O conhecido Riacho Águas do Ferro, que deságua no mar de Cruz das Almas, é o que apresenta maior toxicidade dentre os 11 rios e lançamentos de esgotos da região metropolitana de Maceió. Esse foi o resultado de análises feitas por uma equipe de pesquisadores, coordenada pelo professor Roberto Caffaro, do curso de Engenharia Ambiental e da pós-graduação em Recursos Hídricos e Saneamento da Universidade Federal de Alagoas.
O estudo constatou que a toxicidade média do Riacho do Ferro é ainda duas vezes maior do que a toxicidade média do esgoto lançado pelo Emissário Submarino, instalado na conhecida Praia do Sobral e operado pela Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal).
Pontos de coleta das análise ecotoxicológicas

O estudo, concluído recentemente, é o primeiro realizado em Alagoas para  testar a toxicidade de águas de rios  e lançamentos de esgotos que influenciam a qualidade das águas litorâneas no Estado.
O professor Roberto Caffaro explica que uma das hipóteses para explicar o resultado preocupante é a proximidade do riacho com a área de impacto direto do extinto Lixão de Mangabeiras, pois mesmo desativado, produzirá durante muitos anos líquido conhecido como chorume. “Estudos estão em andamento para testar essa hipótese com novas coletas de águas na Bacia das Águas do Ferro”, disse.
Denominado de “Caracterização ecotoxicológica inicial de rios e lançamentos na região costeira do Estado de Alagoas”, a pesquisa se deu no Rio Niquim (Barra de São Miguel); Barra do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú/Manguaba (Maceió); Rio Reginaldo (Avenida da Paz); Galeria Pluvial do Clube Alagoinhas (Praia de Ponta Verde); galerias pluviais da Avenida Jatiúca e da Avenida Álvaro Calheiros (Jatiúca); Riacho Águas do Ferro (Cruz das Almas); Rio Jacarecica (Jacarecica); Riacho Doce  e foz do Rio Pratagy e do Rio Meirim,  no Litoral Norte do Estado.
O estudo científico realizado pela Ufal tem financiamento do Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal). Conta com participação de alunos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do curso de Engenharia Ambiental e de mestrandos em Recursos Hídricos e Saneamento.
O estudo
A toxicidade é um tipo de poluição que causa impactos negativos aos ecossistemas costeiros e,  consequentemente, ao ser humano, com riscos elevados à saúde. Ela mata mais da metade dos organismos e pode vir de esgotos, mas tem como fontes principais os esgotos industriais e os não domésticos, como os de estabelecimentos comerciais, a exemplos de restaurantes, lavanderias, postos de combustíveis, dentre outros.
O professor Roberto Caffaro destaca que para a análise das amostras, coletadas na foz dos rios, durante maré baixa, os pesquisadores usaram o organismo típico de águas salinas Artemia franciscana (microcrustáceo), com alto grau adaptativo a condições variadas, sendo relativamente pouco sensível à toxicidade. Testes a partir de cistos de Artemia apresentam baixo custo, fácil execução, boa reprodutibilidade e fornecem resultados rápidos. Também não requer cultivo e manutenção dos organismos.
Constatou-se que existe significativa toxicidade no esgoto lançado no Emissário Submarino, como já era esperado, e nos riachos Reginaldo (Salgadinho) e do Ferro, só que o resultado elevado neste último chamou a atenção. Os demais rios, apesar de sabidamente contaminados por esgotos, não apresentaram toxicidade significativa.
Ecossistema costeiro
O pesquisador explica que as águas costeiras, em especial as estuarinas, um ecossistema de transição entre o oceano e o continente, apresentam complexidade e vulnerabilidade à influência do homem. Elas possuem funções vitais como habitat natural de aves, mamíferos e peixes, sendo o ambiente onde ocorre a desova e a criação de comunidades biológicas e, ainda, têm papel importante para as rotas migratórias de peixes com valor comercial. Portanto, é de fundamental importância a preservação e manutenção da qualidade destas águas.
Com a crescente capacidade tecnológica da humanidade em intervir na natureza e retirar desta os subsídios necessários para satisfazer as suas necessidades e desejos crescentes, começaram a surgir os conflitos pelo uso do espaço, dos recursos e o problema da disposição dos resíduos nos ambientes.
“Cerca de 60% das grandes cidades se desenvolveram em torno das regiões litorâneas. A renovação e depuração das águas desses ambientes são dependentes de interações entre processos físicos, químicos, biológicos e geológicos ainda não bem compreendidos. Uma das consequências da poluição, cujos sinais tornam-se mais evidentes com o aumento populacional, são as doenças de veiculação hídrica, as quais estão associadas à falta de saneamento ambiental”, frisa Roberto Caffaro, doutor na área de microbiologia.
Texto: Diana Monteiro – jornalista