorias oprimidas pela sociedade que buscam refúgio entre si e na arte. Na dança.


Cara Crew ao final de uma apresentação no município de Delmiro Gouveia (Fonte: Cara Crew)
THE DANGEROUS


“Quero crescer a dança na minha cidade, esse é meu objetivo”, conta Thales Santos, jovem professor de matemática e líder do The Dangerous, grupo de dança de Craíbas, cidade do interior alagoano. Conciliar o ensino da matemática com o comando de uma equipe não é nada fácil, mas, para ele, esse equilíbrio é a receita da felicidade.


A paixão pela dança e coreografia surgiu na adolescência, ao acompanhar a carreira de grandes cantores. Nomes de peso mundial como Usher, Chris Brown e Justin Timberlake faziam os olhos de Thales brilhar.


Apresentação do grupo The Dangerous (Fonte: The Dangerous)
O grupo nasceu através de um projeto escolar chamado Arte e Música em 2009 e, a partir disso, consolidou-se como grupo de dança da cidade de Craíbas somente em 2010. O objeto inicial desta equipe era/é vincular pessoas à dança através de projetos sociais e, assim, trazer mais jovens para integrar ao movimento Hip Hop do estado de Alagoas. O foco principal é montar um estúdio de dança em Craíbas, sonho que parece não ter evoluído muito desde 2009, devido às dificuldades de diálogo com a gestão municipal.


Essa falta de apoio é o principal empecilho na caminhada do professor e seus alunos. Por muitas vezes, ele conta que o The Dangerous deixa de se apresentar em importantes festivais e divulgar seu trabalho. “Ao longo desses sete anos, não recebemos apoio fixo da secretaria de cultura de nossa cidade. Por consequência, temos dificuldades de montar figurinos e até de se locomover para outros municípios por falta de transporte, que muitas das vezes não é cedido pela gestão municipal. O apoio é mínimo, mesmo quando estamos a representar o município em eventos culturais importantes”.


As idades dos membros variam entre 14 e 25 anos (Fonte: The Dangerous)
Ainda assim, Thales ama o trabalho que desempenha no grupo, que veio “como uma forma de desestressar”. O estilo do grupo é baseado no Hip Hop, como o Trap Music e o Dubstep. Na dança, procuram inserir os quatro estilos principais do movimento: Popping, Krumping, Looking e Breaking. E deixam claro que a expressão corporal é essencial para dialogar com o restante.





AS RAÍZES DO FOLCLORE BRASILEIRO SOBREVIVEM NA ATUALIDADE


É música, é movimento e é graça. Uma cultura que grita por resistência. É o que diga Elida Miranda, coordenadora do Coletivo Maracatod@s. Com o objetivo principal de resgatar parte da tradição cultural e musical de Alagoas, o projeto utiliza locais públicos como a Praça Centenário para a realização dos ensaios, buscando proximidade com a população local. “A utilização desses espaços públicos contribui para a humanização da cidade e ao mesmo tempo afasta as ações de violência e criminalidade. Além disso, esse movimento resgata nossa identidade cultural como alagoanos, fortalecendo nossos laços com nossa própria história”, palavras de Elida, pioneira do coletivo que resiste há 5 anos.


Fundado em 2012, o Maracatod@s é um coletivo afro e percussivo, tendo como características a diversificação de ritmos como o Maracatu e outros ritmos africanos. Os integrantes são dos mais variados possíveis. Idade, gênero, etnia, profissão, nada disso parece encontrar um padrão. Pura mistura de experiências musicais que é atualmente comandada pelo mestre Marcelo Barbosa.

Coletivo Maracatod@s na corrida Sicredi 25 anos (Foto: Elidia Miranda)

Dificuldades hão de existir. A valorização da cultura ainda é uma luta em continuidade. Segundo Elida a (r)existência dos grupos culturais é muito importante, e ao mesmo tempo está repleta da difícil tarefa de manter tais projetos. “Existem várias despesas no sentido de manutenção de instrumentos, vestimentas e calçados, deslocamento para ensaios e apresentações entre outros; Como não há um incentivo regular por parte do poder público para o desempenho de tais atividades em geral, fica tudo como responsabilidade de cada um do grupo”, lamenta a coordenadora.


É a partir dessa realidade que se buscam meios de vencer as adversidades e continuar tocando o projeto, mas as vezes a dificuldade é tanta que vencer essas questões não depende apenas do grupo cultural. “Precisamos de um centro cultural que receba ensaios de cada grupo existente e que possibilite locais para guardar instrumentos e materiais. É necessário também que o poder público firme um calendário permanente de eventos a fim de valorizar e fomentar o trabalho de preservação da memória do nosso povo que é realizado de forma tão guerreira pelos grupos culturais de Alagoas.”


