pesquisa na Universidade Federal de Alagoas tem se destacado no Nordeste e em todo território nacional. Recentemente, a instituição foi contemplada com o terceiro lugar no 9º Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica do CNPq (http://destaqueic.cnpq.br). O trabalho premiado é intitulado “O Convento e a História da Cidade: O franciscanismo delineando paisagens em Alagoas”,  de autoria da bolsista Taciana Santiago de Melo, com orientação da  professora Maria Angélica da Silva, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).
Taciana: premiação é o reconhecimento do esforço


    Desde 2003, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) premia alguns trabalhos dos bolsistas de Iniciação Científica (PIBIC),  considerando a relevância e qualidade dos relatórios finais da pesquisa. Para se ter uma ideia, foram indicados 1057 bolsistas no intervalo 2003-2010, uma média de 132 inscritos por ano nas três grandes áreas – Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes, Ciências Exatas, da Terra e Engenharias e Ciências da Vida. Nesse período foram 42 ganhadores, sendo apenas quatro do Nordeste (Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte). Portanto, a UFA passa a ser a quinta universidade do Nordeste  contemplada com esta premiação.
     “Foi uma surpresa para nós também, não esperávamos ganhar, já que a príncipio,  uma pesquisa que se reporta a frades e conventos parece bastante distante dos temas de maior apelo na atualidade”, comenta a professora Maria Angélica. A pesquisa sob sua coordenação busca entender a influência das casas conventuais franciscanas na construção dos lugares urbanos, em especial em Alagoas.
     Quanto ao desempenho da bolsista ganhadora do prêmio, a professora comenta que “ela é muito dedicada e responsável, capaz de sacrificar férias ou algum compromisso pessoal para cumprir suas obrigações. Mas o que eu acho ser a sua principal qualidade enquanto pesquisadora é a  generosidade e a discrição. Sempre  se mostrou solidária com os outros membros do Grupo de Pesquisa no sentido de auxiliar os colegas, compartilhar o conhecimento mas também de acolher o que outro produziu e dar continuidade, sem a ansiedade em definir a quem pertenceria o saber. A idéia do compartilhar e a curiosidade em conhecer novas frentes de investigação são outras qualidades de Taciana.
Pesquisa urbana
A Profª Maria Angélica, que coordena o Grupo de Estudos da Paisagem (http://www.fau.ufal.br/grupopesquisa/estudosdapaisagem/), explica que sempre viu no PIBIC um programa de grande importância e participou dos processos de seleção deste de sua implantação na UFAL. Em trabalhos anteriores as pesquisas do Grupo buscavam entender como as cidades se implantaram no Brasil, abordando vinte localidades entre as mais antigas do Nordeste, na faixa territorial que vai da Paraíba ao sul da Bahia. Foi neste contexto que se descobriu o papel dos conventos na vida urbana, em especial os franciscanos. No decorrer da pesquisa, Taciana se propôs a analisar a construção da paisagem em Alagoas a partir das casas de Nossa Senhora dos Anjos e Santa Maria Madalena, situadas nas cidades de Penedo e Marechal Deodoro, respectivamente.
      Embora se saiba da existência de alguns trabalhos produzidos abordando dados históricos e arquitetônicos relativos aos conventos. o diferencial da pesquisa é  investigá-los como elementos urbanos. As casas conventuais desempenhavam várias funções. Como uma mini-cidade, ofereciam vários tipos de suporte. Acolhia os pobres e os doentes, serviam de asilo e como hospedaria, funcionavam como escola, botica e cemitério, atuavam na justiça e influenciavam nas demandas públicas. Além disto, segundo Gilberto Freyre, a cultura brasileira guardaria as marcas do franciscanismo: cordial, plástica, intuitiva.
     A professora relembra que Germain Bazin, um importante curador do Louvre, veio nos anos 1950, observou estes conventos e criou a expressão “Escola Franciscana do Nordeste” – devido à importância e originalidade da sua arquitetura. “Resolvemos nos deter neles”, pontua Maria Angélica. Mas as fontes documentais, procuradas tanto no Brasil quanto em Portugal eram poucas.. “Pensamos: os próprios conventos é que terão que falar”, conclui. E a pesquisa foi buscar dados na própria arquitetura dos 14 conventos da denominada “Escola Franciscana do Nordeste”. Portanto, o Grupo pôs-se novamente em viagem, como no início das pesquisas, agora revisitando as cidades em busca dos seus conventos. O projeto tem o apoio da  Petrobrás Cultural.
Conventos franciscanos
     Constatou-se que as situações dos conventos eram bastante diversas. O convento de Penedo conseguiu preservar suas funções religiosas. Em Paraguaçu na Bahia, o convento perdeu seus traços religiosos – está em ruínas. Em Marechal Deodoro (“parado” há cem anos, funcionou como orfanato e quartel), o convento também está   não é mais casa de frades e aguarda reabertura mas enquanto Museu. Ainda assim,  o convento de Santa Maria Madalena é o monumento mais significativo de Marechal, servindo inclusive de marco visual  da prefeitura da cidade.
     Quanto ao convento de Santa Maria dos Anjos em Penedo, continua muito ativo, exercendo suas funções religiosas e apoiando a comunidade penedense. Os dois conventos alagoanos foram fundados no mesmo ano, em 1660 e são tombados como monumentos nacionais.. O Grupo de Pesquisa Estudos da Paisagem celebrou os 350 das duas casas com um seminário que envolveu as comunidades das duas cidades, visando divulgar a história dos mesmos, com visitas guiadas e fechando  as comemorações nos adros dos dois conventos.
