17 de out de 2017

Violência Classe A

Mulheres de classe média / alta relatam agressões sofridas no relacionamento abusivo e denunciam o despreparo das delegacias especializadas



Por Eurídice Carvalho, Joyce Marina e Mara Santos


Ilustração / Créditos: Reprodução Google

“Como é que eu luto pelo direito dos outros e não luto pelo meu próprio direito?!”, é com este questionamento que Rickelane Gouveia, pedagoga e gestora de uma Organização Não Governamental (ONG) de Defesa da Criança e do Adolescente, conta como percebeu que estava sendo vítima de violência doméstica.
Tudo começou em meados de 2004, quando Rickelane conheceu o ex-esposo. Segundo ela, como em toda relação, nos primeiros meses tudo eram flores. Ainda assim, com toda a beleza e dedicação que envolve o início de um relacionamento, ela percebeu que o parceiro apresentava sinais de possessão.
“Você começa a se negar para que o outro não se chateie. Começou por aí, ele perguntava: -‘você vai sair assim? ’, mas, ‘assim como? ’, me perguntava. Então, antes que aparecesse uma situação eu já não saía, eu já não usava mais minissaia, não usava mais short, comecei a usar legging, blusão, para não permitir que acontecessem momentos de desgaste. Isso foi uma primeira situação”, pontuou.
Formada, pós-graduada e militante dos direitos humanos, Rickelane conta que viveu momentos difíceis durante os nove anos de relacionamento com o agressor. Ele chegou a levá-la para um canavial, onde a ameaçou com uma arma. O episódio aconteceu após o ex-esposo ter lido uma conversa, em uma rede social, onde um amigo a questionava sobre o porquê ela se submetia a um relacionamento abusivo.
“Ele foi à academia, me tirou de lá, me colocou dentro do carro, me ameaçou com uma arma. Naquele momento eu pensei que ia ser o meu fim, eu só achava isso... aí eu tentei argumentar que não tinha sido de tal forma, consegui contornar a situação e voltamos para casa”, relatou a pedagoga.
Para Rickelane, a explicação de aceitar as agressões estava na naturalização do abuso já presenciado na relação dos pais. Segundo ela, a violência contra a mulher é reflexo da sociedade, ao tempo em que o masculino costuma ter domínio sobre o feminino.
“Eu me lembro das agressões do meu pai para com a minha mãe, e noto que às vezes eu me submetia a isso com meu ex-companheiro. Muitas vezes, eu me perguntava o porquê e hoje eu tenho a resposta, porque ficou naturalizado, era normal como é para as pessoas”, contou.
A professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e pesquisadora nas áreas de discurso e gênero, Belmira Magalhães, destaca a naturalização do abuso e agressão sofridos no lar. “Quase todas as mulheres já viram isso [a violência] acontecer em casa. E embora não queiram reproduzir, acabam reproduzindo”.
Há quatro anos, em um fim de tarde, Rickelane decidiu encerrar o ciclo das agressões e expulsou o ex-companheiro de casa. Ele não aceitou, fez ameaças, jurou que mudaria seu comportamento e que cometeria suicídio se a separação acontecesse.
“Eu dei o meu grito de liberdade. Foi sofrido para os meus filhos, mas foi a melhor coisa que eu fiz naquele momento. Ou eu dava um basta ou eu ia me acabar. Ele machucou meu braço, ele me levou para um lugar baldio, cheio de cana, e colocou uma arma na minha cabeça. Da mesma forma que ele ameaçou jogar uma churrasqueira em mim, ele ameaçou tirar o meu filho de mim. Da mesma forma, ele me perseguiu. Isso ia chegar onde? Eu ia ser mais uma vítima”, justificou.
Quando o agressor se convenceu de que Rickelane finalmente estava decidida a se separar, ele foi novamente até a sua casa, armado, e ameaçou incendiar o imóvel com os filhos dentro.
“Lembro que o meu filho tinha uma piscina dessas de plástico, ele rasgou, chutou os vasos, pegou na mão do meu filho e o levou. Nesse momento, a única coisa que eu fazia era pedir a Deus que guardasse o meu filho, porque eu sabia que ele ia trazer o menino de volta. Ele não tinha competência para tomar conta de uma criança”, finalizou Rickelane.

