16 de out de 2017

A ausência da figura do psicólogo no futebol alagoano

Mesmo os grandes clubes que jogam as principais divisões nacionais não contam com psicólogos na sua comissão técnica. Mas quais as consequências?


Por Bruno Levy, César Oliveira, Joanna de Ângelis e Smack Neto


O futebol alagoano vive uma grande fase no cenário nacional. Os grandes clubes do estado vivem um momento interessante, dando ao estado uma maior atenção devido ao CRB na Série B, e o CSA, que disputa a final do Campeonato Brasileiro da Série C e já garantido  na Série B em 2018. As condições estruturais dessas equipes estão melhorando, com centro de treinamentos organizados e condições de trabalho boas, mas apesar disso, as equipes ainda não utilizam o trabalho de um psicólogo para auxiliar os seus atletas.

Foto: Psicóloga Ângela Casado - Fonte: Ascom CRP-15
Essa realidade está permeada em todo o futebol alagoano. Os 19 clubes da primeira e da segunda divisão do Campeonato Alagoano não possuem o acompanhamento psicológico como parte da comissão técnica. Desde a questão financeira quanto ao modelo de como o futebol é pensado no estado, nenhum clube parece acreditar que o auxílio psicológico seja um diferencial para o desenvolvimento e alto rendimento de seus atletas. A psicóloga Ângela Casado, do Conselho Regional de Psicologia, lembra qual a importância do trabalho do psicólogo junto aos atletas:

- O papel do psicólogo do esporte é crucial para as exigências do esporte do alto rendimento. O nosso trabalho deve ser o de procurar entender e ajudar os atletas alcançarem um desempenho máximo, levando-os ao desenvolvimento e à satisfação pessoal por meio da sua participação junto à equipe multiprofissional. Um time não irá longe se não souber trabalhar a sua parte mental.

Os motivos pelos quais as equipes sem condições estruturais mínimas incluírem os psicólogos são óbvios. O representante do sindicato dos atletas do estado de Alagoas, Robertson Silva, denuncia que os atletas que atuam pelos clubes alagoanos acabam sofrendo com atraso de pagamentos, condições precárias de alimentação e suplementação. Com todos esses problemas, a inclusão do psicólogo nas comissões técnicas dos clubes alagoanos acaba ficando de lado.

PSICÓLOGO NÃO É BOMBEIRO

Uma outra questão bastante recorrente quando existe o debate sobre a necessidade do acompanhamento psicológico dos atletas, é o período em que isso é sugerido. Normalmente, a ideia de contratar um psicólogo surge para ajudar o time que está passando por um momento difícil numa competição, lutando contra o rebaixamento ou perdendo um título que parecia ganho. Por incrível que pareça, isso acaba gerando uma resistência por parte de treinadores e alguns atletas, que acabam vendo a chegada do psicólogo como a representação de uma fragilidade do grupo de trabalho, o que pode ser fatal inclusive para a confiança do grupo.

Recentemente, o CRB viveu um período conturbado na disputa da Série B em 2017. A equipe acumulou uma sequência de cinco derrotas e começou a ver a zona de rebaixamento mais próxima. Com isso, começaram a surgir questionamentos da imprensa sobre uma possível utilização do auxílio de um psicólogo para auxiliar o grupo de trabalho no momento de dificuldade, o que foi prontamente rejeitado pelo técnico da equipe, Mazola Júnior. Ele explicou os motivos da recusa:

Foto: Técnico Mazola Júnior Fonte: ASCOM CRB

- Eu sinceramente não sou a favor do psicólogo em um ‘tiro curto’. Eu sou a favor do trabalho do psicólogo no ano inteiro, que é o ideal. Quando se está ganhando, ninguém fala de psicólogo. Quanto mais unidade, competência, é importante para o clube. Tudo que eu vi e fiz de trabalho, de psicologia no esporte, é a longo prazo. Psicólogo não é bombeiro que apaga incêndio. Não acredito em trabalho de curto prazo desses profissionais.