Quanto ao Grupo de Pesquisa Estudos da Paisagem, sempre teve feição  multidisciplinar. Temos geógrafos, historiadores, antropólogos e restauradores”, diz Taciana, inclusive como bolsistas PIBIC..Outro ponto importante é a metodologia, que combina  por um lado, a busca pelo saber através dos canais sensoriais mas por outro, quase ao inverso, emprega  recursos dos softwares de manipulação de imagens.
Quatro Instantes e Um olhar no passado
     Taciana divide a metodologia empregada pelo Grupo de Pesquisa em cinco momentos: Exercícios Sensoriais, Revisão de Literatura, Estudos de Iconografia, Contato com a População e Produção e Socialização dos resultados. Os Exercícios Sensoriais constituem-se no estabelecimento de uma relação direta de cada estudante com o lugar que vai ser investigado. Trata-se de um exercício de observação livre, que lembra o “flâneur” de Baudelaire ou a deriva dos Situacionistas. Tem como meta construir uma relação perceptiva, sensorial e afetiva com os espaços que estão sendo investigados. Portanto, antes de ler sobre os lugares, estes são experimentados.  
A sensibilização é uma das etapas da pesquisa

     “Usamos a sensorialidade – os sentidos guiando as impressões sobre o lugar. E depois fazemos os diários de bordo –  que criamos com as impressões do local,  registradas em textos ou objetos de produção manual e criativa ”, esclarece. Eles são bem diferentes: uns são colagens, recortes e costura, outros são mais arrojados, podem ser garrafas com mensagens para serem lançadas ao mar ou jogos e enigmas gráficos. Taciana mostra um dos seus diários, que tomou a forma de  uma caixa. Nela, optou por registrar suas impressões  dos conventos em cada face, com papel marchê e tintas. Dentro, pequenos detalhes. Há fichas coloridas envolvidas em papel de presente. Cada ficha representa um convento visitado e cada embalagem correspondente, uma experiência sensória.
     “Que cor esse convento me lembra? Na Bahia, o Convento de Santo Antônio do Paraguaçu era o dourado e, as fichas são com desenhos de lá”. O de Cairu, por seus detalhes, mostrou-se um espaço feminino, resultando nestes outros desenhos e em outra cor”, explica. Depois o estudo prossegue através das fontes bibliográficas. Antologias são construídas coletivamente e assim as fontes primárias ficam disponibilizadas para todos do Grupo.
     O terceiro passo é a comparação cartográfica. Na condição de arquitetos e estudantes de arquitetura, as imagens e desenhos gráficos e de observação são destacados. Buscam-se os registros urbanos na forma de mapas, desenhos antigos, que são trabalhados no computador e contrastados com imagens atuais, produzidas pelos membros do Grupo além do uso de fotos aéreas e outros recursos imagéticos A equipe vai a campo buscando comparar desenhos (pinturas) antigos, inclusive os deixados pelos holandeses, no tempo das invasões no século XVII. Como estas imagens são reconhecidas pela sua intenção de fidelidade, busca-se fotografar as paisagens no mesmo ângulo, enquadramento, perspectiva e posição do observador.  Novos mapas e infográficos são criados, deixando claras as conclusões da pesquisa. Assim foi possível mostrar como as áreas dos conventos eram imensas, se comparadas às das localidades onde eram implantados,evidenciando espacialmente a sua importância. Taciana e seus colegas estudaram o caso de Marechal e Penedo, mostrando os vários movimentos temporais que as  cidades passaram no decorrer dos séculos, tendo como centro os conventos.
     O penúltimo movimento é o contato com a população. Buscar os relatos com a intenção de troca de informações ou de acessar o conteúdo do imaginário em relação aos fatos da históri é o objetivo desta atividade. Finalmente, a última etapa  do trabalho é transformar os resultados da pesquisa em informações acessíveis ao público.   O Grupo desenvolve produtos voltados para a socialização e para a educação patrimonial. Um exemplo é o “Enigma da Cidade”. Um livrinho com textura, com projeções sobrepostas – o antigo e novo – nas imagens, uma entrando na outra, feito pelos bolsistas da pesquisa.
     Taciana vem trabalhando em soluções que divulguem fatos da  história dos conventos de Penedo e Marechal, que se confunde com fatos da vida da população e em estudos que permitam a aproximação da mesma com os monumentos.
     Apesar de vivermos um tempo onde a religiosidade tem menos força, os edifícios conventuais guardam expressões estéticas e uma ambiência introspectiva que muito pode falar aos homens e mulheres de hoje. Estudá-los significa também pensar a vida coletiva, no papel exercido pelas comunidades. Dizem as fontes historiográficas que o  ensino em Alagoas iniciou-se nos conventos franciscanos.Portanto, de alguma forma, também compartilham uma vocação com a universidade.
     Voltando à questão da premiação do CNPq , a orientadora comentou: “Fiquei mais feliz do que se tivesse recebido um prêmio individual, pois creio na troca e na solidariedade como a base do trabalho acadêmico”, finalizou a professora. Aguardamos que os estudos realizados auxiliem agora na próxima etapa da pesquisa, qual seja, buscar uma inserção criativa e sustentável destes conventos na vida urbana, através de propostas de reuso.
Texto e fotografia: Hiago Rocha