15 de out. de 2017

Maria José de Melo: história de amor com o trabalho voluntário

O cuidado com o idoso como forma de valorização da vida e amor ao próximo

Por Bárbara Martins e Lívia Enders

“Quem se predispõe a cuidar do ser humano, seja idoso ou de qualquer idade, está lidando com vidas, tem que valorizá-lo. Afinal, a gente tem que se colocar no lugar do próximo”. As palavras são de Maria José de Melo, coordenadora-presidente do abrigo de idosos Lar Francisco de Assis há 32 anos. Apesar de toda dificuldade enfrentada ao longo do tempo, Maria José não desanima e dedica parte de sua vida ao trabalho solidário realizado na instituição, com atendimento aos idosos e à comunidade no entorno.
Esse não é um trabalho simples, pois é preciso muita dedicação e esperança para que, em meio às adversidades, a garra e a perseverança se sobressaiam. Foi o que fez e tem feito Maria José, lutando fielmente por aquilo em que acredita. Observando o trabalho que desenvolve no Lar Francisco de Assis, é possível perceber o sentimento de amor ao próximo em que ela deposita naquilo que faz, e o que torna seu trabalho ainda mais belo, sem querer nada em troca. 


Maria José de Melo. Coordenadora do Lar Francisco de Assis
(Foto: Lívia Enders)

O envelhecimento da população brasileira tem sido um reflexo do aumento da expectativa de vida, principalmente no elevado número no campo da saúde e a redução da taxa de natalidade. Em contrapartida, tem crescido também o número de asilos no Brasil. São mais de 3550, entre públicos e particulares, atualmente. Isso tem ocorrido por muitas famílias têm dificuldade de lidar com o envelhecimento de seus entes mais velhos. Em Alagoas, há em torno de cinco abrigos.
Os idosos estão vivendo mais. É o que revela a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo mostra que em menos de uma década, o Brasil aumentou em cerca de 8,5 milhões o número de idosos. Esse número já ultrapassa os 276 mil em Alagoas, segundo dados do IBGE, no Censo (2010). Em outras palavras, isso significa que o país já soma mais de 26 milhões de pessoas acima dos 60 anos. Em 2007, esse número era de 17 milhões e a expectativa é que não pare de crescer, chegando a quase dobrar em 2037.
A questão é: será que esses asilos, lares e abrigos para os idosos conseguem suprir a carência deixada pela família? O que seria desses idosos se não existissem esses lares? Quem são as pessoas que administram essas casas e estão por trás dessa grande lição de amor?
Em meio a uma dura realidade para manter o Lar Francisco de Assis funcionando, o amor de uma mulher forte e de coragem, doado diariamente aos assistidos, demonstra que não existe dificuldade quando se quer ajudar. Maria José conta que há uma força para lutar por aqueles que contam com sua generosidade.
            Segundo o livro de registro, localizado no Abrigo, é possível contabilizar a passagem de 1319 idosos, ao longo de sua trajetória como coordenadora do local. Embora o Lar tenha capacidade para abrigar 93 assistidos, Melo conta que houve época em que só podia abrigar 87, devido às condições financeiras limitadas e ao estado no qual os idosos estavam chegando, muito dependentes. 
Ela explica que o número de funcionários no Lar Francisco de Assis, para dar a assistência que o idoso necessita e merece, é insuficiente. “Todos os funcionários têm seus trabalhos remunerados. Os técnicos, os cuidadores, os cozinheiros, os serviços gerais, os que trabalham na portaria, os motoristas, tudo é remunerado. Nós temos 30 funcionários, todos remunerados. O Lar sobrevive exclusivamente de doação. Porém, como os idosos recebem o dinheiro deles, é colocado para eles aquela porcentagem. O restante a gente faz o pagamento dos funcionários para cuidar deles”, relata.
Maria José explica que apenas o trabalho da direção é voluntário. As pessoas que chegam para trabalhar no local e dedicam parte de suas vidas para aquele trabalho, devem fazer com o coração aberto, pois não há condições financeiras para manter um quadro maior de funcionários. Em diversas ocasiões, o Lar Francisco de Assis recebe a visita de profissionais e da população, que se dedicam em levar um pouco de alegria aos idosos.
Diversas instituições já contribuíram com doações, como por exemplo, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e o Departamento Estadual de Trânsito de Alagoas (Detran/AL). Outros locais optam por instituir parcerias como a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) e o Centro Universitário Cesmac (Cesmac). Atualmente, o Lar Francisco de Assis é um os locais assistidos pela Nota Fiscal Cidadã.
Além de atender aos idosos abrigados no local, Maria José conta que os braços da instituição estão abertos para oferecer à população assistência à saúde, ambulatório médico, atendimento nas especialidades de clínica geral, geriatria, pediatria e cardiologia, como demanda espontânea, oferecida a todo o entorno do Lar, também em parceria com o Programa de Atenção ao Idoso e com a Coordenação de Promoção e Educação em Saúde (COPES), da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió.
            Uma questão importante é que, sob sua administração, o Lar Francisco de Assis, que é parte integrante da estrutura da Sociedade Espírita Discípulo de Jesus, vem oferecendo, ao longo desses anos, uma assistência de saúde para a população, não só no bairro da Serraria, mas de outras regiões da cidade. Além da instituição, a Sociedade disponibiliza também, em seu ambulatório médico, aos sábados, o atendimento nas especialidades de clínica geral, geriatria, pediatria e cardiologia – inclusive com a realização de eletrocardiogramas – em demanda espontânea.
Uma das lições que Maria José de Melo traz para todos é que ninguém é melhor que ninguém, que não se pode ou deve julgar, nem alimentar o ódio e o rancor, nem muito menos achar que é sacrifício o que se faz por amor. “Como é que eu gostaria de ser tratada, se eu estivesse no lugar dele? E é assim que a gente faz, a gente vai mais pelos ensinamentos de Jesus. A nossa realidade aqui, é fazer com que eles se sintam gente cada vez mais”, diz Maria José, emocionada.
É com garra e determinação, que a coordenadora desempenha um trabalho louvável à frente da coordenação do Lar Francisco de Assis. Sua força, determinação e vontade de seguir num caminho que muitos não dariam importância, fazem dela uma mulher de exemplo a ser seguido e de ser admirado até por aqueles que jamais conheceram seu trabalho. É de pessoas assim que o mundo precisa. É de mulheres como ela que se faz um mundo menos preconceituoso e intolerante.

LAR FRANCISCO DE ASSIS

Entrada do Lar Francisco de Assis
(Foto: Cortesia/LFA)

O Lar Francisco de Assis é uma organização não-governamental, fundado em 1987, na Serraria. O local tem como objetivo proporcionar aos idosos uma melhor comodidade e qualidade de vida, dando-lhes assistência com moradia, saúde, alimentação, lazer, terapia ocupacional e orientações diversas referentes à boa convivência no meio em que se encontram. Além disso, a Instituição atende também a comunidade carente dos bairros Serraria, Ouro Preto e Novo Mundo.
A partir da fundação 'Sociedade Espírita Discípulos de Jesus', Eurípedes Tenório de Lima, pré-estabeleceu a criação do Abrigo Velhice Desamparada. Após 40 anos de existência, o Abrigo tornou-se pequeno para a quantidade de idosos assistidos pelo local e viu-se a necessidade de ampliar o lugar. Uma parceria entre Zélia Jatobá, José da Costa Sarmento e Coelho Neto fez surgir, no dia 30 de julho, o Lar Francisco de Assis que acolhe, há 70 anos, idosos de toda cidade de Maceió.