31 de mar de 2015

Má condição de trabalho e violência afeta saúde dos professores em Alagoas


“Estudar pra quê? Pra ser professor?” Essa é a fala que muitos alunos proferem aos seus professores, quando são conscientizados da importância do estudo. Frases como essa são comuns nas salas de aula das escolas públicas em Alagoas. Elas ratificam a rejeição social à profissão docente, devido às condições precárias que este profissional exerce a sua função. Eles trabalham o dia inteiro, ficam expostos a pó de giz, pois ainda há escola que usa esse material, cumprem uma jornada exaustiva de trabalho, sofrem ameaças, lidam com desrespeito de alunos, e ainda assim, não são valorizados pela sociedade.



Além da hostilidade em sala de aula, há também o desrespeito por parte da gestão pública, quando esta não oferece condições favoráveis para que o professor possa trabalhar dignamente. As salas de aula são lotadas (em média, 40 a 50 alunos ou mais), sem ventilação, não há recurso tecnológico, e muitas vezes, falta até material de expediente, nem mesmo um microfone, o professor não tem acesso. Para acabar de completar, o salário não faz jus à importância dessa profissão.

Segundo os dados do Portal Transparência do Estado de Alagoas, o salário base do mês de fevereiro de 2015, de um professor com graduação, é R$ 1.325,91, ou seja, não chega nem a dois salários mínimos. E para o professor que não é do quadro dos servidores efetivos, o valor é mais absurdo ainda, R$ 11,16 por hora/ aula trabalhada.

Uma professora “monitora” - assim é chamados, pelo Estado, os docentes contratadas na rede estadual, embora desenvolva as mesmas funções que os do quadro -, conta que chega a trabalhar os três horários para multiplicar esse onze reais e sempre acaba sentindo no corpo o trabalho exaustivo e a rotina puxada que se submete durante a semana.

“Eu trabalho todos os dias, de segunda a quarta ministro aula nos três turnos. Vivo rouca, com dores de cabeça e no corpo. É um absurdo esse valor pago pelo governo, isso é a principal causa das doenças dos professores, porque nós precisamos trabalhar excessivamente para multiplicar esse valor infame que nos pagam. Chega um momento que o corpo não aguenta e acaba adoecendo. Somos mão de obra barata, somo escravos com nível superior” denuncia a professora, que preferiu não ser identificada.

Doenças adquiridas na docência

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O ambiente hostil das salas de aula provoca vários problemas de saúde nos professores. De acordo com a Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (SEE), do inicio do ano até março 132 professores se afastaram por motivo de saúde, após passarem pela Junta Médica do Estado. A secretaria não divulgou quais são as doenças que mais causaram afastamentos.

Em entrevistar aos professores das escolas do estado, eles relataram diversas doenças físicas e psicológicas. Conforme os professores, as doenças são diversas tipos de distúrbios vocais, estresse, depressão, e vários tipos de doenças psiquiátricas. “Tem professores que desenvolve doenças mentais severas, ficam loucos, ou tem depressão”, relata o professor Ailton Rocha.

A professora Deide Bezerra é servidora da rede estadual há 14 anos, dos quais 10 sempre exerceu a função docente, dando aula no Ensino Fundamental, do 6º ao 9º anos. Atualmente ela está afastada das salas de aula há quatro anos, quando saiu de licença médica por sentir rouquidão constante, fica afônica e sentir muita dor ao utilizar a voz. Diagnosticada com cistos nas pregas vocais, Deide conta que o problema foi tão grave que necessitou de cirurgia e desde então, continua fazendo sessões de fonoaudiologia.

“Quando eu falava, mesmo baixo, doía muito. Eu não podia usar minha voz. Depois de 10 anos de sala de aula, minha corpo não aguentou. O problema foi tão grave, que a única solução foi a cirurgia”, afirma.

Segundo Deide, as condições precárias de trabalho contribuem para isso. “O pó de giz do quadro negro, o excesso de alunos e de turmas faz com que o professor force mais a voz e não recurso para microfone”, completa.

Esse realidade é comum na vida dos professores, Deide é apenas mais uma de muitos casos que já aconteceram e que virão. Ela perdeu a característica natural de seu principal instrumento de trabalho, a voz.

“Depois dos cistos, minha voz nunca mais foi a mesma e ficou rouca. Após a cirurgia, as dores diminuíram, mas se eu forçar a voz, sinto dor, por isso não posso voltar para as salas de aula. Desde o afastamento, a secretaria me desviou de função. Já trabalhei na coordenação da escola e hoje estou na biblioteca.

Os professores doentes são encaminhados para o Núcleo de Qualidade de Vida da SEE, que desenvolve um programa chamado Voz que Ensina, destinados a todos os professores das 322 escolas da Rede Estadual de Ensino.

Professora Deide afastada das salas de aula por problemas de saúde, hoje trabalha na biblioteca da Escola Estadual Laura Dantas. Foto: Luzia Sales


Violência nas escolas


Além de conviver com péssimas condições física de trabalho, que deixam a desejar, os professores lidam com um outro agravante nas escolas públicas, a violência. Gritos, xingamentos, ameaças, tráfico de drogas, porte ilegal de armas, roubos, furtos e brigas entre alunos fazem parte do ambiente.

Esses problemas se agravam muito mais nos bairros perigosos. Na Escola Estadual Anaías Andrade de Lima, no Conjunto Virgens dos Pobres, no bairro do Vergel, em Maceió, a violência é constante. O ambiente sofre com ataques de vândalos, usuários de drogas e traficantes, inclusive, já ouve casos deles ligarem para a escola e determinar o horário de fechamento.

“O ambiente aqui é muito violento, tem todo tipo de violência aqui. Furto, arrombamento, tráficos de drogas, brigas entre os alunos. Há alunos que trazem armas brancas e até revolver. Já teve momentos que um traficante ligou pra cá e mandou fechar a escola. Afirmou um funcionário, que não se identificou com medo de represália.

Segunda a ex-diretora Janaína Fernandes, um dos casos mais grave que ela presenciou na sua gestão, em 2008, foi de de uma aluna que foi agredida com pedra. “Uma aluna nossa recebeu uma pedrada e por pouco não perdeu o olho esquerdo. Assustados, os pais dessa aluna a retiraram da escola” lembra a diretora.

Daquele ano até agora, nada mudou. A violência continua tomando conta da escola e trazendo pânico para quem está sempre ali. Isso contribui para o desenvolvimento de transtornos psíquicos. Até o fechamento desta matéria, a SEE não se manifestou.

O poder público abandou as escolas e os professores. A escola de hoje não é mais aquele espaço onde educação, ética e valores morais triunfavam, mais sim um ambiente de muito conflito e com muito violência interna e externa.

O ambiente escolar se transformou em deposito de crianças e adolescentes, carentes de educação domesticas, e que vão para a escola com um único objeto. Não estudar e bagunçar. Agregado a esse absurdo, tem a falta de políticas públicas que favoreçam os docente, tais como: determinar um número reduzido de alunos por turmas, oferecer mais segurança, um ambiente laboral mais adequado, acompanhamento psicológico e psiquiátricos para os alunos que precisam, e acima de tudo um salário digno.

Enquanto este dia não chegar, os guerreiros da educação continuam trabalhando e procuram vencer cada batalha desta guerra chamada escola, lutando por respeito, por educação e, acima de tudo, por dignidade.

Publicado: 31/03/2015*