A vergonha não permite a denúncia

Belmira Magalhães explica que a violência contra a mulher de classe média / alta existe, apesar de ser pouco notificada. A professora ressalta que há diversas formas de violência doméstica. Psicológica, moral, física e patrimonial, entre outras. A patrimonial, que se caracteriza em controlar, reter ou tirar dinheiro da vítima, além de causar danos de propósito a objetos da mesma, é a mais presente na classe alta.
A professora Belmira Magalhães  / Foto: Tribuna Hoje
“Na classe média /alta, são pessoas na maioria esclarecidas. Além do mais, existe a fragilidade que todas as mulheres ficam em qualquer classe que estejam inseridas. E na classe alta, quando a coisa fica realmente difícil, a família acaba intercedendo. Então, basicamente
por isso as estatísticas não chegam. Essas mulheres, ou pelo menos a maioria delas, não tem a consciência de ir a uma delegacia. Outro fator importante, e uma coisa muito séria, por isso que a violência psicológica atua enormemente, é a vergonha de apanhar”, explica.
A professora também explicou que a vergonha e a autoestima, que cai bruscamente, faz com que as mulheres se questionem, ou se culpem por algo. E até que elas reconheçam que o companheiro não é como parecia ser, há muito sofrimento.

“Quando se está com uma pessoa, quando você decide viver com ela, na grande e maciça maioria dos casos, a pessoa vai porque gosta. E você admitir que aquela pessoa que você está, aquele ser que você gosta, não é quem você pensou que fosse, é terrível”, ressaltou.

A delegada Fabiana Leão, que atuou na Delegacia de Defesa da Mulher de Maceió durante oito anos, diz que o que impede as vítimas de classe média / alta de levar a questão até a polícia é a fragilidade emocional, a culpa e a vergonha.
“Até o reconhecimento de que elas são vítimas é complicado. E desta forma, para se enfrentar uma delegacia publicamente é difícil. Eu já atendi promotoras, juízas, advogadas, jornalistas, todas as pessoas que vocês imaginam, que jamais poderiam se encontrar numa situação dessas, já foram vítimas. Então não é um fato incomum, qualquer uma de nós pode ser alvo”, garante a delegada.

Ineficiência e insensibilidade nas delegacias, uma segunda agressão

É relato comum entre mulheres, de todas as classes, que o atendimento as vítimas de agressão nas delegacias, que são próprias para esse tipo de denúncia, inclusive na Delegacia da Mulher, é muito ruim e sem comprometimento.
A enfermeira Luciana Silva, viveu um casamento com um agressor por quatro anos. Segundo ela, as agressões começaram após dois anos de um relacionamento que parecia perfeito e que nunca imaginou que precisaria ir até a delegacia por quatro vezes para denunciar o marido.
Luciana conta que a primeira agressão aconteceu após eles terem saído de um show. Alcoolizado, o companheiro se irritou, pois não queria deixar que ela conduzisse o veículo. “Ele me empurrou, me deu um tapa no rosto e me obrigou a entrar no carro. Fui calada até em casa, enquanto ele me agredia verbalmente. Quando chegamos, ele irritado com o meu silêncio, me espancou. Eu consegui correr, entrar em outro cômodo da casa e trancar a porta. Por sorte, ele não foi atrás e como estava alcoolizado acabou dormindo algum tempo depois”, contou a enfermeira.
Segundo Luciana, a outra agressão aconteceu três meses depois. Apesar do pedido desesperado de perdão, regado a muito choro, e da promessa de que agressão jamais se repetiria. Que só tinha acontecido devido à bebida, que não ia mais beber tanto e que a amava demais pra tal.
Assim como a maioria das mulheres, Luciana disse que concedeu o perdão, pois gostava dele, que foi o homem que tinha escolhido para dividir a vida, e segundo os conceitos passados por sua mãe e avó ela havia casado para viver. Mas as agressões ficaram recorrentes e mais graves.
“Fui espancada diversas vezes, fui mantida trancada por três dias dentro de um quarto. Ele me torturava psicologicamente, verbalmente e fisicamente. Queimou minha perna com o ferro de passar roupa, me bateu em uma festa familiar, na frente dos nossos amigos. Me agrediu em uma viagem que fizemos para tentar melhorar o casamento. Tomou meu carro e me impediu de entrar na minha casa quando decidi me separar. Fora as ameaças e confusões depois de separados porque não aceitava o fim”, pontuou Luciana.
A enfermeira conta que uma amiga a acompanhou a delegacia para mais uma denúncia e ficou chocada com o atendimento. E que foi ela quem abriu seus olhos e mostrou que ela não deveria se submeter aquilo, pois era independente financeiramente, tinha sucesso na profissão e que não exista mais amor na relação. Luciana disse que a junção do atendimento na delegacia com a lição de moral da amiga, foi tão constrangedor e vergonhoso que ela decidiu não procurar mais uma delegacia.
“Em alguns lugares a Delegacia da Mulher não abre aos domingos. Como assim?!, a gente tem que avisar ao agressor para só nos bater e agredir nos dias da semana?. Fora que o atendimento parece uma segunda violência, contra nós agredidas. Os policiais são despreparados, desinformados. Alguns até nos atendem com um tom de deboche. Nos tratam como se fossemos culpadas, com toda aquela cultura machista típica. Um descaso, constrangedor”, relata.
A pedagoga Rickelane Gouveia, lembra que quando decidiu registrar o primeiro boletim de ocorrência contra o ex-companheiro, a abordagem na delegacia da mulher também não foi “convidativa”.
“A pessoa que me atendeu disse assim: ‘você tem certeza que quer fazer isso? Você vai lascar com o cara’, mas quem tava lascada era eu com o braço todo roxo da pancada e tudo mais. O atendente perguntava: ‘você tem certeza? Porque depois... ’ e aí a gente se questiona: ‘será? ’”.