Tony, meia do Galo, seguiu a mesma linha. Para o jogador, que teve passagens por clubes da Série A e fora do país, o trabalho do psicólogo nem sempre é adequado para todos os atletas do grupo. Mesmo acreditando no fator mental do jogo, ele rejeitou a ideia de trabalhar com um psicólogo na comissão técnica:

Foto: Tony, jogador do CRB Fonte: ASCOM CRB
- Eu não faço uso de psicólogo. Não tenho superstição também, O que temos de ter claro é que ninguém erra porque quer. Eu particularmente tenho a minha cabeça tranquila quanto ao meu trabalho, quanto ao que estou fazendo. Em todas as áreas, 50% está na nossa cabeça. Eu não acredito em superstição e sorte, mas acredito em energia. Não tenho nada contra para quem acha que seja necessário, acho bacana, mas eu particularmente não faço uso desse tratamento.

A falta do desenvolvimento da área da psicologia do esporte acaba auxiliando este cenário em Alagoas. Ângela Casado cita os casos de estados vizinhos que utilizam da psicologia do esporte para auxiliar o desenvolvimento de novos atletas:

- Estamos muito atrasados em nosso Estado por não se apropriarem, ou aceitarem um profissional que estudou a psicologia do esporte, assim como desenvolvermos um trabalho em equipe multidisciplinar interativa. Existem diferenças do Psicólogo do Esporte com formação em Psicologia e o Educador Físico (não pode aplicar testes padronizados). Temos de reconhecer também que, atualmente em nosso estado, faltam profissionais especializados. Em Recife, este cenário está mais desenvolvido, com relação à Região Nordeste, onde em diversos clubes o psicólogo atua no futebol, na vela e muitas outras modalidades.

O Conselho Regional de Psicologia está tentando fomentar a cultura da psicologia do esporte. O órgão está realizando minicursos sobre o tema, com o objetivo de se formar um grupo de trabalho dentro do conselho para ajudar a fomentar a área no estado. A expectativa é que mais profissionais em Alagoas se interessem pela área.

COMO A PSICOLOGIA AFETA O ATLETA

Atualmente, tramita no Senado Federal o PL 13/2012, aprovado na Comissão de Educação, Cultura e Esporte, no dia 25 de abril do corrente ano. Nele, os clubes esportivos poderão ser obrigados a oferecer atendimento psicológico aos atletas para ajudá-los no enfrentamento do estresse e ansiedade antes e depois das competições. No entanto, o papel do psicólogo vai muito além disso, pois ele não atua só nestas situações específicas. Existe toda uma metodologia específica para os jogos coletivos, jogos individuais, assistência à família e aos técnicos. Até mesmo para os profissionais no entorno do esporte e dirigentes. Isso tudo sem esquecer do lado familiar do atleta, realizando uma tríade com técnico-atleta-família.

Recentemente, o atacante Nilmar, atualmente jogador do Santos e que já teve passagem pela Seleção Brasileira, foi diagnosticado com depressão e acabou sendo afastado da equipe para realizar tratamento. Ele só teve o problema descoberto graças ao setor de psicologia do clube, um dos únicos seis da primeira divisão nacional que possuem o serviço. Isso mostra que o meio do futebol ainda está atrasado com relação a psicologia do esporte e que Alagoas apenas segue o modelo empírico de se fazer futebol que impera em todo o país.

Para que o trabalho do psicólogo consiga atingir bons resultados, é necessário que ele acabe sendo contínuo e de longo prazo. O ideal, inclusive, é que o psicólogo trabalhe com os atletas desde a sua formação, fazendo com que eles consigam lidar melhor com as transformações que a vida de jogador pode causar, questões familiares e até mesmo possíveis frustrações por não conseguir atingir objetivos esportivos ou pessoais.

- É um trabalho de preparação psicológica estruturada com avaliação, análise, diagnóstico e treinamento psicológico, a partir de um planejamento (médio ou longo prazos), onde as técnicas psicológicas são baseadas em princípios teóricos. O planejamento psicológico, deve ocorrer nos períodos: pré-competitivo, competitivo e pós-competitivo de acordo com o treinamento físico, técnico, tático e psicológico como assim dizemos - defende Ângela Casado.