Outro coletivo que chama a atenção por tentar resgatar a cultura folclórica brasileira é o Coletivo Afrocaeté. Fundado em 2009 e com o objetivo de se aproximar e valorizar a cultura afro, indígena e de terreiros, o trabalho todo começou no Cenarte, onde as primeiras alfaias (instrumentos musicais) eram elaboradas. “No começo ensaiavámos no Teatro Deodoro. De lá pra cá muita coisa mudou. Hoje temos mais membros na formação do grupos (mais de 50) e nos organizamos melhor internamente, a partir das comissões de trabalho, divididas em áreas como finanças, eventos, entre outras. Em 2015 começamos os Ensaios Abertos, um projeto que fez crescer a visibilidade do Coletivo na cidade e exigiu de nós uma melhor e maior organização interna”, afirma Letícia Sant’ana que trabalha na ASCOM do projeto.
Folder de um dos eventos que o coletivo elabora. (Fonte: Facebook)


O grupo realiza diversos tipos de trabalhos como elaboração mesas de debate sobre a questão indígena em Alagoas, rodas de conversa e grupos de leitura sobre a face negra, feitas na sede do coletivo e reunindo pesquisadores negros para debater questões de raça. Segundo Letícia, o grupo exerce não só uma função cultural, mas também social. “Um Coletivo tem o papel não só de se manter vivo, ativo, mas tem como objetivo articular ações que integram outros grupos e atores culturais. O papel dos coletivos é essencial para o desenvolvimento das cenas independentes, a exemplo do Coletivo Popfuzz, que vai realizar a prévia do conhecido Festival Maionese na sede do AfroCaeté, no dia 11 de novembro. Os coletivos são baseados muito em parcerias. Sem os parceiros que comparecem voluntariamente aos nossos Ensaios Abertos, o evento não existiria. É importante para manter cena viva.”


Quanto aos custos, uma parte do valor é rateado entre os membros, mas a dificuldade ainda se faz presente no coletivo. “Todos os membros pagam uma mensalidade para manter despesas como aluguel, água, luz, etc. O Ensaio Aberto tem funcionado bem como uma alternativa de renda, pois conseguimos arrecadar um bom dinheiro com o bar e bazar. Os cachês de apresentações também ajudam nesse sentido, pois não temos nenhum tipo de patrocínio. Apoiar a cena local com a compra de camisas, indo aos shows, colabora para manter viva uma atividade que em Alagoas já esteve silenciada. A cultura afro no estado tem uma história de luta e a cultura popular recebe pouco incentivo, então resistir depende muito do apoio do público.”, fomenta Letícia.  


PRODUÇÃO INDEPENDENTE: O AUDIOVISUAL E A CENA MUSICAL LOCAL


Conhecidos por tornar a cena alternativa da cidade mais movimentada, o Coletivo PopFuzz que está em ativa desde 2005 atua no cenário local alagoano como um grupo informal de gestores artistas e ativistas culturais. Famosos por produzirem o Festival Maionese, o coletivo tem a função de produtor, criador e catalisador da valorização da cultura local maceioense. É o que diga Nina Magalhães, uma das organizadoras do projeto, que apesar de ter um bom repertório e um bom feed back continua sendo um trabalho grande, mas segundo a mesma, gratificante. “Mesmo que esteja bem difícil viver neste mundo, nós ainda estamos aqui. Resistindo!”.


Segundo a ASCOM do Coletivo, a associação cultural Popfuzz já está inserida no contexto local através das ações que promove, buscando sempre aliar  qualidade e diversidade. “A realização de nove edições consecutivas do Festival Maionese garantiu ao Coletivo Popfuzz reconhecimento neste formato de evento repercutindo na mídia regional e nacional e ganhando o reconhecimento do público.”
Prévia do Festival Maionese com a banda Grupo Porco de Grindcore Interpretativo. (Foto: Nayara Lucena)
O público é presente. Jovens de todos os bairros que acreditam nas influências positivas que a cultura traz. A reflexão de uma jovem que estava presente na Prévia do Festival Maionese traz uma visão ampla das coisas. “Conhecer a cultura local é indispensável para nos tornamos mais ativos, presentes no cotidiano e com um papel na sociedade. Acreditar que pessoas que creem em seus sonhos e podem receber retorno é fundamental para a utopia de um mundo melhor”, nos afirma, Clara Marques.


PRÉVIA DO FESTIVAL MAIONESE COM BANDA DE MG from Nayara Lucena on Vimeo.