A delegada Fabiana Leão / Foto: ADEPOL/AL
Para a delegada Fabiana Leão, apesar dos avanços da Lei Maria da Penha, as delegacias ainda apresentam muitos problemas estruturais. Fabiana disse que a equipe de policiais e servidores deveriam receber treinamento, e que há necessidade de uma equipe multidisciplinar.
“A própria arquitetura do prédio deveria favorecer para não haver exposição. A nossa delegacia aqui do Centro [de Maceió] é aberta, tem uma janela aberta. E não foi uma, nem duas, nem duzentas vezes que eu pedi que se colocassem vidro fumê, porque às vezes acontece do agressor ficar esperando na esquina para convencer a vítima de retirar a queixa”, destacou.
A advogada e especialista em ciências penais, Kandysse Melo cita que o problema das delegacias também está na forma deficiente de abordar as vítimas.
A advogada Kandysse Melo / Foto: Ascom Ufal
“A delegacia não tem que fazer juízo de valor, ela tem que recolher as informações e tecer, só isso! Mas infelizmente a gente sabe que não acontece assim. Sou advogada da criminal e as vezes tenho que acompanhar a mulher até a delegacia. A delegacias da mulher só funcionam de segunda a sexta-feira até as 17h, então após esse horário e nos finais de semana se procura o quê? As delegacias de plantão que não tem respaldo nenhum no atendimento, a primeira pergunta a ser feita é: ‘O que foi que você fez?’. Você foi agredida e te perguntam o que foi que você fez”, pontuou.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizado em 2016, apontam que no Brasil, apenas 11% das vítimas de violência doméstica procuram a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e 13% preferem o auxílio oferecido pela família.
Em Alagoas foram registrados 5.273 DDM’s, no ano de 2015. No ano passado o número aumentou para 7.870. Já em 2017, o índice pode ser maior porque as delegacias estaduais registram, diariamente, cerca de 30 casos.
 Segundo Rickelane Gouveia, o cenário de violência contra a mulher é muito mascarado e o que as pessoas querem é um motivo para entender porque que elas se permitem viver essa condição, mas não se colocam no lugar delas.
“Todo mundo me pergunta: ‘Mas porque você passava por isso?’, talvez se eu soubesse, naquele momento, porque eu passava por isso eu não teria vivido tudo isso. Eu lembro que via como uma coisa normal, que eu vinha de uma família onde via acontecer e depois tudo ficava muito normal. Meus pais, depois de tudo, estavam novamente ali juntos e ainda hoje estão juntos”, concluiu.
Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Data Popular, no ano de 2015, afirma que mais da metade dos homens brasileiros, 56%, admitem ter tido atitudes que caracterizam violência conta a mulher. Nas chamadas classes altas, classe A, o número é ainda maior 59%. As classes médias registram 55% e as baixas 53%.
Esses resultados mostram que a violência nas classes mais altas existe sim, e, por muitas vezes, não é de forma velada como muitos acreditam. A vergonha, o medo, o desrespeito e a exposição da vítima são fatores que contribuem para que as mulheres continuem a passar e enfrentar a questão de maneira solitária, sofrida e silenciosa. Além disso, a falta de cuidado, acolhimento e apoio necessário gera um silêncio que não permite registros, desta forma, a impunidade resiste e a violência contra a mulher continuará acontecendo enquanto tudo isso prevalecer.