27 de abr de 2014

Amor que salva: a vida maltratada renasce no centro de triagem do Ibama

 (Foto: Arquivo Pessoal)


Por Milena Monteiro - estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)
Seu nome científico é Bradypus variegatus, porém é mais conhecida como Preguiça Comum. O espécime de sexo masculino não foi batizado com um nome carinhoso como normalmente se atribui a um animal de estimação, mas isso não o impediu de receber o amor que pode ser comparado ao de uma mãe por um filho, durante cinco meses de convivência diária.


Isabella Nogueira, de 20 anos, é estudante de biologia e estagiária na sede do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em Alagoas. Logo nos primeiros meses de estágio lhe foi atribuída a difícil tarefa de cuidar de um bicho preguiça.

O procedimento é comum no Centro de Triagem de Animais Silvestres, o CETAS. Estagiários recebem a tutela de alguns animais que apresentam dependência de cuidados maternos. Filhotes da espécie necessitam dessa segurança enquanto se preparam para a vida adulta e precisam, por exemplo, ser carregados nas costas o tempo todo durante cerca de nove meses.

Ainda filhote, a preguiça chegou ao instituto por meio de uma apreensão, com aproximadamente três meses de vida. Com ele, estavam sua mãe e um irmão, que não resistiram à viagem. Foi a partir daí que Isabela teve sua rotina totalmente modificada. A estudante tornou-se responsável por outra vida e passou a carregar o estigma que recai sobre os filhotes de preguiça que chegam ao Centro de triagem. Em geral eles não sobrevivem, mesmo sob cuidados especiais.

(Foto: Arquivo Pessoal)



Nova rotina

Isabela conta que algumas pessoas acabam criando a preguiça como animal de estimação, o que acaba prejudicando sua sobrevivência. “Muita gente acha que sabe criar uma preguiça, mas, em geral, elas necessitam de mais cuidados e não se adaptam à domesticação” lamenta a estudante.

A alimentação desses animais durante os primeiros meses de vida é exclusivamente à base de leite de cabra, através de mamadeira, oferecida a cada duas horas. Após esse período, são introduzidas folhas de embaúba, que é a preferida pela espécie.

A estagiária afirma que não foi difícil cuidar do espécime, apesar de ter que voltar sua atenção 24 horas ao animal. “A única dificuldade foi na convivência social, principalmente na hora frequentar alguns lugares onde a vigilância sanitária proíbe a entrada de animais”, conta.

A tentativa de reinserir a preguiça à natureza consiste na separação do animal e seu tutor. O caso delas não foi fácil. Nos primeiros dias o espécime emitia um som similar ao choro humano, sempre que sua tutora se afastava, resistindo às tentativas de readaptação. Após cinco meses, durante a ausência de Isabela, o bicho conseguiu se alimentar sozinho, o primeiro passo na readaptação. A partir desse acontecimento as duas tiveram que se separar definitivamente. Isabela se emociona e diz que sente muitas saudades, mas sabe que é melhor para a preguiça viver em seu ambiente natural. “Foi muito difícil saber que eu não poderia mais vê-la, mas saber que ela conseguiu se readaptar a mata, como deve ser, é compensador” desabafa Isabela.

Após a separação, a preguiça passou a residir integralmente nas dependências do CETAS e, recentemente, foi solta em uma mata no interior do estado. A localização das solturas, geralmente, não é revelada pelo IBAMA a fim de inibir a caça dos animais.

Um problema sem solução
O animal, atualmente com pouco mais de um ano, é o segundo caso de reinserção bem sucedida de preguiça resgatada filhote aqui em Alagoas. Não se sabe exatamente o motivo, mas elas entram numa depressão repentina em alguma fase durante o período de cuidados e morrem.

Não existe no Brasil nenhuma instituição especializada no processo de readaptação do filhote de preguiça ao habitat natural, o que dificulta o sucesso nos casos e induz ao erro.
(Foto: Arquivo Pessoal)


CETAS

A preguiça faz parte dos 363 mamíferos que deram entrada no CETAS em 2012. O número entra na lista com 606 répteis e, inacreditáveis 3.869 aves. Segundo as estatísticas do IBAMA, a maioria dos animais é reinserida com sucesso à natureza, porém o número de óbitos ainda é grande, chegando a 1/3 do total das apreensões. No primeiro semestre de 2013, deram entrada na Instituição 143 mamíferos, 212 répteis e 2.031 aves, seguindo a mesma média do ano anterior.

A maior parte dos bichos chega ao setor através de apreensões realizadas pelo Batalhão de Polícia Ambiental e são frutos de tráfico. Também há casos de animais que são encontrados por pessoas e levados à instituição. Animais vítimas de maus tratos e casos de atropelamento são bastante comuns.

O profissional responsável pelo setor, o veterinário Marius Belluci, explica que a inexistência de uma política nacional de fauna no Brasil, assim como o pouco investimento em profissionais da área ambiental por parte do governo, dificulta a qualidade do atendimento a esses animais. “É necessário que haja investimento em políticas de fiscalização para auxiliar no combate ao tráfico de animais silvestres. Além de trabalharmos com uma equipe reduzida, não temos nenhuma garantia que os animais que conseguimos devolver a natureza não serão novamente capturados” afirma Belluci.

Existem ainda, casos de domesticação desses animais, os mais conhecidos são papagaios e jabutis. A prática é ilegal e acarreta uma multa de cinco mil reais por animal apreendido. Porém, não existe uma política de fiscalização, sendo assim, esses casos só são reconhecidos através de denúncias.

A equipe do CETAS recomenda a criadores irregulares que façam a entrega de seus bichos à sede. O procedimento consiste no preenchimento de uma ficha de cadastro com informações sobre o animal. A entrega por livre vontade é entendida como “arrependimento” e o indivíduo não recebe multa por isso.

As denúncias devem ser feitas ao Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA), ao Corpo de Bombeiros ou até mesmo à Polícia Militar. A identidade do denunciante não precisa ser revelada.
(Foto: Milena Monteiro)

(Foto: Milena Monteiro)

(Foto: Milena Monteiro)