O CINEMA ALAGOANO TAMBÉM RESISTE
O cenário audiovisual alagoano parece promissor. Com prêmios a nível nacional e indicações a mostras de cinema internacionais, os produtores e estudiosos da área aqui no estado comemoram o que pode ser um dos melhores momentos para o cinema local.
A opinião da pesquisadora e professora de audiovisual na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Raquel do Monte segue esse caminho. “Vejo o cenário alagoano em expansão. Participei no primeiro semestre da comissão de seleção do Festival de Triunfo, em Pernambuco, e vi boas produções vindo daqui. Além dos filmes, temos observado o fortalecimento de mostras e festivais, como o Circuito Penedo de Cinema e a Mostra Sururu, por exemplo, além do crescimento no número de cineclubes na capital e no interior”, explica.
Diante desse cenário em constante crescimento, o cinema continua vivo também nos coletivos culturais em espaços acadêmicos. Chamadas de “cineclubes”, as associações sem fins lucrativos que visam criar discussões e reflexões sobre cinema estão ganhando cada vez mais espaço nas universidades.
Segundo Raquel, estes grupos têm um papel fundamental na criação de um olhar sobre cultura nos estudantes de comunicação. Ela destaca ainda a importância deles para a formação de grandes cineastas brasileiros. “Os cineclubes permitem, no espaço das universidades, a reflexão e a formação do olhar a partir de uma ‘atividade lúdica’ que é assistir filmes, tudo isso fora do ambiente clássico da sala de aula. Aqui no Brasil os cineclubes tiveram, ao longo da História, papel estratégico na formação de cineastas fundamentais para a cultura do país, como Glauber Rocha, no final os anos 50 e início dos 60, e, mais recentemente, realizadores como Cláudio Assis, Marcelo Gomes, entre outros, que iniciaram seu interesse sobre cinema a partir da experiência cineclubista”.
Para levar essa experiência ainda além do cineclube, a professora realizará na próxima terça (28), a Mostra Universitária de Documentários, um evento criado para apresentar o trabalho dos estudantes do 4º período de jornalismo da UFAL e arrecadar fundos para o Cine Arte Pajuçara, centro cultural que é referência no circuito alternativo de cinema alagoano.
“A mostra de filmes é uma ideia nova. Já fiz curadoria de mostras de cinema e já integrei júris em festivais de cinema, mas exibir filmes produzidos em disciplinas como a Oficina de Produção Audiovisual é algo novo. A ideia é extrapolar o espaço do campus universitário e revelar para a comunidade maceioense o que tem sido feito em termos de produção audiovisual com caráter documental na UFAL. É uma espécie de “prestação de contas”, já que estamos falando de uma universidade pública que é mantida com verba pública e tal. A ideia é fortalecer a cena audiovisual e estreitar o diálogo com os realizadores e produtores da cidade, compartilhando experiências”, disse.
Aluno e um dos diretores do curta “SAUDADE”, que estará em exibição na mostra, Chico Buarque mostra-se animado com o evento, e vê nele um grande potencial de influenciador na formação dos estudantes. “Dentro do curso de jornalismo, a mostra é como um tipo diferente de conteúdo, uma nova área que os alunos descobrem e podem seguir. Além disso, tem todo o significado político, que no caso é a resistência do Arte Pajuçara diante dessa ameaça de fechamento”, explica.
Ao todo, 6 curtas-metragens farão sua estreia no dia 28 em uma sala de 160 lugares e com ingressos sendo vendidos a R$ 10. Além disso, toda a renda revertida para o espaço cultural.
“Como amante de cinema, e do audiovisual no geral, a sensação de ter um filme sendo exibido em uma mostra é indescritível, ver o meu nome nos créditos do meu curta dá muito orgulho, principalmente porque o processo pra chegar até aqui foi trabalhoso. Mesmo assim, no final tudo vale a pena”, relata Chico.
A ideia de realizar o evento no Cine Arte Pajuçara surgiu da iminente ameaça de fechamento do local, que, segundo Raquel, apresenta um grande diferencial com relação aos cinemas comerciais. “O Arte Pajuçara representa um espaço de resistência frente à grande indústria de cinema. É neste local de exibição que veremos filmes que não entrariam no circuito comercial das grandes salas de cinema dos shoppings. Em certa medida, os filmes que entram na sala do Arte Pajuçara favorecem uma outra experiência de cinema que escapa das gramáticas dos blockbusters e que contribui para um ideia de cinema que testa linguagem, inova na forma e nos temas, tornando a compreensão acerca do cinema algo mais plural”.